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Contos-->VIRTUDES CANALHAS OU A DIETA DO SEMIDEUS -- 25/11/2004 - 14:24 (ANTONIO MIRANDA) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
VIRTUDES CANALHAS OU A DIETA DO SEMIDEUS

Conto de ANTONIO MIRANDA


Existem virtudes canalhas, um oxímoro muito útil. Todo oxímoro é a busca do equilíbrio entre os contrários, bem definido naquela sábia sentença do “vai devagar que eu estou com pressa”. Virtudes canalhas são defensáveis, devem ser vistas com maior consideração, pensam os seus praticantes, que são muitos, em toda parte.
Quem não se lembra daquele final patético de Pastores da Noite, do baiano Jorge Amado – que era um especialista em canalhas virtuosos – em que dois grandes amigos, beberrões contumazes, disputavam a honra de um triângulo amoroso, rendendo-se à degustação de uma imensa jaca perfumada em vez de partirem para o duelo mortal?!

Outra não era a atitude moleque de Noel Rosa, tísico, boêmio, nos bares da Lapa, com mulheres do Mangue, com os malandros e outros personagens da madrugada. Ele cantou e versejou sobre as virtudes canalhas de seu tempo, viveu intensamente situações ditas deploráveis e condenáveis, para desespero de sua mãe e apreensão de seus amigos, sobretudo do careta Francisco Alves. (Antes que eu me esqueça – lembrou o memoralista de plantão – alguém ainda se lembra do Chico?!) O Noel sempre chegava atrasado aos ensaios, nem sempre ia aos programas de rádio ou aos shows contratados. Estava bêbedo em algum puteiro ou de ressaca, caído na sarjeta. Só assim produzia as suas obras primas, até que a tuberculose o devorou precocemente.

Estas reflexões eram do colecionador de oxímoros, o Professor Leocádio Gusmão, funcionário público aposentado que tinha muito de alter-ego do Fernando Pessoa, mas vivia sua reclusão no Planalto Central do Brasil.

Para ele o Chico Buarque de Holanda era outro colecionador de oxímoros, buscando virtudes no malandro carioca, mediante sambas memoráveis, como na versão tão bem humorada do Mack the Knife, de origens brechtianas.

Em certo sentido, o oxímoro é parte da dialética de sustentação da dicotomia da vida humana, um pensamento um tanto rebuscado que o velho professor nunca chegou a elaborar muito bem mas que o entretinha vivamente em suas horas de tédio no exílio do Cerrado. Os opostos se aproximam, dizia, os extremos fazem parte do equilíbrio. No meio destas divagações inconseqüentes chegou ao maior canalha de todos, em sua opinião, ao ex-Presidente Fernando Afonso Color de Mello. “Canalha-mor”. Sonhou com ele logo depois do Impeachment. O velho andava com fortes dores de reumatismo, com uma crise na coluna que há quase uma semana o mantinha acamado. O corpo prostrado, imóvel como uma múmia de chumbo sobre o sarcófago de pedra. Com dores musculares, em estado febril.

A casa do Collor estava cheia de empregados, todos vestidos a rigor. Às dezenas. Entravam e saiam como autômatas, num movimento frenético. Ele à mesa com o político recém cassado. Collor estava impávido, hierático, tenso, contrastando com a movimentação operística dos serventes, num vai-e-vem inconseqüente. Não havia lógica naquela encenação nervosa. Apenas homens, com vestimentas escuras, como pingüins de black-tie – esta foi a sensação que teve enquanto eles serviam o café da manhã. Chegavam bandejas e bandejas, imensas, repletas de iguarias. A mesa, enorme, ficou completamente coberta de comida: biscoitos, bolos, queijos, doces, pães, salgados e patês. E bebidas: sucos, leite, chocolate, vinhos, licores e beberagens de dúbia procedência. A mão não alcançava tanta coisa mas continuavam a chegar mais e mais pratos com cuscús, pamonhas, polenta cozida, pizzas vegetarianas, frutas tropicais em abundância. Mamão, mangas, carambolas, jabuticabas.

