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Contos-->CAIU DE BOCA -- 25/11/2004 - 14:16 (ANTONIO MIRANDA) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
CAIU DE BOCA

Conto de ANTONIO MIRANDA*


A Senhora Diretora circulava pelos corredores, atravessava portas e subia escadas. Podia olhar o pátio pelas janelas entreabertas, ouvir as conversas que vinham do fundo dos salões.
Chegava sempre sem avisar, quando os funcionários estavam contando piadas, comentando programas de televisão, falando ao telefone, lendo revistas femininas, recebendo visitas de amigos ou de vendedores de bijuterias. Olhava sempre com olhos de reprovação e saia calada, rancorosa.
Ela preferia falar por insinuações: alguém chega sempre atrasado, sabe-se que outros saem antes da hora, há indícios de usos inadequados de material de escritório. Outros vão aos sanitários com excessiva freqüência e não consta que andem doentes, a produtividade é baixa, nem sempre valem o salário que recebem. Empregado público é assim mesmo.

Magérrima. Mais velha do que a própria idade, uns vestidos lisos, opacos, discretos, mesmo quando novos já parecem usados. Para ela, o bom exemplo é chegar antes da hora, não ter hora para sair e levar trabalho para casa. Sempre há o que fazer.

- Quem paga o nosso salário é o pobre povo venezuelano.

Ela nem venezuelana era. Nascera na Colômbia, fora criada na Espanha, de origem belga. Ou holandesa, talvez dinamarquesa. Na terra dos seus antepassados viveu Hamlet e havia ali uma torre medieval, de pedra, com uma subida interna em círculo, como um parafuso. É o que ela lembrava ter ouvido da avó, dizia numa das raríssimas vezes em que falava sobre a família e sua própria vida. Na Europa as pessoas valorizam o trabalho, não perdem tempo, odeiam o desperdício. Viveram a dura fatalidade das guerras, pão escasso e sabem que apenas o trabalho justifica a existência do homem diante de Deus.

Dizem que inspecionava os armários do pessoal da limpeza, que vasculhava as gavetas das secretárias, que contava as lapiseiras e os rolos de papel higiênico que saiam das despensas, que controlava as chamadas telefônicas para saber os destinatários e os tempos de conversação.

Telefone é um instrumento de trabalho. Por que algumas pessoas são tão desligadas de suas obrigações, usam envelopes oficiais para enviar correspondência privada?

Os passos da Senhora Diretora eram sempre leves, suspensos no ar, andava sobre tapetes plúmbeos, pé ante pé, imperceptíveis, formando trajetos circulares, inspecionando lugares, rincões, porões. Estava em toda parte, aonde seus pés miúdos e prudentes a levassem. Iam sozinhos, orientados pela rotina de supervisionamentos, surpresas, ataques relâmpagos no dia-a-dia da instituição. “Ia passando, decidi entrar”.
Havia relógios de ponto, relatórios minuciosos, tarefas programadas, monitoramentos. Manuais de serviços, normas a serem cumpridas. Em contrapartida, havia também o recurso das dispensas médicas freqüentes. Infame, execrável. Dona Leontina jura que a perseguição da Senhora Diretora continuava depois do expediente, atravessava a noite e aparecia em forma de pesadelos constantes. O despertador tinha a voz dela, aquela voz ranzinza, de cobrança (de cobra!!!) e sentença. Odiava-a desde o dia em que foi descontada por faltar dois dias seguidos, sem justificativa médica. Estivera em Barquisimeto no casamento de uma sobrinha e não tivera como regressar antes. Preferira faltar de qualquer jeito a ter que enfrentar o não da Senhora Diretora que certamente iria considerar a razão da viagem, no mínimo, trivial e injustificável. A imagem do esqueleto da velha Diretora aparecia-lhe no meio da noite como a uma coruja insone ou pela manhã, demasiado cedo, como uma sirena de ambulância, perturbadora.

- Que se muera de infarto! – suspirava em tom de vingança.

O pior é que a Senhora Diretora, em seis anos de mandato, nunca tirara férias e vivia gabando-se de sua assiduidade ao trabalho, como uma forma permanente de agressão aos subordinados.
- Mal amada, megera – vociferavam os mais irritados.

