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Contos-->O BURACO MAIS CARO DO MUNDO -- 17/11/2004 - 17:45 (ANTONIO MIRANDA) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
O BURACO MAIS CARO DO MUNDO

Antonio Miranda

Primeiro tempo

É muito abusado esse desembargadorzinho... Quando vem a Brasília sempre escala o meu apartamento para hospedar-se. Qual é a dele?! O desgraçado tem um tremendo salário, a família inteira está dependurada na folha de pagamento da repartição dele, até a prima Etelvina, que está há anos doente no fundo de uma rede esperando a morte, passou uma procuração para alguém receber o salário, que ele arrecada depois. Todos os filhos recebem também por lá, sem trabalhar, ou estão escalados em postos estaduais por arranjo dele com os colegas... Um nojo, o tipo. Diz que não gosta de hotel, que prefere o calor humano dos parentes... Trouxe uma garrafa de uísque de presente. Eu não bebo, ele já consumiu quase tudo... É mania de nordestino ir pra casa dos outros! Depois dele vêm os filhos, os afilhados, até os amigos o infeliz manda para o meu endereço, com o suborno de um pacote de farinha d´água (que eu detesto) ou doce de buriti ou de bacuri. E eu tenho que buscar o tipo no aeroporto ou na rodoviária, dar quarto com roupa de cama e servir de chofer... Ele é esposo da prima de minha mãe, nem parente é! Está sempre arrotando vantagens, falando da casa de praia, convidando para festas de casamento ou noivado na família, vive oferecendo intermediação para conseguir alguma mordomia no governo... Que mania! “Vamos lá, primo, o senador pode conseguir uma nomeação, fazer alguma indicação proveitosa, assim que as pessoas crescem na vida, precisam de um apoio na hora certa, mesmo no seu caso, ou até por causa de seus méritos, muita gente despreparada consegue uma nomeação providencial, imagine com o seu preparo, com o seu mestrado nos States... Me dá o seu currículo”... Sempre vinha com o mesmo papo, toda vez que aparecia em Brasília era a mesma ladainha, a mesma exibição de poder, de privilégios. Acho que vem prestar contas ao senador que o nomeou, vem mostrar serviço, deve viver como procurador dos negócios escusos do conterrâneo poderoso a quem bajula como um verme adiposo, suorento e submisso. Põe um terno que não consegue conter a barriga enorme, uma gravata cara e de mau gosto, faz o mesmo ritual a intervalos regulares. Diz que vem tratar dos interesse de seu Estado mas começa a peregrinação pelo gabinete do senador ou começa e termina lá o seu expediente de office-boy togado. Eu tenho vontade de expulsar o homenzinho de minha casa, mas é tão cara de pau que, quando alego que vou estar fora, ele pede para deixar a chave com o porteiro – ué, e o tal calor humano etc e tal? - investido de um direito ancestral que só ele conhece as origens. Para ser honesto, em nem me lembro bem da família dele, pois ele apareceu de repente, do fundo do esquecimento, do abismo da distância. Como é que ele descobriu a minha existência em Brasília? É impossível escapar, a cultura da terra leva a inventários genealógicos constantes, sempre alguém dá notícia dos parentes mais remotos, passam horas vasculhando a vida de parentes, amigos, colegas, vizinhos e inimigos, parece que não fazem outra coisa na vida. Quando eu, depois de tanta insistência, numa das viagens à terra natal, fui à casa dele – casa, não, palacete na parte antiga da capital – encontrei uma enorme quantidade de tias, primas, sobrinhos de duvidosa estirpe, com tênues laços familiares, além de achegados e empregados que servem a eles desde tempos imemoriais. Sobrinho de prima da irmã, tio-avô da afilhada da mãe, neto da sobrinha de minha tia, coisas assim, que estão devidamente arrolados no clã da família expandida, com obrigações, deveres e responsabilidades eternas, por todas as gerações futuras. Não consegui jamais aprender os nomes delas mas eles aprenderam o meu, também o meu endereço, o meu telefone, chegando ao cúmulo de um deles telefonar no meio da madrugada para dizer que estava no rodoferroviária, de passagem para São Paulo, com uma encomenda para mim... Trouxe um concentrado de açaí ou jussara numa caixa de isopor. Joguei no lixo com medo de estar fermentado depois da interminável viagem não-sei-por-onde. Ou aquele outro que telefonou cinqüenta vezes pedindo para acompanhar e influenciar no pedido de transferência de um filho para a administração pública federal. E cobrava o andamento do processo, perguntava pelas minhas diligências com a certeza de que eu estava à sua disposição e eu nem me lembrava da cara do infeliz, se é que o vi alguma vez na vida. Minha irmã pede para eu ser tolerante, que família é isso mesmo, “uma mão lava a outra”, algo pelo estilo. Ela é mais velha do que eu, viveu mais tempo por lá, eu saí pequeno, escapei desses atavismos telúricos.

