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Contos-->Almoçou comigo e na mesa ao lado estava Bin Laden -- 12/12/2004 - 11:09 (Athos Ronaldo Miralha da Cunha) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos


Almoçou comigo e na mesa ao lado estava Bin Laden
Athos Ronaldo Miralha da Cunha

Um sábado ameno pairava sobre a cidade maravilhosa.
Eu caminhava absorto pela pouco movimentada Cinelândia naquela manhã morosa. Aguardava, com uma certa ansiedade, um encontro com uma amiga virtual. Virtual até aquele dia. Uma amizade construída na internet passaria a ser real. Tínhamos marcado o encontro por volta das 11:00h no saguão do hotel em que estava hospedado. Matava o tempo nas bancas de sebo e admirava a arquitetura dos prédios centenários daquele belo centro.

Em frente a Biblioteca Nacional uma turma de formandas em Pedagogia tirava as tradicionais fotos nas escadarias. Sobravam máquinas fotográficas e apenas um fotógrafo profissional. Prontamente, coloquei-me a disposição das formandas para tirar as fotos. Em segundos estava com sete máquinas penduradas nos braços. Passava do braço esquerdo para o direito e ia batendo as fotos das beldades cariocas. É claro, a loirinha da primeira fila foi o motivo de toda a minha presteza.

- Moço da camisa verxxxdi, pode bater mais com a minha máquina.
Adoro esse chiado dasxxxx cariocasxxxxx. - Pensava comigo.
- Moço da camisa verxxxdi, bate quatro fotos com a minha.
- Moço da camisa verxxxdi. Tira a tampinha da minha máquina, moço!
- Não esquece da minha. Moço da camisa verxxxdi!

Bueno, é lógico que eu estava com uma camisa verde, ou melhor, verxxxdi. E também portava uma máquina que trazia disfarçada em uma sacola de mercado... sabe como é ... o Rio... e eu um provinciano.
E mais um pouco e eu batia a foto da loirinha da primeira fila.

Nesse momento uma cena estranha provoca uma certa agitação nas jovens pedagogas. Um cidadão vestido de árabe tomava conta do cenário ao cruzar a calçada em direção ao Theatro Municipal. Seria uma fantasia ou um palestino desgarrado da antifada.

Após ter batido a vigésima sétima foto o pessoal me liberou e liberaram a entrada do prédio. Resolvi e fui conhecer a Biblioteca Nacional. Quando saia do prédio a turma da Pedagogia continuava a sessão de foto em frente ao Theatro Municipal.
De ladinho. De toga. Sem toga. De braços cruzados. Sorrindo. Séria. Etc. Etc. Etc.

Antes de voltar para o hotel a fim de recepcionar a minha virtual amiga, arrumei um tempo para folhear alguns livros no sebo no meio da praça. Descobri uma edição antiga de “Olga” e uma outra do “Manifesto Comunista”. Mas ficaram nas bancas, não achei um investimento conveniente.
No entanto, não deixei de observar que o sujeito vestido de árabe estava manuseando alguns livros do sebo. Coincidentemente, “Olga” estava sob os olhares de águia do saudita. Parecia meio inquieto e chamava muita a atenção. Seu traje não era propício ao calor de um incipiente verão carioca. Além do mais, guardava uma semelhança assustadora com o líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden. Uma visão surreal. Um terrorista árabe passeando distraidamente pelo verão carioca.
Sem me importar muito com a estranha figurar circulando na Cinelândia. Dirigi-me ao hotel.
Tão logo entrei no hall, uma jovem senhora vem ao meu encontro.
- Senhor... Marcusxxxx...
- ... Severo Borges Torquato. Do Boqueirão do Tigre. Seu criado! – tentando ser o mais Olívio Dutra possível.
- Masxxx bah! – respondeu-me ela sorrindo.

Comodamente sentados no reservado ao ar livre do restaurante, conversamos sobre tudo. Da política ao esporte; dos atentados a violência urbana.
Por falar em atentado, nesse instante o árabe entra no recinto. Senta-se em uma mesa próxima a nossa. E fica estático. Impávido. Apenas observando e saboreando um perfumado charuto. Sob a mesa o Manifesto Comunista.
- Esse cara é igual ao Bin Laden. – comentou minha amiga.
- E acho que está me perseguindo. Desde hoje pela manhã. Se eu não chegar em Porto Alegre, denuncie. Essa cara comprou um dos livros que eu havia manuseado. Muito estranho...
Minha amiga apenas sorriu. E eu falava sério.

Contemplando o cardápio do “Amarelinho” e não querendo arriscar o churrasco carioca, optamos pelo estrogonofe.
Após o almoço fomos caminhar pela praça. Não tinha muito tempo pois o avião partiria em poucas horas. Resolvemos tirar uma foto de recordação. Escolhemos um apoio em uma esverdeada estátua de algum figurão carioca.
Resolvi verificar quem era o ilustre homenageado. Qual não foi a minha surpresa, pois era a estátua do nosso Todo-poderoso Roberto Irineu Marinho.
- Quero tirar uma foto com ele. – disse, de pronto, a minha real amiga.
Subiu pelo monumento e deu um beijo na estátua do Irineu. E eu registrei para a posteridade essa demonstração de carinho da minha amiga.

Por fim chegou a hora da despedida.
- Pois é... foi um Rio que passou em minha vida...
- É...
- Sucesso e boas publicações.
- Acho que não vou te ver mais.
- Quem sabe... quem sabe...
Despedimo-nos com três beijinhos – coisa de gaúcho – e partimos, cada um para o seu futuro. Certos que nos reencontraremos em outra oportunidade. Quem sabe... a vida é cheia de esquinas. E as estátuas passam como o vento e se perdem em amarelinhos...
- O que resta no futuro?
- Vamos seguir andantes por essa vida cheia de surpresas. Até que em um inesperado dia voltemos a abraçar uma estátua de esperança. Talvez até seja um novo Irineu.
- Ou um novo Osama. – sorrindo, complementou minha amiga.

O avião começou a taxiar prestes a decolar rumo a Porto Alegre. Estou em uma poltrona do corredor relendo umas manchetes do jornal a procura de alguma coisa interessante para ler e disfarçar minha ansiedade. Tento distrair-me com uma crônica, mas falhei na escolha, pois o cronista escrevia sobre o atentado de 11 de setembro em Nova Iorque. Minha aflição foi nas alturas.
Após a decolagem vislumbro logo a minha frente um sujeito com uma indumentária bem familiar. Então percebo no banco em diagonal onde estou o árabe, o suposto Osama, que esteve cruzando pelo meu caminho nesse dia.
- Não acredito! O que esse cara vai fazer em Porto Alegre?
Nesse instante a aeronave inclina-se levemente para a direita e vai de encontro ao Pão de Açúcar. Será?



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