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Contos-->A Velha e o Papagaio -- 06/05/2004 - 23:16 (Alessandro Ramos) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
A Velha e o Papagaio

Ela olhava para o enorme papagaio à sua frente e dizia "curupaco, curupaco". A ave verde de mais de um metro e sessenta de altura olhava para sua cara e dizia. "Não seja ridícula, velha nojenta". Ela estava cheia de boas intenções, pedia para o papagaio dar a pata. Ignorava que o bicho assumia uma face humana, ainda que uma face esverdeada e com um bico amarelo.

"Por que não morre logo, desgraçada?". O papagaio, sentado na poltrona com a cabeça apoiada na mão, usando um camisão de flanela coberto de penas verdes olhava impaciente para a Dona Jurema, que jogava vagarosamente seu corpo para frente e para trás em sua cadeira de balanço. Ela, uma simpática senhora de oitenta e quatro anos, sorria para a criaturinha meiga que usava tênis All Star, e tentava lhe ensinar palavras novas. "Biscoito, biscoito". Se pedisse para ele repetir o que ela dizia com frases como "fala biscoito ", a ave repetiria exatamente o que mandara. A velhinha suspirava satisfeita com sua própria esperteza. Tá certo que o papagaio já não tinha mais nenhuma pena, era só um rapaz que ela via eventualmente em sua casa, apesar de ter a pele verde como um limão. Ela gostava desse garoto, apesar de sempre estar com a cara amarrada. Sabia que meninos dessa idade gostavam de parecer rebeldes, e não se importava. Havia duas semanas que ela sentiu novamente como era estar lubrificada intimamente, graças a pensamentos sapecas que tivera com ele. Às vezes se envergonha disso.

"Eu matei teu papagaio, retardada, mas não precisa pensar que eu sou um papagaio". Junior olhava para a cara da velha acabada que lhe oferecia uma bolacha, tentava aliviar sua mente pensando nos mil e quinhentos reais que ganhava todos os meses para cuidar dela, já que sua filha há muito perdera a paciência para isso. Mesmo tendo que ficar vinte e quatro horas por dia ao lado da senhora, era um bom serviço, já que ganhava bem para fazer pouca coisa. Mas a velha o assustava. Outro dia tinha atirado nele um copo cheio de leite, dizendo que ele tinha magoado uma mulher. Pelo que entendeu, Dona Jurema o confundiu com uma vilã da novela. Confundia-o sempre com outras pessoas, normalmente com pessoas falecida. Sabia disso porque ela sempre incluía nas conversas frases como "isso aconteceu enquanto você ainda estava vivo". Pessoas dessa idade têm muitos amigos mortos. Mas o que mais o assustou foi quando notou que a senhora tinha se excitado enquanto ele trocava sua fralda geriátrica, mesmo com luvas grossas de borracha e todo o cuidado para tocá-la o mínimo possível. Ficou com nojo por semanas.

Enquanto a velhinha dizia para ele que papagaio bonzinho não podia falar palavrões, ele se arrependia por ter assassinado a ave. Sim, havia um papagaio naquela casa. Ele fazia muita sujeira e ainda passava o dia inteiro repetindo "loro, loro", com uma voz aguda e alta. Afogou a criatura no vaso sanitário, e somente três semanas depois a velhinha sentiu sua falta. Ou não, pois cria que o pobre rapaz era o finado papagaio.

Junior não entendia o que se passava naquela mente perturbada, e nem queria saber por que a filha da senhora só a via no dia do pagamento. Imaginava que a mulher, uma advogada aposentada e de várias posses odiava sua mãe. Ela disse que quando Dono Jurema enfim tivesse o descanso que lhe era devido, lhe pagaria uma boa soma em dinheiro, uma espécie de agradecimento. Claro que Junior não mataria a coitada apenas pela recompensa, não era de sua índole. Porém, isso não o impedia de desejar sua morte.

Então, pensando no que estava recebendo e no que receberia, o garoto sorriu aliviado. Olhava com malícia para a bondosa senhora que lhe falava "loro, loro", e dizia a ela "morra, velha desgraçada". Sabia que nenhuma palavra que dizia surtiria efeito naquela cabeça apodrecida, mas repetia com esperança de que seus desejos se tornassem realidade, "por que não cai dura de uma vez? Já viveu tanto, agora está desse jeito deplorável!". "Curapaco, curupaco", ela sorria, ele a olhava ansioso, como se fosse perecer a qualquer momento. "Morra, velha desgraçada. Tá esperando o que? Entrar pro Guinnes?". Falava com doçura, como um pai ninando seu filho: "Morra, velha desgraçada! Morra!"


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