Segundo tempo

O primo desembargador andou por Brasília nestes dias, encenou uma transferência para a cidade, saiu no Diário Oficial, queria apenas “legitimar” (!!!!) a transferência do filho mais novo de uma faculdade privada para a Universidade de Brasília. Agora que o rapazola já está freqüentando as aulas, ele está sendo transferido de volta... Nojento, o tipo. Queria instalar o herdeiro da maracutaia no meu apartamento. Aleguei que eu recebo amantes em casa, com relativa freqüência. Ele achou ótimo, parabenizou-me e disse que o filho não iria se importar com isso, não iria atrapalhar em nada. Tive que ser firme na defesa de minha privacidade para afastar o chato. Ele disse entender as minhas razões mas não deve ter gostado nada, deve ter achado que foi uma desconsideração com quem fez tudo para fazer tudo por mim... Aliás, ele não entende a minha resistência à insistência dele em cavar alguma vantagem para mim junto ao senador. Que maçada! Agora quer que eu consiga uma bolsa de estudos para um dos filhos estudar na Inglaterra, já que eu trabalho no órgão encarregado dos intercâmbios internacionais. Não pediu propriamente, convocou-me para a missão. Primeiro eu disse que sim, depois esqueci o pedido mas passou a telefonar quase todos os dias. Não é de meu estilo sair em busca de favorecimentos para parentes e amigos. Finalmente, consegui convencê-lo a fazer a inscrição do filho no programa de bolsas do Conselho Britânico. Que alívio! Usei o único argumento que ele entende: a bolsa do governo inglês é maior e – menti – a prioridade é para candidatos do Nordeste. Não é que o filhinho-da-puta ganhou a tal bolsa!!!! Foi sorte ou sei lá o que foi. Será que pesou a carta de recomendação do senador? Acho difícil que os ingleses usem critérios de seleção tão rasteiros mas tudo é possível. Ele acha que eu ajudei, que eu “mexi os pauzinhos”. Telefonou inúmeras vezes e eu jurava que estava acompanhando o caso, diligentemente... Que nada! Nunca, jamais, em tempo algum usei sequer do telefone para saber a quantas andava o tal processo. Mas o “primo” acreditava ter em mim o aliado perfeito, posicionado nas alturas de um ministério influente, capaz de mudar os destinos do mundo, cumprindo uma missão regida pelo sangue e pela defesa dos direitos divinos dos seus (nossos) conterrâneos.

Terceiro tempo

O filhinho-da-puta escolhido para a viagem à Inglaterra adiou a partida, alegando motivos pessoais. Estava metido na campanha eleitoral de um candidato a governador enquanto o pai trabalhava por outro... Conflito de gerações? Parece que era uma estratégia ditada por raízes seculares. Não é bom apostar todas as fichas numa única opção de jogo. Pai e filho assumem posições “opostas” – o desembargador apóia o candidato do senador enquanto o filho o da oposição -, um deles sempre sai vitorioso. Chegam tão longe naquela pantomima que até brigam de verdade à mesa do jantar mas logo estão em harmonia no café da manhã. Um pragmatismo verdadeiramente sábio, civilizado, exemplar. O pai diz respeitar as “diferenças” com os filhos...

Com a posse do novo governador – que, é óbvio, fez um pacto de governabilidade com o senador amigo do pai – o filho do desembargador foi chamado a palácio para uma conversa. O desembargador foi junto. Havia um laço familiar entre eles, por algum ramo da família tentacular a que eles pertenciam, tão vasta como para abarcar todo o gênero humano, sempre que convier. Soube que o governador queria oferecer uma oportunidade ao jovem geólogo – eu nem lembrava qual era o título profissional do apadrinhado - , que sempre exercera funções burocráticas em repartições públicas. Achou inoportuna a viagem dele para a Europa, justamente no momento em que haviam ascendido ao poder máximo do Estado. Eu sempre pensara que o poder máximo era o do senador ausente mas, de fato, ali ficou decidido que o jovem deveria iniciar a sua vida de empresário. Pouco tempo depois, vencendo heroicamente todas as engrenagens emperradas da burocracia estatal, estava ele com a firma montada e, para surpresa de muitos mas não da maioria, era vencedor de licitações públicas para a abertura de poços artesianos no interior do Estado. Um talento indiscutível para os negócios, celebrado nas crônicas sociais e execrado nas rodas dos preteridos.

