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Contos-->Maverick V8 -- 26/11/2000 - 21:28 (André Giusti) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Maverick V8

Meu pai entregou as chaves ao novo dono e ele tentou virar o motor. Ranhetou duas vezes e não pegou. Tem que tirar o pé da embreagem, alertei, aflito com a falta de jeito do cara, quase me precipitando em tirá-lo dali e fazer eu mesmo o motor pegar. Eu conhecia os segredos daquele carro mais do que meu próprio pai. Sem graça, o novo dono seguiu minha orientação e o motor pegou de imediato, suspendendo no ar o cheiro de gasolina, chicoteando os muros com aquele ronco estúpido e grosseiro que, exatamente por isso, era glamouroso e despertava a atenção de quem passasse perto. Não seria exagero dizer que minha idéia inicial de virilidade surgiu, ao observar, durante tanto tempo, a imensa lataria sacudir, com o impacto dos oito cilindros do motor, posto a funcionar, provocando o estrondo que cortava o silêncio da manhã deserta da rua tranqüila.
O novo dono engatou a ré e, embaraçado, manobrou na porta de casa. Sem tato ao comando, arranhou todas as marchas e chegou aos solavancos na esquina, quando virou à direita e se perdeu no movimento da avenida principal. Prá dentro, ordenou meu pai, em seu contido e ríspido modo de falar. Ainda conferia mais uma vez o dinheiro da venda e, por isso, não percebeu que eu procurava esconder meus olhos aguados.
Eu tinha dezesseis anos quando meu pai vendeu aquele carro. Nessa idade, o homem só pensa em duas coisas: sexo e automóvel, ambos difíceis de se fazer e ter na adolescência. O rosto da primeira mulher é somente um contorno vago, absorto nas sombras do passado em minha cabeça, mas guardo nitidamente na memória a primeira vez que coloquei aquele carro em movimento. Eu estava lustrando as calotas, quando percebi a chave esquecida na ignição. Sem titubear, me aboletei ao volante, dei a partida, engatei marcha a ré e manobrei na porta de casa. Fui até o fim da rua, procurando lembrar de como eu via meu pai fazendo, ao pisar na embreagem e passar as marchas. Retornei sem ter deixado o motor morrer um só momento e quando embiquei para entrar na garagem, me deparei com a família em peso, assustada no portão, achando que o carro havia sido roubado. Estacionei com perfeição e desci bem calmo, dizendo, ‘tava dando só uma voltinha. Inicialmente espantado com a perícia de um garoto de doze anos ao volante, meu pai recobrou o raciocínio e me colocou para dentro, com um violento cachação na orelha. A surra só terminou após a intercessão piedosa de minha mãe. Marcado de chineladas, fui para o quarto, chorando. Adormeci sem comer, mas extremamente envaidecido de poder contar na escola que eu já sabia dirigir.
Durante os meses e os anos seguintes, as escapadelas naquele carro se tornaram uma rotina inconseqüente. Esperava que meu pai pegasse no sono, procurava a chave e, com o motor desligado, deixava que ele descesse a rampa da garagem até quase o meio da rua. Empurrava-o por uns cem, duzentos metros depois de casa e, aí sim, ligava o motor e saía pela noite, acelerando, impressionando todo o mundo nas festas, nos bares, e desafiando um ou outro carinha metido, nos pegas dos bairros mais distantes. Por sorte, nunca bati nem a polícia me pegou. Também nunca aconteceu o que eu mais temia: meu pai acordar e dar pela falta do carro. E pela minha, em segundo lugar. Do contrário, eu não precisava aparecer em casa, a menos que quisesse virar estatística de violência doméstica. No fim da noite, era só ter a esperteza de passar num posto e completar a gasolina que eu havia gasto, para não levantar suspeita.
Mas as primeiras lembranças daquele carro me vinham da infância mais remota, de meus entendimentos iniciais do mundo ao redor. A imagem dele e de meu pai se fundiam em uma única memória, como se, na compreensão da criança, um não pudesse existir sem o outro. As poucas reminiscências de carinho de meu pai comigo possuem lugar justamente ao volante daquele carro. Ele me punha no colo e, acionando os pedais e a mudança, deixava que eu controlasse a direção, sob sua atenta e severa vigilância. Íamos assim a rua toda e quando chegava na avenida principal, ele me colocava no banco do carona. Eu, com quatro ou cinco anos, me desfazia em berreiros, querendo prosseguir no divertimento. Irritado, meu pai gritava, ordenando que eu calasse a boca. Tenho a lembrança de alguns tabefes nessas ocasiões.
