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Contos-->A SIMULAÇÃO II (Uma história de Brasília ainda não escrita) -- 07/08/2004 - 22:32 (adelay bonolo) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

A SIMULAÇÃO

... continuação

Horácio tinha uma amante, na acepção antiga do termo. Não era nenhuma daquelas que borboleteavam à sua volta diariamente. Era mantida secretamente a sete chaves. Ninguém de nada suspeitava, nem seu mais íntimo amigo.

Como faziam para se encontrar, visto que não havia motéis e sua vida era controlada em cada minuto, seja pelos colegas de trabalho, seja pela própria Dona Rosa, que tinha dele ciúmes pra lá de doentios, era uma incógnita.
Mas esses encontros ocorriam e não eram raros, mas ficavam caros demais, como se verá.

O aeroporto internacional, de madeira, que funcionou durante o período de construção da cidade e na sua 1ª década de existência após a inauguração, já havia sido demolido. Ao seu lado, o atual aeroporto, que recentemente foi totalmente reformado e ampliado, acabara de ser disponibilizado, constituindo-se numa das obras básicas para consolidação da Capital. Com o novo aeroporto e com a chegada de milhares e milhares de novos moradores, os vôos para todas as capitais do País se incrementaram. Por economia de rotas, muitos vôos para o Norte, Nordeste e para o Sul faziam escala em Goiânia ou Belo Horizonte, capitais relativamente próximas.

Por necessidade de serviço, Horácio tinha que viajar por todo o Brasil, em roteiros que às vezes duravam a semana inteira. Quinzenalmente, pelo menos, havia viagem para qualquer parte.

— Rosa, — telefonava ele para casa — vou viajar. Prepara minha mala. O vôo é às 13h.

Deixava tudo preparado na repartição, orientando o seu substituto em todos os detalhes.

— Não ligue para mim, de jeito nenhum. Deixa que todas às tardes eu telefono para saber de algum problema — ordenava Horácio para seu substituto. Nessa época o telefone celular ainda não havia sido inventado.

O roteiro da viagem era desconhecido de todos. Só Horácio sabia. Na hora do almoço despedia-se dos filhos, da empregada e Dona Rosa o levava de carro ao aeroporto. Esperava o avião partir, dando-lhe adeusinhos da amurada do pátio de manobras e embarque.

Na escala de Belo Horizonte ou de Goiânia, 40 minutos depois, ele descia do avião e tomava o primeiro que retornava para Brasília. Geralmente havia sempre um já na pista aguardando passageiros. Por volta das 15h, mais ou menos, ele já estava de volta.

— Bem! Já estou aqui no aeroporto. Vem me buscar.

Meia hora depois, no máximo, chegava sua amante, de carro, para levá-lo ao apartamento dela, que ficava numa quadra próxima à que ele morava.
E ali se amasiava durante todo o período de duração da viagem. Tomava sempre o cuidado de ligar diariamente para Dona Rosa e para o seu substituto, dando e recebendo notícias.

— Que saudades! — dizia ele a Dona Rosa nos telefonemas —Beijo nas crianças. Volto logo, meu amor!

No dia marcado para voltar, sua amante o levava ao aeroporto e se despediam apaixonadamente. Em seguida, ligava para Dona Rosa, dizendo:

— Rosa, já cheguei. Vem, me apanhar.

E lá ia Dona Rosa, na maior inocência do mundo, buscar o maridão, cansado da viagem, que sempre trazia algum presente para ela e para as crianças.

— Meu amor! Estou morto de cansado — dizia à noite — Amanhã a gente conversa. Ok?

— Coitado! Dorme, meu bem, eu sei o quanto a viagem foi cansativa! — concordava ela, enquanto Horácio já dormia feito anjo.

E assim aconteceu durante anos, sem despertar a menor suspeita a quem quer que seja. Como que Horácio fazia para prestar contas dessas viagens na repartição, não se sabe. Não havia contas de hotel e as passagens não eram usadas, a não ser até Goiânia ou Belo Horizonte.