As escadas tinham marcas de suas passagens, ainda que silentes, os corredores sabiam suas andanças inquisitórias. Pior só nos sermões, ou sessões de admoestações – ou seriam reuniões? As pessoas caladas, fingindo um mutismo cúmplice. Ás vezes alguns riam de suas (dela, da Senhora Diretora) piadas moralizantes. Dizia-se católica fervorosa mas, na prática, devia ser uma luterana de província, com a autoridade no sangue, exercida na família desde as sombras de um passado autoritário, de colonizadores moralistas, com as entranhas nas terras nórdicas e glaciais, diziam outros.

As reuniões eram hieráticas, dramáticas. A senhora Diretora pregava a devoção ao trabalho para ouvidos surdos, olhos assustados. O que é que ela queria deles, afinal? Por acaso, não estavam ali, há tantos anos, bem antes dela chegar?! Alguns à espera da aposentadoria, outros esperando chefias protetoras para melhorar os seus parcos salários e que nunca chegavam e, pela amostra, talvez não viessem nunca. Ela queria o quê, que se esforçassem num trabalho cuja paga era ínfima, aviltante, injusta, insuficiente? Só mesmo a estabilidade no emprego e as ameaças de punição mobilizava-os, enquanto alguns até já freqüentavam, paralelamente, e no mesmo horário, outras ocupações, alhures. Ela – a Senhora Diretora – ia de sala em sala perguntando pelos funcionários, parecia conferir as presenças já que as faltas ficavam mesmo por conta da mecânica do cartão de ponto. Depois inventou o livro de presença nas reuniões em que ela ficava em posição estratégica observando a entrada e a saída. E, na mesma linha de inspeção, chegava ao extremo de postar-se na portaria, em visitas de surpresa, na horas de maior movimento.
- Justo no dia que eu cheguei atrasado por causa do trânsito – queixou-se o homem do almoxarifado. O primeiro atraso nesses últimos seis meses!
Depois veio a idéia do relatório mensal que logo virou semanal e, por último, diário. Melhor seria nos dois expedientes, assinalando-se o tempo gasto no almoço. Duas horas para almoçar?! Por que não incentivar o treinamento em serviço, ocupar o tempo ocioso com alguma atividade produtiva? Talvez criando-se oficinas de estudos, grupos de discussão, quem sabe palestras de especialistas convidados? Melhor seria criar tarefas, requerer leituras, pequenos seminários de educação continuada para a atualização de conhecimentos. Se trabalhavam numa biblioteca, numa grande e importante biblioteca, por que não aproveitar a oportunidade para ampliar o auto-aprendizado, para dar respostas à própria ignorância? Havia tanto por aprender!! E havia milhares de livros à disposição.

Assim como os pizzaiolos devem odiar pizzas, assim também os funcionários da biblioteca científica pareciam odiar os livros, afirmava a Diretora para os seus colaboradores mais íntimos, quando não fazia-o para todos, ainda que de forma indireta, nos seus discursos moralizantes (mais bem desmoralizantes, afirmavam os mais críticos nas cada vez mais curtas paradas para o café ou chá).

- Tem gente que vai fazer compras na hora do expediente...

Em certa visita às gavetas de seus assistentes encontrou revistas de palavras cruzadas, de histórias em quadrinhos, de fofocas de artistas de TV e até pornografia, além de fotos de família, extratos bancários, livros escolares e até rádio de pilha... Incrível o que as pessoas fazem na hora em que deviam estar trabalhando, afirmou para a platéia insegura, com as barbas de molho, numa de suas palestras recentes no auditório.

- Eu fiz os cálculos – disse noutra oportunidade, a Senhora Diretora – estão usando 5 metros per capita de papel higiênico enquanto o público leitor não gasta em média nem 5 cm!

- Se limpian el culo con la mano cuando falta papel... – pensou o porteiro da Biblioteca, sabedor das contenções de gastos. O mejor, se limpian con las páginas de los libros a su alcance – completou o raciocínio.

Nos banheiros públicos, freqüentados também por funcionários, a grafitagem não se limitava aos desenhos de pênis, às palavras de ordem, às propostas de encontros e aos versos pícaros, havia sempre pragas e ofensas à honra da Senhora Diretora, tratada com uma bruxa assim como sua respectiva mãe e todos os seus ascendentes. Palavrões de todo calado e tonelagem.