O ronco do motor no portão de casa, ao entardecer, dispensava outro tipo de anunciação. Bastava que subisse a leve inclinação da rampa e, nos fundos da casa, ainda acelerasse uma última vez, antes de desligar. Seu pai chegou, avisava minha mãe, sem necessidade. O barulho do motor era a voz de meu pai, homem avesso às palavras.
Existem outras imagens anexadas a essa relação entre aquele carro e meu pai, tais como as manhãs indo para o colégio e a ameaça constante do castigo, caso não obtivesse a nota máxima; ou, ainda, os domingos de passeios, eu e meus irmãos no banco de trás e minha mãe na frente, todos resignados com as determinações de meu pai ao volante, decidindo aonde iríamos e o que comeríamos. Sem esforço, consigo trazê-las do esquecimento e repovoar um território de melancolia e tristeza.
Fazia um calor abafado naquela quarta-feira de cinzas nublada. Eu estava fora, havia exatamente uma semana. Para fugir da folia, me isolei em um sítio com pinta de abandonado, emprestado por um amigo, no mais distante interior do país. Quando abri o portão, senti algo diferente em casa, mesmo que nada aparentemente houvesse mudado. Girei a maçaneta da sala e percebi o peso do ambiente soturno. No fundo do corredor, a luz da cozinha e vozes baixas indicavam sinais de vida. Andei até lá, sem conter o sobressalto. Seu pai morreu no domingo, disse minha mãe ao me ver, e se demorou em mim com olhos opacos e sofridos. Parecia conformada. Deixei a mochila ir ao chão e, em silêncio, indaguei a todos com expressão confusa. Enfarte, explicou meu irmão, nem deu tempo de levar pro hospital, morreu aqui mesmo, e indicou com o rosto qualquer ponto entre os quartos e o corredor. O enterro foi na segunda, acrescentou minha irmã, tentamos te encontrar, ninguém na rua sabia do teu paradeiro, você some e não diz aonde vai, ela completou, misturando ressentimento ao tom de crítica. Procurei uma cadeira com as mãos, em meio à mobília que girava na cabeça sem tino. Acho que acabei me escorando no fogão. Meus irmãos se levantaram e saíram. Você nem se despediu dele antes de viajar, lembrou minha mãe, tomando o rumo da sala e me deixando sozinho.
Eu tinha vinte anos, quando meu pai morreu. Desde os dezoito nossas relações azedaram de forma irreversível. A hostilidade temperava o espírito das raras conversas. Arrumei emprego, trabalhava duro, almejando o dia de fazer as malas, bater a porta e, sem olhar para trás, excluir da minha vida aquele convívio movido a agressões mútuas. Minha mãe e meus irmãos não me acusavam, mas, veladamente, jogavam em mim a responsabilidade pelo ataque que o matou. Faziam transparecer suas convicções de maneiras indiretas, sem usar das palavras. Na surdina, pareciam confabular, estabelecendo um elo direto entre a violenta discussão que tivemos três dias antes do carnaval e o enfarte fulminante. Certa noite, assistíamos TV e o noticiário explicou que os atritos familiares podem provocar os males do coração. Os três se entreolharam em silêncio, mas foi como se um piano houvesse caído no meio da sala. Levantei-me e fui andar à toa pelo bairro. Voltei no meio da madrugada e adormeci pesado. Sonhei que corria por um cemitério à procura do caixão de meu pai. Ao fundo, eu conseguia ouvir nossas vozes acaloradas em discussão e, em segundo plano, um ronco barulhento de motor.