Mas neste país é assim mesmo! Os chefes, no serviço público, são intocáveis, como vestais. Um desses somente é despedido por motivos políticos — quando alguém mais influente que seu padrinho pleiteia seu cargo para outrem — ou por crimes comprovados. Incompetência nunca destituiu ninguém. Das chefias não há suspeita, nem suas ações e comportamentos são avaliados. Não há qualquer controle de seus passos. Tudo lhes é permitido, salvo declarações bombásticas que desagradem seus padrinhos ou deixem em situação embaraçosa seus superiores de alto nível. E assim se perpetuam nos cargos, sempre caindo para cima, como se diz popularmente, se acontece terem que ceder o lugar. No setor privado, porém, a eficiência é comprovada mediante tarefas e metas progressivas. Quem não as cumpre é despedido sumariamente.

O fato é que Horácio fez o que fez, durante anos, e ninguém ficou sabendo. Chegou a ter filhos com a amante. Dona Rosa nunca desconfiou de nada e a outra não demonstrava ciúmes dela, até que um dia...

***

Numa dessas viagens, que não passavam de Goiânia ou de Belo Horizonte, alguém, anonimamente, com bilhete deixado sob a porta, contou tudo à Dona Rosa, que não acreditou, inicialmente. Mas, por via das dúvidas... Na exata hora que deveria encontrar-se com a amante vindo da escala em Belo Horizonte, Dona Rosa o estava esperando no saguão de desembarque. Ali também estava sua amante. Ambas não se conheciam. O encontro dos três foi desastroso e trágico. Horácio, quando se viu encurralado, sem saída, e diante do grande escândalo que Dona Rosa estava ensaiando, não teve dúvida: desmaiou, colocando as mãos no peito, aparentando ter sofrido infarto fulminante. No meio do saguão, aquele corpo inerte jazia como morto...

As duas mulheres, num só grito, agarraram-no por onde se podia. Imediatamente uma multidão de pessoas se apinhou em volta do trio. Não demorou muito, uma ambulância levou todos para o pronto-socorro do hospital mais próximo.

Enquanto Horácio era atendido pelos médicos, as duas travavam diálogo difícil e doloroso, antecedido por longa fase de silencioso reconhecimento mútuo, cada uma tentando extrair da outra o máximo de informação possível.

Os médicos fizeram e repetiram todo tipo de exame que se fazia na época, numa emergência desse tipo, nada encontrando que justificasse ou confirmasse o aparente infarto ocorrido. Deram-lhe medicação tradicional, mais preventiva que curativa, e determinaram a retenção do paciente no hospital para observação. Um dos médicos suspeitava que ali estava ocorrendo a figura da simulação, irmã gêmea da dissimulação e filhas da mentira. Enquanto essa esconde um fenômeno real, que está acontecendo, aquela finge a existência de um outro apenas imaginário.

Conversando com as duas mulheres que aguardavam na sala de espera, impacientes, o resultado dos exames, tal médico teve sua suspeita confirmada.

As cenas que lhe narraram justificavam, sem dúvida, a simulação brilhantemente encenada pelo paciente. Mas, por via das dúvidas, acompanhou os demais médicos no sentido de que se aguardasse mais um pouco, deixando-o em observação.

Mais precisava de atenção médica Dona Rosa, devido ao grande choque emocional que teve nesse dia. A amante também padeceu momentos terríveis de angústia ao ver que seu romance com o marido da outra, tanto tempo escondido, tinha sido descoberto, em circunstâncias deploráveis, e pela própria!

A surpresa, a dor, a grande desilusão sofrida por Dona Rosa pareciam tê-la anestesiado. O ódio cedeu lugar à brandura e passou a olhar sua concorrente de forma inesperadamente dócil.

O fato é que ambas permaneceram ali todo o resto do dia e nos três dias seguintes, sem arredar pé da sala de espera. Após a fase de observação, os médicos deram alta a Horácio, que não sabia como iria conduzir, daí por diante, aquele conflito familiar.

Por mais terrível que fosse sua traição, Dona Rosa não pretendia abrir mão dele. Sua amante, que já tinha dois filhos com ele, também não.

Conclusão: passaram a morar todos juntos no mesmo apartamento, com os filhos de cada uma. Foi o primeiro caso de bigamia consentida que tomei conhecimento. Outros casos parecidos, só em jornais e noticiários de televisão. A tragédia que se vislumbrava iminente acabou em festa.

Apesar de todas a tentativas, o caso não conseguiu ficar incógnito: todo mundo soube do ocorrido, que virou folclore naquela comunidade de então. O mulherio continuou rodeando e assediando o “tolo” Horácio, que não perdeu a fleuma...

continua...


Adelay Bonolo






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