Do patriotismo exacerbado, a Senhora Diretora passou a apelar para o fervor religioso na sua catequese de consciências entre empregados e cientistas que usavam a biblioteca. Não foi sem susto que o motorista Daniel, que era evangélico, viu os pintores grafando a célebre frase “Deus Morreu”, assinada por Nietzsche, à entrada da grande salão de leitura. Ninguém entendeu aquela reviravolta na cabeça da sempre magra senhora, justamente no momento em que se anunciava sua eleição para o Conselho Nacional de Cultura por causa de sua feliz iniciativa, louvada pela imprensa, da publicação de uma série de livros dedicada às origens da ciência na Venezuela. Mas logo o mistério foi resolvido. À saída do majestático salão apareceu a inscrição “Nietzsche Morreu, assinado: Deus”. Nem era uma idéia original, era um vulgar plágio do que já existia numa universidade norte-americana. Fosse de onde fosse a idéia, chegou aos jornais e à televisão, causando registros curiosos e até alguma polêmica.

Seguiu na mesma linha patriótico-religiosa mandando publicar milhares de marcadores de livros com frases de escritores e próceres nacionais, apelando para os nobres valores da nacionalidade, incentivando a leitura dos clássicos e a fé no cristianismo. Sentenças judiciosas, exaltando a família como pilar da sociedade sadia e a amizade como alicerce das boas relações humanas, sem faltar algumas que mais pareciam ameaças.

Nos últimos tempos seu pendor para o protecionismo chegara ao clímax com o episódio da secretária Ana Mercedes que – todo mundo já sabia mas a Senhora Diretora custara a perceber – andava de amores com o jovem José Juan, uma espécie de office-boy da Diretoria e, nas horas vagas – se alguma existisse ainda – recolocador de livros nas estantes. Um verdadeiro escândalo na percepção da Senhora Diretora pois o jovem ajudante tinha apenas 17 anos e a secretária já caminhava para os 50. Não obstante, no apogeu das suas carnes, queimadas ao sol, em sua voluminosidade generosa, nas ardentes praias do Caribe. Todo mundo sabia de suas preferências sexuais mais íntimas de há muito tempo, de outras administrações, pois eram conhecidas suas relações mais próximas com ex-diretores aos quais prestara os seus serviços, nos bons tempos em que a direção da biblioteca era privilégio exclusivo de cientistas e pesquisadores famosos, antes de converter-se em reduto de bibliotecárias graduadas. Nos bons tempos também no sentido em que ainda era jovem a fogosa secretária. A reação da Senhora Diretora não tardou: o garotão foi despachado para os porões da biblioteca onde passou a exercer as tarefas de empacotador da seção de intercâmbio, com a expressa proibição de ir ao terceiro andar em que estava instalada a diretoria. Nada impedia que a secretária descesse as escadas em busca do namorado. A exuberante secretária, foi então exilada na seção de obras raras, numa obscura sala no outro extremo do prédio, bem longe das vistas da veneranda diretora que, no entanto, continuou a receber notícias daquele relacionamento pedófilo e de mau exemplo.

Não era incomum sua intromissão na vida das colaboradoras mais próximas, já que ela opinava sobre moda, decoração, educação dos filhos e vida familiar em geral e até mesmo sobre investimentos imobiliários posto que havia censurado a chefa do setor de referência por ter adquirido um apartamento no emergente bairro de El Cafetal, considerando-o um refugio de chivos, ou de bodes, por estar encarapitado no cume da montanha.
Ninguém sabia – além dos boatos maledicentes e das histórias inventadas pelo seus detratores, que se contavam às dúzias – de sua vida particular. Vivia sozinha, era solteira, não recebia visitas de parentes nem amigos íntimos, não fazia telefonemas para pessoas fora de seu círculo profissional. Nem freqüentava a casa de pessoas conhecidas, nem era convidada... Em certa ocasião, tiveram que montar um esquema para que ela não fosse convidada para uma piñata, um tipo de festa infantil e de aniversário do filho de uma das funcionárias, em que os colegas de trabalho ajudaram na organização. Temiam que a presença da Senhora Diretora fosse constrangedora e motivo de ausência de muita gente... De qualquer forma, sua vida privada era um mistério, um segredo guardado a sete chaves.