-É a minha dieta – explicou o anfitrião. Vendo tanta comida eu me enfastio... – e
voltou ao seu mutismo, a mastigar lentamente um bejú bem quentinho.

- É diet, experimente.

Os empregados serviam e retiravam os pratos com as diversas e bizarras combinações de comidas: abacates com presunto, saladas de frutas exóticas, ovos de animais desconhecidos, numa mise-en-scène teatral digna da montagem de Machbeth por um diretor inglês de vanguarda, ao som de Carmina Burana. Collor se servia apenas de miudezas, de migalhas, rejeitando quase tudo, com desdém.

Jogavam fora os rejeitos, de forma ostensiva. Havia um grupo de serventes maltrapilhos detrás de uma grade, como um coro grego ou de carpideiras nordestinas, blasfemando e choramingando impropérios, palavrões, vozes agonizantes e a fricção dos corpos era tanta e tão tensa que passava uma terrível sensação de angústia. Catarse.

- Se eu fico tenso, perco o apetite ... – explicou o ex-mandatário. Preciso manter a forma, estou escrevendo meu discurso à nação no recinto daquela biblioteca ali – e apontou para o outro lado da rua – onde meu pai reuniu o saber universal e colocou-o a serviço de todos. Já li até a letra B. Os bibliotecários deveriam buscar outra forma de ordenar os livros, vou sugerir a forma cronológica.

O velho professor, leitor de clássicos em edições populares, recorreu às descrições dantescas do Purgatório para entender aquela magia toda. Para ele o Purgatório devia estar congestionado pela nossa ignorância humana, a ele condenamos os indiferentes, os incrédulos, os que não são nem queridos nem odiados. A maioria, por exclusão. O Purgatório era o maior oxímoro de todos. Só o Céu parecia adequado aos virtuosos, nele habitavam poucos e por pouco tempo. Collor estava de regresso. Se ninguém consegue sair jamais do Inferno, para perder o privilégio do Céu bastava um único deslize, um pecado grave. O Céu – estava absolutamente convencido disso – é um condomínio com regras intransigentes, aptas para serem cumpridas apenas pelas minorias. Raciocínio em transe de sonho não tem mesmo a coerência que almejamos, ponderou, do fundo de seu sono intranqüilo. Nem havia muita lógica na ação dos mandatários.

A sensação de abundância e de arrogância da cena era, sem dúvida, reveladora de sentimentos-limite, de estados transcendentais, de projeções ultraístas quase surrealistas. A vida real estava cheia de situações assim.

- É no excesso que eu busco o equilíbrio, privando-me de tudo. A sensação de ter em excesso freia a vontade de comer, de possuir, a ânsia dilacerante de poder – continuou delirando o comensal. O desperdício, há quem afirme -continuou a dissertação – gera riquezas... O excessivo consumo de uns garante a sobrevivência de outros.

Acordou com dores terríveis na coluna. Pela primeira vez, sentiu uma espécie (secreta) de compaixão pelo homem em seu refúgio superior nas bordas do Lago Paranoá. Um semideus. O velho estava com o corpo encurvado, tentando mover-se na cama. O outro, no sonho, impoluto! Entraram em cena os massagistas para uma sessão de tortura pois a realidade era mais fantasmagórica do que os seus delírios. Levantaram suas pernas, puxaram seus braços em direções opostos até quase levá-lo ao desmaio, caminharam sobre suas costas, de bruços, com violência. Depois de tanta tortura voltou a caminhar com um leve desembaraço, esquecido de suas mazelas. Era um homem literalmente feliz.


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Conto extraído do livro A SENHORA DIRETORA E OUTROS CONTOS de Antonio Miranda, publicado pela Thesaurus Editora, 2003, de Brasília. Outros contos podem ser lidos na página do autor:
www.antoniomiranda.com.br na seção Obras PUblicadas ou adquirir o livro pelo e-mail
danirham_eros@hotmail.com

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