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Cronicas-->As Vozes Imperativas -- 15/07/2003 - 15:30 (André Luiz Rodrigues Marinho) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
As Vozes Imperativas


Fecha-se o portão. Agora estou preso do lado de dentro do muro. Estou sendo vigiado e qualquer movimento pode ser censurado. Perto de mim, só há homens. Todos estamos enfileirados, aguardando ordens que não fazemos idéia de quais sejam. Na fila, parados, esperamos em silêncio, como se fosse surgir a chance de atacar o inimigo.
Uma voz solene nos ordena que a acompanhemos. Ordem é ordem. Acompanhamos essa tal voz, em fila, marchando, ouvindo os pés baterem na terra molhada, por cima de um cimento vagabundo esfolado e seco. Me sinto como um cavaleiro medieval, vestindo o capacete e partindo para Seja Lá O Que Deus Quiser. O ritmo da marcha é constante e a voz escuta nossos passos, calada.
Lá dentro, até onde a voz nos encaminhou, encontramos outro portão, que se mantém aberto. Entramos e avistamos um número maior ainda de rapazes (seriam guerreiros? guerrilheiros? judeus???). Juntamo-nos a eles. E cada vez mais esse portão, de boca aberta, vai engolindo mais gente, assustada, que entra com medo, com cara de não-sei-o-que-vai-acontecer. Ainda estamos em fila. Esperando.
Outra voz nos é dirigida. Mas esta voz, para mim, não tinha rosto. E seu timbre era tão grave que quase não dava para entender o que dizia. A frase que me soou mais clara foi "não tenham medo". A essa altura, eu nem mais estava com medo do Porvir, mas estava com medo da Voz, sem nome e sem face.
A Voz falou, falou, falou... e ficamos ali, enfileirados, esperando. E como se não bastasse, outras vozes vieram, e também falaram, falaram, falaram... Mas também silenciaram. E no silêncio, continuamos esperando. E esperamos mais, e parecia que nunca mais sairíamos dali. Eu, a essa altura, só pensava na hora em que fossem ligar o gás.
Agora nos chamavam pelos nomes. Saímos de uma fila e fizemos outra, perto do portão, ainda de boca aberta. O gás ainda não foi ligado. "Vamos sair daqui?" pensava. Estava certo. Outra fila, saímos. Marchando, novamente.
Chegamos numa saleta. As Vozes, fardadas, examinam os animais - nós - no estábulo. Verificam os dentes, nossa visão... e nos fazem ficar esperando, esperando. Em silêncio e em inércia. Os animais, desnudos, são postos à prova: prova de quê? As Vozes mandam, os animais obedecem. Erguem os braços, pulam, mexem na genitália, levantam, abaixam, se fazem de palhaços, vestem-se novamente e esperam, esperam. Que coisa mais idiota ter que provar macholinidade...(quando isso não se prova, se compartilha...)
Depois das devidas humilhações, creio que já estou salvo, pois o gás não foi ligado. Mas me mandam de volta (em fila, em silêncio, em inércia) para o portão de boca aberta, que deve me engolir de vez agora. Ainda espero, espero, mas ainda não sei o quê.
No estómago do portão, estou sendo digerido e vou ficando mais aflito, torcendo para que o gás seja ligado. Já não penso mais em nada... sinto gosto de alfafa na boca... Vou me esvaziando, esvaziando, esvaziando... até me chamarem novamente pelo nome (acho que eu conheço essa voz):
- Você quer ou não servir?
Esses militares são mesmo ridículos bancando os democratas. Mas aceito a realidade. Digo que não. Estou liberto da Casa e dos Espíritos*. Me carimbam (assim, como gado marcado) e me mandam embora, com a observação que se for preciso, será requisitada minha volta. Fazer o quê: As Vozes, fardadas, mandam (?). Nós, os animais, obedecemos.

* referência ao romance de Isabel Allende "A Casa dos Espíritos".
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