Aconteceu, então, o terrível terremoto de Caracas do fim da década de 60. Devastador. Em plena semana, na hora do almoço, quando a biblioteca estava cheia de leitores e com quase todos os funcionários trabalhando. Chegavam notícias horrendas de edifícios tombados, de novos tremores, de vítimas fatais, de corpos mutilados ingressando nos hospitais, ruídos de sirenas dos bombeiros, uma nuvem de pó saindo de um dos costados da própria biblioteca, depois de um barulho ensurdecedor. Uma das extremidades do velho prédio da biblioteca acabara de desabar, havia pânico, o público correndo para a rua que já estava repleta de gente assustada e temerosa. Espanto e horror entre os refugiados e feridos buscando socorro por toda parte e a tragédia estava também ali mesmo no espaço da biblioteca.
A ala do desabamento no edifício colonial ficava mais ao fundo; felizmente, não incluía os salões de leitura nem os grandes depósitos de livros. Havia por ali algumas salas de guarda de materiais diversos e os banheiros públicos. Sorte, pensavam os funcionários, tentando reconhecer os colegas em meio à multidão de desvalidos. Lá no alto estava a sala da Diretoria, intacta. Os bombeiros que interditaram o edifício começaram a evacuar o local, mas já não havia quase ninguém lá dentro, depois do tumulto.

Falava-se de milhares de vítimas em imensas regiões de destroços e ruínas. A cidade congestionada, o transporte público interrompido e restrições para a movimentação de veículos particulares, visando facilitar as operações de resgate e de apoio aos vitimados. Muita gente caminhando, tentando localizar os parentes e amigos, um colapso quase total nas vias telefônicas.

A noite foi longa e repleta de angústias e especulações de toda ordem, além dos sobressaltos de novos tremores de terra. Começaram de imediato as escavações nos pontos mais críticos em busca de sobreviventes. A ação devastadora acompanhara uma linha reta pelo vale de Caracas, a partir de um epicentro próximo às franjas de El Ávila, a imponente cadeia de montanhas que separa a capital venezuelana do litoral caribenho. Desde as guerras de Independência que não se via um terremoto daquelas proporções.

Só três dias depois do cismo é que começaram as buscas por sobreviventes nos escombros da biblioteca, que continuava fechada para o público. Logo nas primeiras investidas encontraram dois corpos sobrepostos. A imprensa e a televisão acompanharam o árduo trabalho dos bombeiros.

Logo de saída o fato pareceu muito estranho aos jornalistas e aos profissionais da defesa civil: eram corpos de um casal quando as informações davam conta de tratar-se dos sanitários femininos pois os masculinos estavam intactos, no outro extremo do corredor semi-destruído. A sujeira impedia o reconhecimento mas os camerógrafos e fotógrafos documentaram, com a avidez ou morbidez da ocasião, o inusitado achado.
Em seguida, depois de remover restos de paredes e de portas, descobriu-se que a mulher estava vestida e o homem quase nu, pelo menos da cintura para baixo. Ele estava caído sobre o sanitário destruído, com o rosto sujo e irreconhecível mas dava para ver que se tratava de um jovem, bem jovem. Branco, de boa estatura, físico bem formado. A mulher estava de bruço, caída com o rosto entre as pernas desnudas do jovem. O fato insólito mereceu fotos tomadas de todos os ângulos. Era o tipo de matéria jornalística de efeito sensacionalista que todo repórter de rua adoraria encontrar em suas atividades profissionais. Cheirava a escândalo, com apelos à mórbida especulação de um público católico e moralista. A imprensa, antes de saber os nomes das vítimas, começou a levantar hipóteses e a buscar explicações. “Castigo” parecia ser a palavra mais recorrente diante do episódio tão grotesco que os noticiários da TV, sem fazer referência direta à cena, deixava-a explícita pelos registros das câmeras. O que mais se comentava era o fato de ter acontecido numa biblioteca científica!

Quem eram e que estavam fazendo aquelas criaturas, naquela posição, naquele momento fatídico?!

Não tardou muito para que os personagens do episódio insólito fossem identificados. O corpo do jovem era do ex-office-boy José Juan que a Senhora Diretora havia deportado para os porões do edifício, para apartá-lo da amante gorducha. Os banheiros femininos estavam a escassos metros de sua nova área de serviço.

Pelo vestido e pelo volume do corpo, ainda que de costa, deu para ver que era a Senhora Diretora o segundo cadáver.

Seguiram-se dias de comentários maledicentes. Que estava fazendo a hirsuta e circunspecta senhora entre as pernas do imberbe mancebo?!
Quem não comentava o episódio era a amante do falecido, a sensual Ana Mercedes. Estava mais assustada do que pesarosa. Evitava todo e qualquer contato com os colegas, corroída por uma culpa velada e secreta que a afligia o tempo todo. Quando a biblioteca reabriu suas portas ao público, com a área do sinistro isolada para uma futura reparação, ela entrou com um pedido de licença médica – aquele expediente que a ex-Diretora execrava – para não enfrentar a realidade, alegando abalo emocional.

