Quanta luz!
Acabo de receber a minha conta de luz. Estipularam que eu tinha que economizar 104 kwh. Economizei 108. Não sei se devo comemorar esse feito. Ou se devo comemorar o crescimento do consumo de energia da industria local, da ordem de três por cento. Eis a equação. Só Deus sabe, maninha! E só ele saberá o que tive que fazer para atingir a meta do racionamento. Contudo, não quero decepcionar o nosso presidente. Mas a dizer como, acabaria por revelar a minha privacidade.
Que inveja sinto. Estás tão perto da cidade luz. Paris! Voltaire! Balzac! Flaubert! Quanta luz, quanta luz! Luz que alumia, que dá um pouco de claridade à s criaturas. Aqui também há muita luz. Mas a distància entre os dois pontos que separam meio século de brasilidade é tão tênue que pode-se comprovar, no comércio central - lado a lado - uma làmpada elétrica de última geração, fabricada aí bem pertinho de você, na Alemanha, terra de Bach, e uma tosca lamparina fabricada aqui bem pertinho de mim. Creia! Não é souvenir.
Por que estão a fazer isso? Diga! A estudar política, quem sabe sabes e não queres contar. Ou quem sabe a luz de Florença possa clarear. Luz que não se apagou e que há quem diga que brilha para o bem, há quem diga que brilha para o mal, mas que, certeza tenho, continua a brilhar no cerrado central. Eu cá, tenho comigo que tudo isso que está a acontecer tem várias razões e uma delas é que o mundo está pequeno demais para tanta gente. Gente pobre, maninha. Nos últimos 25 anos, segundo a ONU, o índice de Desenvolvimento Humano - IDH, no Brasil, cresceu menos de 0,7%, ano. Esqueçamos os pobres, portanto... deixa eu te contar: tenho amigos que todos os anos vão pescar no Pantanal. Um ano desses fui com eles. Que decepção! Desci do barco que estava ancorado nas ribanceiras do Paraguai, aventurei - adoro aventuras - a caminhar pelas margens do rio. No lugar das lontras e das onças vi frascos de refrigerantes e latas de cerveja. Foi assim com o Vale do Paranaíba, parece-me que assim será com o Pantanal. A turma chegou de lá. Adivinha se pegou peixe? Poucas piranhas. Têm sido elas a razão do turismo no pantanal...
Que mundo ingrato, maninha!? Hoje percebo o quanto era tolo e ignóbil o desdém que fazia dos xirus paraguaios. Por dois anos morei na fronteira. Ficava pasmo de ver, em pleno século vinte, a quantidade de velas de parafina que eles importavam. Aquilo dava-me a noção do que era um país subdesenvolvido e em desenvolvimento, do terceiro mundo. Hoje, vejo-me ao lado de uma lamparina. A própria que um dia, faço justiça, me deu a luz... porque, concluo, não foi a minha mãe, nem o sol e tampouco a lua que me deram a primeira luz.
Preciso terminar, o papel está acabando. Tão perto da Holanda, quero recomendar-te, que quando por lá passar, dê um abraço na família Oudhuis. Aqui, conheci J.W. Oudhuis. Era padre. Pe. Antonino para os brasileiros. Hoje mora em Araguari, em repouso eterno, a irradiar luz. Antonino, recebia dos pais, todo mês, via colis-postaux, muita coisa legal. Roupas para os pobres, charutos, enlatados e laticínios. Mas do que mais gostava, maninha, sem saber ler, era da revista Panoràmica. Bastavam-me, porém, aquelas fotos, em pleno 1971. Cada holandesa, cada sueca, e do Brasil, quando muito, os irmãos Villas Boas, a trocar figurinhas com aqueles índios gigantes da floresta amazónica e nada mais. O resto ficava por conta da imaginação.
Recomendo ainda que aprenda línguas e não maldiga toda aquela água acima da cabeça dos holandeses. Aqui, nossos reservatórios estão quase secos. Doravante repense as potencialidades hídricas do Brasil. Evidentemente, aquelas do Brasil ufanista.
A IMAGEM DO ADVOGADO