Um ano se passou até aquela manhã em que precisei revirar as gavetas de meu pai, na busca de alguns documentos para o inventário. Empoeirado e amarelo, um pedaço de papel com um nome e um telefone me chamou a atenção. Aquele nome e aquele telefone...sim, eram do cara sem jeito que comprou o carro. Não sei por qual razão meu pai guardara aquilo. Esperei que todos saíssem. Uma voz rouca atendeu. Sim, fui eu mesmo quem comprou, e ele ainda se lembrava de mim lhe ensinando a ligar o motor. Ansioso, perguntei e ele respondeu, não, não está mais comigo, vendi dois anos depois. Para quem? Para uma agência do outro lado da cidade. Sim, eu tenho o endereço e o número deles, procure o fulano, ele ainda trabalha lá. Agradeci e liguei imediatamente para a loja. Deixa eu puxar aqui no cadastro, como era o carro, o homem perguntou. Dei a descrição, inclusive o número da placa, que nunca esqueci. Esperei cinco minutos. Olha, ele explicou, esse carro foi vendido há três anos para um senhor que, por acaso, é nosso cliente antigo, não sei se ainda está com ele, você quer comprá-lo? Não exatamente, e não entrei em mais detalhes. Anotei o telefone. Duas horas tentando e ninguém em casa. No meio da tarde, uma mulher atendeu, era do meu marido, ele vendeu na semana do natal, para quem? Aí eu não sei, tem que ver com ele, tá sim, vou chamar, ô Zeca! Atendeu uma voz afável, de senhor bem educado e atencioso. Vendi para um conhecido, o filho dele adora carros antigos. O endereço certo, eu não sei, sou ruim de guardar endereços, mas sei que fica naquela rua paralela ao parque central, como é mesmo o nome daquela rua? Eu disse que sabia o nome, nervoso perguntei o número da casa, pois é, o número eu não sei, ele respondeu, mas é fácil, é uma casa amarela de dois andares, fica numa esquina. Delicadamente, ele me perguntou qual meu interesse no carro. Pensei um pouco, acho que é um resgate íntimo, arrisquei. Claro, ele não compreendeu muito bem. É um belo carro, confessou-me, simpático, antes que eu agradecesse a atenção e desligasse.
Precisei pegar dois ônibus. Fui subindo a rua, observando as casas. Talvez tenha andado trezentos ou quatrocentos metros procurando uma fachada amarela, o que na verdade tornou-se desnecessário. No instante em que eu olhava a calçada da direita, um motor roncou pouco à frente no lado oposto. Foi como se alguém, de repente, assobiasse qualquer música que me tenha marcado a vida. Me aproximei em pequenos passos assombrados, até que pudesse fazer o reconhecimento total. As letras e os números da placa, as calotas, a mesma pintura, já um tanto desbotada. Um rapaz de seus dezesseis anos desligou o motor e foi esfregar uma flanela com cera no pára-choque. Demorou um pouco para que me visse estacado no portão. E aí? Balançou a cabeça me saudando e continuou com a flanela. Desculpa eu estar olhando, balbuciei. Tem nada, não, ele retrucou sem interromper o trabalho. É seu, perguntei (Eu no colo, com a mão no volante, as noites pela cidade, os pegas, a porta da escola, a família domingo de manhã. Comprimi os olhos, querendo me livrar dessas imagens). Mais ou menos, meu pai comprou e falou que só libera quando eu fizer dezoito. E você já dirige? provoquei. O velho não deixa, não, mas de vez em quando eu saio pra dar uns rolés sem ele saber, e me sorriu com picardia. Chega aí, dá uma “filmada” nele, e me convidou como se me conhecesse de pequeno. Aí, quando ele tiver na minha mão, vou mandar uma pintura assim, aqui na lateral, colocar uns rodões desse jeito, uns faróis de milha tipo tal. Vaidoso, enumerava incrementos e acessórios. Seus sonhos de menino entravam pelos meus ouvidos, e era como se pretendessem realizar meus próprios sonhos, mortos no tempo. Mas para minha surpresa, me senti resignado, sem ódio ou mágoa do que não tive.
Escuta, desculpa abusar, você me deixa virar o motor dele? O garoto calou, agora desconfiado, mas acabou consentindo. Toma, me entregou a chave e ficou perto, vigiando meus movimentos. Sentei no banco e, como se me preparasse para um salto de pára-quedas, coloquei a chave na ignição e virei. A imensa lataria tremeu, obedecendo ao ronco estúpido e grosseiro. Acelerei de leve e, em seguida, deixei o motor trabalhar normalmente por alguns segundos. Desliguei o carro e a voz de meu pai foi sumindo lentamente, engolida pelo sossego do motor parado. De pé, ainda deslizei a ponta dos dedos na lataria. O teu carro vai ficar lindo, agradeci ao garoto, e fui embora.
Procurei um telefone público. Quando minha mãe atendeu, eu disse - engasgado entre o choro e o riso – acabei de me despedir do papai. Que que tem seu pai? A ligação estava ruim e ela não me ouviu direito.

Brasília, primavera de 2000
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