Ana Mercedes era devota de Nossa Senhora. Dirigiu-se para a igreja mais próxima em que havia uma imagem de La Virgen del Coromoto e a fitou com desolada e assustada tristeza. Na confusão de suas idéias e sensações não sabia se chorava a morte do fogoso amante ou se sofria a dor de seu íntimo silêncio sobre os minutos que antecederam aquela tragédia pública.

Fez uma revisão nervosa dos momentos anteriores ao terremoto, desde o instante em que José Juan passou pelo corredor seguido, à distância, por uma mulher. Ela já andava desconfiada das atividades sexuais do seu jovem preferido, que a enganava de maneira descarada. Flertava com as moças da limpeza, vivia insinuando-se para as leitoras que desciam ao porão em busca de informações e havia sempre recados telefônicos de mulheres desconhecidas tentando localizá-lo. Só que agora, ou naquele momento, ela estava ao encalço dele, numa situação concreta. José Juan entrara no banheiro feminino, a mulher seguiu-o e refugiaram-se no apertado sanitário, sem fechar a porta por dentro, se é que havia ali alguma fechadura funcionando. Ana Mercedes abriu a porta violentamente para flagrar a traição do namorado. A jovem que estava com ele ficou muito assustada e saiu correndo. José Juan estava diante dela, com as calças arriadas, ainda excitado. Ouviu-se então o ruído de alguém entrando no banheiro. Foram segundos de vacilação: ela não sabia se se trancava com o namorado no cubículo mas nem teve tempo para tomar uma decisão pois logo deparou-se com a figura da Senhora Diretora. Ficou lívida e pasma e a única reação foi a de sair apressada, fugindo ao confronto com a sua detratora.

A velha Senhora logo deparou com a presença do jovem funcionário ainda tentando levantar as calças mas José Juan ficou petrificado pelo olhar justiceiro e perturbador da autoridade diante dele. Mas ainda assim esboçou aquele sorriso cretino que era sua característica permanente mesmo nas situações em que estava em desvantagem.
Ana Mercedes recapitulava aquele episódio embaraçoso diante da Virgem, em silêncio. Quantos segundos seguiram-se à sua abrupta saída do banheiro feminino da biblioteca até o seu total desmoronamento? Ela só sentiu a força do tremor que levou àquela destruição, a meio caminho para a sua sala de trabalho, a uns 200 metros de distância. Suas pernas tremiam tanto, sua cabeça estava tão confusa que ela não sabia se o trajeto fora vencido com rapidez ou não. Lembrava que desejara voltar ao local, enfrentar a situação, dizer que não era ela que estava ali com ele no ato libidinoso, que a Senhora Diretora certamente cruzara com a jovem fugitiva no corredor mas não conseguira organizar seus pensamentos nem agir conforme os seus desejos. Estava em jogo o seu emprego, sua reputação. Diante da Virgem explicava-se que seria capaz de tudo para conquistar um homem mas que jamais iria com ele aos sanitários de seu local de trabalho. No fundo, apesar de apresentar uma certa obstinação sensual, era uma romântica idiota, crente de estar diante de um amor verdadeiro e definitivo sempre que se relacionava com alguém.

Por quê a Senhora Diretora condenou-a ao porão da biblioteca, tornando mais evidente ainda uma relação que era do conhecimento de todos e que era uma questão alheia à sua autoridade, que dizia respeito apenas aos seus mais íntimos sentimentos – aliás, tão frágeis e tão inseguros. As traições do amante só agudizavam o ridículo público de seu ostracismo!

Por que punir um servidor jovem, cheio de vida que, não obstante suas fantasias sexuais, estava a seu serviço, na Diretoria, sob sua proteção, que atendia de forma diligente suas obrigações e, nos seus limites, era competente?
Por que? Estas eram as perguntas que fazia à Virgem de sua devoção, na penumbra culposa e estremecedora da Catedral, confessando-se com a certeza de poder conservar os seus segredos e os seus mistérios.

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Conto extraído do livro A Senhora Diretora e outros contos, editado pela Thesaurus Editora, de Brasília, em 2003. Outros textos podem ser lidos na página do autor: www.antoniomiranda.com.br na seção OBRAS PUBLICADAS. Aquisição do livro: danirham_eros@hotmail.com


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