Eu passei a acompanhar, de longe, os sucessivos êxitos do jovem empresário. No primeiro ano, já era dono de uma ampla residência no bairro praiano em que vivia o senador e o governador, no ano seguinte ele veio a Brasília – hospedando-se em minha casa, é óbvio, invocando os nossos laços familiares – e falou dos enormes sacrifícios que estava fazendo em apoio da candidatura do filho do senador ao cargo de deputado federal. Eu quis saber por que uma firma pequena, dedicada a uma ação tão específica, precisava gastar tanto dinheiro em campanha eleitoral. Ele falou em coisas tais como fidelidade, continuidade, visão de futuro. O filho do senador estaria sendo preparado para chegar ao governo do Estado, em duas ou três legislaturas. Havia comprado um carro blindado para os comícios-relâmpago, que improvisava um espécie de palanque na carroceria, nas suas visitas aos bairros da capital e localidades mais próximas. Um custo muito alto para o porte de sua pequena empresa, que também arcava com os gastos com a gasolina e com o motorista do veículo, por vários meses de campanha... Realmente, um investimento e tanto! Sem dúvida um investimento de valor estratégico. Mas havia sobrado algum dinheiro dos bons negócios recentes e ele era agora proprietário de um catamarã e me convidava par singrar as águas revoltas da baía de sua cidade. Jurei que iria por lá na primeira oportunidade, sem a menor intenção de usufruir de suas benesses. Minha irmã achou que eu, como sempre, estava errado, que eu deveria ser mais compreensivo e aproveitar as oportunidades que a vida me oferece.
No Natal, andava às voltas com cestas com produtos finos, incluindo iguarias importadas. Quis saber da razão de distribuir cestas natalinas para clientes que encomendavam poços artesianos. Riu de minha ingenuidade. Eram para os amigos e apoiadores do candidato eleito, mas não havia custos, o dinheiro viera das sobras de campanha... Seriam entregues, sem a aparente intermediação dele, em nome do candidato amigo, aos empresários que haviam mais contribuído com dinheiro para a campanha.
Passou um bom tempo sem notícias da família. Estavam muito ocupados nos anos de mandato do governador e, para espanto de todos, pai e filho – que sempre militaram em partidos opostos – andavam unidos em favor do candidato à reeleição como senador. Chegavam notícias da prosperidade do jovem empresário, já pensando em lançar-se candidato a vereador ou a deputado estadual mas logo persuadido a permanecer longe do poder, até consolidar os seus negócios. O desembargador confidenciou-me que a política provinciana é uma atividade muito suja, cheia de riscos, melhor seria construir um patrimônio sólido, antes de aventurar-se numa carreira política prematura. Entendi o sentido da confidência, dando-lhe toda a razão do mundo. O filho tinha agora uma família a zelar – casara com uma jovem que, por certo, era parente do senador –e eram proprietários de uma fazenda em que estavam fazendo enormes investimentos com recursos tomados emprestados de uma agência regional de desenvolvimento. Até um apartamento numa praia de Fortaleza eles haviam comprado, tinham suas dívidas, precisavam de um negócio seguro, sem maiores riscos.

Às vezes fico, à noite, querendo entender a lógica que mantém tais estratagemas. Depois vou dormir, achando que é a falta de lógica que pauta essa prática tortuosa mas gratificante (finalmente, encontrei uma utilidade para esta palavra tão desgastada em nossos dias!). Minha irmã diz que eles estão certos, que eu estou errado, e critica por eu não valer-me de tão dadivosas intermediações visando melhorar meu status. No fundo está criticando também a estagnação de minha carreira profissional de funcionário público... Que eu podia estar morando numa casa às margens do lago Paranoá, com um carro novo na garagem, coisas que estão longe de minhas reais possibilidades atuais...

E o buraco, onde fica?

Pois é, o que segue não é bem um final, mais bem seria um momento na vida próspera do filho de meu “primo” desembargador. Ele desistiu para sempre do mestrado na Inglaterra. E não está arrependido para nada, ao contrário, está consciente de que os conhecimentos que ganharia na Europa em nada o ajudariam no ofício compensador de abrir poços artesianos. À Europa ele pode, sempre que quiser, ir a passeio com a família. Talvez a Europa seja uma oportunidade para seu filho, quando crescer.

Mas o buraco aparece por causa de meu amigo Sigismundo que, agora aposentado, decidiu voltar à terra natal – à nossa terra, à minha, à do senador, a do desembargador, à do meu “primo” empresário. Ele levou para lá suas economias, disposto a tocar os negócios de uma fazendinha e eu recomendei os serviços do jovem empresário.

Nesta semana, o Sigismundo andou por Brasília. Quis saber como estava o seu empreendimento rural e, à certa altura da conversa, lembrei-me do poço artesiano...
Esteve com o meu primo?
Qual primo?
O da empresa de poços artesianos.
Estive.
E então?
Você quer mesmo saber?
Claro.
Não deu em nada.
Como assim?
Ele disse que não trabalha para particulares, que o negócio dele é outro...
???
Foi tão cínico que, diante de minha insistência, disse que o buraco dele é o mais caro do mundo...
???
Disse que o trabalho dele é muito caro, não dava para eu encarar.
???
...que o poço dele pode ser apelidado de Jacqueline Onassis, a ex-Kennedy, o buraco mais caro do mundo...
Se o desfecho é infame, corre por conta do sucedido que, mesmo se não for verdadeiro, tem tudo para sê-lo.


(Texto inédito, sujeito a reformas. 18/11/04)
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