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Contos-->A SIMULAÇÃO IV - final (Uma história de Brasília...) -- 21/08/2004 - 22:23 (adelay bonolo) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
A SIMULAÇÃO

... continuação

Uma coisa, contudo, não havia sido prevista: uma paixão repentina e descontrolada de Cidinha quase põe tudo a perder. Cidinha descobriu, não se sabe como, que Marisa também viajava com o chefe e, numa tarde, aconteceu o maior escândalo; as duas, em plena sala de trabalho, saíram aos tapas, engalfinhando-se, com direito a unhadas e puxões de cabelo. Felizmente era hora do almoço na repartição e ninguém assistiu à deplorável cena. Horácio, a muito custo, conseguiu contornar a situação.

Como diz o ditado que desgraça nunca vem só, Marisa descobriu que estava grávida, já no 3º mês e comunicou o fato a Horácio que quase desmaiou de susto.

— Essa não! Como você deixou que isso acontecesse?

— Simplesmente aconteceu — replicou Marisa.

— Uma grávida e a outra, apaixonada! – resmungou entre os dentes.

Depois dessa e da briga entre as duas, a situação não poderia ficar na mesma. Manteve as duas, sem qualquer alteração, até que a barriga de Marisa entrasse a demonstrar a gravidez e continuou viajando com as duas. Chegado o quinto mês, Horácio pediu para realocarem Marisa em outra repartição, colocando em seu lugar uma estagiária de 17 anos, feia, magricela e sem graça.

Instintivamente Horácio ficou “diferente” com Marisa. Passou a encontrá-la, de relance, uma vez em cada mês, se tanto, até porque não havia como fazê-lo em razão da rigorosa vigilância de Dona Rosa e da amante, que de nada sabiam, ainda...

Marisa não o perdoou por isso e jurou vingar-se.

***

Uma coisa que havia esquecido de contar é sobre a inconfidência das paredes dos apartamentos de Brasília. Não sei se a causa seria a estrutura das paredes, tetos e pisos, localização das janelas ou se a vastidão, solidão e silêncio do planalto facilitam o fenômeno. O certo é que o que se fala num apartamento, seja de cima, de baixo, ou dos lados, se escuta nos outros. Um morador novo, que não fosse alertado para o problema, até descobri-lo já teria passado boa parte de seus segredos para a vizinhança através das paredes.

Aconteceu com o próprio autor: morava em apartamento funcional, cujo banheiro e lavabo eram separados por fosso que cortava o prédio de alto a baixo. As janelas, tanto de uma peça quanto da outra, eram grandes, de parede a parede. Telefonemas, conversas, risadas, brigas, beijos e ruídos de amor, sons e até odores eram ouvidos e sentidos nos demais apartamentos com clareza e percepção impressionantes. Lembra-me bem o caso de uma família recém-chegada, cujo marido, pela manhã, gritava para a mulher:

— Bem! Benhê! Já defecou? Ande depressa que eu também quero! (1)

Até descobrirem que sua privacidade tornara-se pública, tínhamos que agüentar todas as manhãs aquela seção de “defecadas, urinadas e outros bichos”.

Conta-se que, num apartamento desses, um morador costumava chegar em casa bêbado, todas as noites, lá pelas 2h da madrugada, falando alto, batendo portas, brigando com a mulher, que o repreendia:

— Fala baixo, vai acordar o vizinho!

— Baixo porra nenhuma! Quero mais que o vizinho se foda, esse filho da puta!

E todas as madrugadas era a mesma coisa: além de ser acordado, o vizinho era xingado, gratuitamente. Na manhã seguinte, ao cruzarem-se no elevador ou no hall do prédio, era como se nada tivesse acontecido.

***

O apartamento onde Horácio morava com a família era desse tipo. Todos já sabiam disso e se precaviam: falavam sussurrando, especialmente nos banheiros e perto das janelas.

Aconteceu que o antigo substituto-eventual de Horácio na repartição aposentou-se e voltou para o Rio de Janeiro. Para seu lugar, veio um nordestino, que não conhecia Brasília, nem suas manhas. Não sabendo da peculiaridade da inconfidência das paredes, comentou com a mulher despreocupadamente:

— Sabe, Zefinha, ele engravidou a secretária e a transferiu para outra repartição. É o que se comenta, à boca pequena.

