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Contos-->A SIMULAÇÃO III (Uma história de Brasília ainda não escrita) -- 14/08/2004 - 21:15 (adelay bonolo) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos


A SIMULAÇÃO

... continuação

Após Horácio ter sido apanhado com a boca na botija por Dona Rosa, esta, não querendo perdê-lo para a outra, preferiu assumir a bigamia do marido juntamente com a amante.

Todos foram morar juntos, incluindo os 5 filhos de Horácio com as duas mulheres. O apartamento, com essa gente toda, passou a ficar pequeno, e faziam uma algazarra só, que chegava a incomodar os demais moradores do prédio. Aliás, tal vizinhança, no início, olhava-os com certa desconfiança, achando muito esquisito aquela convivência. O brasiliense, como de resto o brasileiro, até prova em contrário, é muito tradicional e arraigado em suas convicções.
Bigamia, além de ser pecado, condenado pela igreja, é crime previsto no Código Penal. Só que a bigamia que se apena pelo Código Penal é aquela formalizada em casamentos oficiais. No caso do Horácio, a figura era de amancebamento, concubinato ou amasio, como queiram. Não configura crime. “Mas não deixa de ser pecado”, pensava a vizinhança.

Mas que era estranho, fora do comum, extravagante mesmo, lá isso era e muita gente passou a virar o rosto para os três ao se cruzarem nos elevadores, hall do edifício, garagem, na fila do pão na padaria em frente e em outros lugares.

Muito homem que sabia da história devia ter uma inveja danada de Horácio, especialmente aqueles que não tinham nenhuma companhia feminina. E muitos estavam nesse caso.

Dona Rosa, para não ficar atrás, já que a convivência sob o mesmo teto era diária, entrou a fazer dietas, regimes, ginásticas e tudo o mais que lhe ensinassem para emagrecer e poder competir em igualdade com a outra. Apesar dos sacrifícios, deu certo. Ficou tão esbelta quanto a amante.

As duas “esposas” nunca se incomodaram com o mulherio que se acercava dele. Elas sabiam que isso agradava a seu marido e que não precisavam mais ter medo, pois as duas consumiam suficientemente suas forças de modo a desestimulá-lo de novas aventuras.

O maior problema dessa situação era com as crianças que passaram a ser motivo de zombaria por parte das outras e muita vez voltavam da escola chorando. Mas como explicar-lhes? Tarefa difícil.

Não há, porém, melhor remédio que o tempo. Tudo sara, tudo apaga, tudo esquece. A vida, em poucos meses, voltou ao normal. O episódio em nada alterou a vida profissional de Horácio, até porque, sendo chefe, ninguém ousava questionar-lhe o comportamento.

As viagens também não tiveram mudança. Religiosamente, uma vez em cada quinzena, lá ia ele em direção do aeroporto. As duas mulheres, cabreiras, astutas e muito precavidas desde então, faziam questão de levá-lo e buscá-lo, sempre as duas, lado a lado. Esse pastoreio de rédeas curtas tinha por finalidade evitar que acontecesse com elas exatamente o que tinha acontecido com elas anteriormente, no episódio da simulação de infarto.

Realmente, não havia jeito de Horácio executar plano igual ao que praticara; as duas exigiam cópia minuciosa do roteiro da viagem, cidades, hotéis, lugares de reuniões etc., todos os passos, enfim, de sorte que ficava impossível uma nova aventura sem que elas descobrissem.

A vida no lar dos Horácio transcorria normalmente, sem novidades.

***

Mas, diz o ditado que “Deus faz e o diabo desfaz”. Se a coisa nasce torta, não há jeito de endireitar-se!

A repartição de Horácio, no bojo do processo de modernização por que tem passado a Administração Pública Federal, terceirizou os serviços de apoio administrativo, abrangendo as áreas de biblioteca, de limpeza em geral, de copa e cozinha e de secretaria e arquivo. A repartição encheu-se toda de mulher nova, geralmente bonita, escolhida a dedo, menos pela capacidade funcional que pela beleza. Os salários dessas moças era o de sempre: irrisório. Porém, na carestia que o País atravessava, com o desemprego em crescente ascensão, não havia muita escolha e o jeito era pegar ou largar, provando o desemprego nessa última hipótese.

