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Contos-->Depois do Mergulho -- 11/02/2000 - 23:25 (Adalgisa Lima Silva) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Depois do mergulho

Ana Maria desperta. Entre as dobras dos lençóis, pedaços de um bilhete mal escrito. Em todo ambiente, as horas vazias. Ditando a tragicidade do medo. Das feridas mal cicatrizadas.
-Alguém a quem telefonar ?-Faz que não com a cabeça. Seus olhos provam a dimensão exata das suas carências. Mesmo quando sorrindo me diz adorar o boteco do André e as figuras exóticas que povoam suas noites de delírio.
Pergunto ao Grupo de quem é a culpa. Não é um caso isolado. Milhares de outros estão sozinhos.
No corredor, encontro o médico. Esses jovens de hoje...
-Quer voltar para casa ?-pergunto
-Não sei. Precisa ler o que... Ai, dói o meu lado esquerdo...
Tenho urgência. As linhas trêmulas...
Porque as coisas sempre terminam assim ? Pôxa ! Você entende ?
Batem à porta. “Não deve ter alta antes das dez”. A enfermeira deixa cair o aparelho e resmunga:
-Aos diabos os quem vivem se drogando !
Ana me olha com olhar estranho. Imagino vê-la pela primeira vez. Logo, porém, dá volta por detrás da cama desfeita e eu sinto a sua dor. O seu grito seco. De defesa diante do perigo. Da ameaça que vem de fora.
-Pombas ! Eles também se drogam. Se dopam todos os dias de ambição e poder.
E empurrando com a língua a espuma histérica da revolta:
-Eles mijam no nossos sonhos !
Seus desabafos (truncados ali amargamente) vão compondo uma peça triste, na complexidade dos problemas jamais questionados.
Se me enterram viva
todos os dias, cedo e à tarde
à noite, odeio a farsa que zomba dos desejos
do meu tempo
Ana tentara algumas vezes andar com os próprios pés. Não fora ela quem se aventurara ir para a capital, conseguir um diploma superior ?
Agora, quando pensa rever a cidade de suas origens, sente o chão ruir as seus pés. “Não sei se abrirão as portas”...
Antes, costumava brincar de felicidade nos campos e rios que circundavam a Chácara do Sol. Fazia até sonetos usando como tema o “orgasmo das flores”. Só mais tarde acordou. Haviam lhe roubado as inocências...
-Olhe ! Veja ali o Quinzinho. –E batendo a mão para o amigo:
-Tô aqui bicho !
-É seu colega de classe ? -Pergunto-lhe enquanto entramos no carro.
-Foi. Era da turma do 3oano. Naquele tempo a “erva”corria solta. Também o professor Nonato vivia amarrado nas pernas da Sissa ...
-Esse ensino é uma m...!
A insatisfação era visível e irônica. Dissera mil vezes para si mesma que tudo aquilo era sombrio. O que queria mesmo era que lhe levassem um botão de Bem-me-quer nas aulas de História Pátria.
-O que se faz dos entulhos sociais ?
Voltou a ter medo. Mas era um medo diferente daquele de sua mãe, funcionária pública há mais de vinte anos, que se alimentava de perdas e recuos. Apesar de ter reservado em seu coração de filha um destaque especial, nunca perdoara o fato de sua mudez, quando ferida na alma e no salário.
-Gostaria de ver toda essa gente de cabeça feita...
-O que ?- surpresa, percebo que absorvi o tempo em triste reflexões.
Estamos chegando em Guimarães. Na rua Gonçalves Dias, faixas e cartazes indicam as próximas eleições municipais. Tudo fica claro. Até o receio de que Ana volte a sangrar mais uma de suas veias.
-Essa cidade é de fazer pirar qualquer pessoa que queira mudar a consciência do povo. Imagine você que cansei de assistir ao tio Inácio negociando o voto dos eleitores.
-Mas as coisas estão mudando...-digo, tentando dissuadí-la da descrença e do pessimismo daquele momento. Havia entendimento para tanta complexidade ?
Lembrei de certo aluno de Filosofia :
“Da sombra turva desvio pálido
sobre as dores na rua
vacilam minhas pernas, meu pensamento
A cada passo, a cada tosse,
mais me desfaço”

Para Ana, a vida lá fora continua a mesma:Uma barganha de interesses
A única arma que a sustenta é a vontade.
Uma vontade capaz de superar a sua grande fragilidade imposta pelos desafios da discriminação social e familiar.
Senhora de suas vontades, voltaria a procurar o aconchego materno. O que importa agora é a sensação de um sentimento maior. Maior que qualquer repulsa ou contestação.
Resoluta, caminha em direção da verdadeira realidade.
Toca a campainha. Chegou a hora, diz corajosa. Acompanho-a de longe e ouço a sua voz:
-Oi, pai!
-Oi, mãe!

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