Foi o suficiente para Dona Rosa, que tinha escutado o comentário, entender toda a situação. Contado o que ouvira para a amante, as duas ficaram boquiabertas. Como poderia ter acontecido? E elas que tomaram todas as providências para evitar coisas desse tipo!

Concordaram em aguardar um pouco para ver o que se sucederia e conforme o rumo que o caso seguisse, tomariam as providências adequadas.

Nesse ínterim, nasceu o menino de Marisa. Horácio nem tomou conhecimento. Mandou entregar-lhe envelope com algum dinheiro e foi só.

Se alguém ajudou a moça foram Dona Rosa e a amante, que conseguiram descobrir o hospital em que Marisa se encontrava. E lhe levaram coisas, inclusive roupinhas para o neném.

De vez em quando Horácio mandava algum dinheiro para Marisa, nunca o suficiente para atender às despesas com o menino. Nunca foi ver a criança, que crescia sem ele. Mas quanto mais crescia, mais a criança se parecia com ele. Era um Horacinho cuspido e escarrado, como se diz em Goiás. Dona Rosa e a amante continuavam ajudando a moça, coisa que seu marido devia fazer.

As viagens com Cidinha continuavam inalteradas.
Marisa precisava registrar o menino. Mandou recado para Horácio, que o ignorou completamente. Orientada, inclusive por Dona Rosa e a amante, entrou com pedido de investigação de paternidade no Fórum de Brasília. Se o juiz quisesse, nem precisaria de provas, era só dar uma simples olhada no pai e no menino, que o processo de convencimento estaria completo: de fato, o menino era igualzinho ao pai.

No entanto, os trâmites prosseguiram normalmente e Horácio, após o exame do DNA, que foi obrigado a fazer, foi condenado a registrar a criança e a pagar pensão da ordem de 30% de seus vencimentos brutos para Marisa e o filho.

Nesse ponto, Cidinha, que de tudo soube em detalhes, contado pela própria Marisa, com quem fizera as pazes, ficou desgostosa com o comportamento de Horácio, pediu demissão do emprego e foi dedicar-se em tempo integral ao seu ministério na Igreja Universal.

Houve tempestade feia na casa de Horácio. As duas mulheres se rebelaram contra ele. Dona Rosa, juntando cópia dos autos da ação de investigação de paternidade levada a cabo por Marisa, entrou com pedido de divórcio, requerendo pensão para si e para os seus 3 filhos, ainda menores, e o apartamento em que moravam.

No mesmo processo, a amante entrou também como litisconsorte (2), alegando que Horácio era pai de seus 2 filhos, como provavam as certidões de nascimento (Horácio os havia registrado), requerendo também pensão para ela, para eles e parte do apartamento onde todos moravam.

O caso caíra em domínio público e foi dos mais rumorosos em Brasília. Horácio era conhecido oficialmente e respeitado como homem público. A mídia acompanhou o julgamento e deu toda a divulgação possível, com destaque.

A separação consensual foi homologada pela Justiça e seria convolada para divórcio oportunamente, quando os prazos o permitissem. Horácio teve que dividir o apartamento com as duas mulheres (dona Rosa e a amante), não podendo vendê-lo para apurar sua parte e a conceder-lhes pensão no total de 50% de seu salário, que, somado aos 30% para Marisa e para a criança, perfaziam 80%, sobrando-lhe para sobreviver apenas 20% de tudo que ganhava.

O quantum que lhe restava deu somente para alugar uma casinha no Entorno de Brasília (3), de onde passou a vir de ônibus, pois o carro tinha sido vendido para pagamento das custas dos processos e das pensões atrasadas.

Houve nessa época mudança nos altos escalões do governo. Horácio perdeu o padrinho e o cargo de chefia na repartição. Não teve outro jeito: aposentou-se, ficando praticamente na miséria.

Com a idade e azedado pelos revezes da vida, viu-se privado também do mulherio, que antes o cercava diuturnamente.

Marisa, que não o perdoara e havia jurado vingança, quando soube do final da história, sentiu uma ponta de despeito por ter perdido a chance de vingar-se.


Adelay Bonolo


(1) Casal novo, provavelmente sem muita intimidade, daí por que defecavam e não “cagavam”. Felizmente não “obravam...”

(2) Litisconsorte (jur): Pessoa que demanda juntamente com outrem no mesmo processo, segundo as regras do litisconsórcio; colitigante, comparte.

(3) Entorno: circunvizinhança de Brasília, constituída pelas cidades de Goiás e Minas Gerais próximas do Distrito Federal.
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