No gabinete de Horácio vieram trabalhar, como secretárias, duas moças, sendo uma pela manhã, Marisa, e a outra à tarde, Cidinha, ambas com 18 anos, recrutadas em Brasília mesmo.

Marisa era bonita, loira, cabelos curtos com franjinha na fronte. Gostava de usar roupas alegres, coloridas, saias curtas e decotes generosos nas blusas, deixando à mostra boa parte dos seios. Pernas grossas e joelhos maravilhosos, redondos, sensuais. Muito esbelta, tinha um sorriso franco que lhe repuxava as bochechas, dando-lhe expressão encantadora no rosto.

Já Cidinha era exatamente o oposto de Marisa, menos no corpo que se equivaliam. Vestia-se elegantemente, mas com roupas compridas, blusas de manga até os punhos e gola fechada no pescoço, assemelhando-se a uniforme de obreira de seita protestante. Na verdade, Cidinha participava da Igreja Universal do Reino de Deus, como uma de suas principais ativistas.

A despeito da vestimenta que ocultava corpo bonito, escultural até, a aparência de Cidinha era muito agradável. Seu rosto oval era enfeitado por cabelos compridos, pretos, sempre amarrados no alto e atrás da cabeça, com uma indefectível fita laçada na nuca, que minimizava a seriedade e sisudez natural de seu semblante.
Quando sorria, porém, seu rosto se iluminava, mostrando uma boca carnuda e sensual.
Horácio chamou as duas na sua sala e foi logo dizendo:

— Quero que uma de vocês entre às 9h e fique até a outra rendê-la, por volta das 14h; essa outra sairá, em princípio, às 20h. Entenderam? Se uma faltar, a outra substitui.

Ambas concordaram e decidiram quem ficaria no turno da manhã e quem, à tarde.

— Outra coisa — acrescentou Horácio, antes que elas saíssem — Quinzenalmente eu viajo e uma das duas, revezadamente, ficará de folga, até eu voltar. Por isto, quando estou presente o horário poderá superar as oito horas diárias. Compreenderam?

Horácio não era um primor de chefe, mas era o chefe da Repartição. Suas falhas e deficiências no trato com o pessoal eram supridas pela competência e simpatia.

As duas secretárias, no início, estranharam a quantidade de mulheres que entravam e saiam de seu gabinete, mas com o passar do tempo se acostumaram e chegaram a reconhecê-las pelo nome, roupa e endereço.

Dona Rosa e a amante, que agora se davam muito bem, mais por interesse que propriamente por amizade, tão logo souberam das novidades foram uma de cada vez fazer visita ao marido, sob algum pretexto, com a única intenção de conhecer as moças. O que viram, porém, não lhes agradaram, pois as moças eram muito bonitas para seu gosto. Ficaram de montar novo esquema de proteção ao patrimônio comum. A vigilância seria redobrada.

Horácio sabia como agradar as mulheres. Em pouco tempo conquistou as duas secretárias que passaram a viajar com ele, uma de cada vez.

Para não atrair qualquer suspeita de quem quer que fosse, e Horácio era mestre nessas estratégias, preparou o esquema cuidadosamente.

Todos os funcionários do gabinete sabiam que ele dava folga a uma secretária de cada vez, quando viajava. Essa viajaria sempre separado dele, em horários distintos e ficariam hospedadas em apartamentos separados, de preferência em andares diferentes. Raramente sairia com elas em público para evitar casuais encontros não desejados com pessoas conhecidas.

Esse estratagema funcionou desde logo com Marisa, que tinha jeito de safadinha. Com Cidinha, porém, a coisa demorou um pouco. Foi difícil demolir a barreira da religião. Mas conseguiu. Das duas, a que mais surpreendeu Horácio foi Cidinha, que passou a ser incrível furacão na cama dos hotéis por onde passavam.

Nessa escala, o encontro com cada uma era mensal e o término das viagens era considerado suplício. A próxima demoraria tanto...

As passagens e as demais despesas de cada uma dessas viagens corriam por conta do próprio Horácio, que despendia uma pequena fortuna por mês. Valia a pena pela lua de mel que passava quinzenalmente com cada uma das secretárias. E isso durante muito tempo, sem que ninguém soubesse ou desconfiasse, nem Dona Rosa, nem a amante. Acho que Marisa também não sabia de Cidinha, nem essa das viagens daquela.


Continua...


Adelay Bonolo
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