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Cronicas-->O amor está morto -- 17/11/2003 - 17:44 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
"O amor está morto

por Simone Maia

Alto do viaduto. Olhos no tráfego. Lá embaixo, pessoas e carros, bicicletas e acostamentos, postes e cães. Aqui em cima também. Ela reveste de lágrimas tudo o que lhe cabe no olhar. Em movimento ou parado. Direção norte ou sul. Vivo ou morto.

"Vai arrumar o que fazer e sai do caminho!" - berra um senhor que tenta encontrar espaço na estreita calçada que ela interdita com seus devaneios. Alto do viaduto.

"Nada!" - foi o que ouviu ele dizer. Separa mentalmente as sílabas, procurando pausadamente o significado da palavra: "naaaaaaaaa-daaaaaaaaa". Deduz que "nada" significa isso mesmo: nada, coisa alguma. Fora exatamente essa a palavra que ele usara para definir o que agora sentia por ela.

Praticidade. Há de se ter ou, na pior das hipóteses, adquirir. Os tempos são outros e exigem praticidade e muita lógica. Sentimentalismo não. Seria tão útil quanto uma caixa de band-aid em pleno front de batalha. Imediatamente estanca o choro. Lógica.

Granada, TNT e minas. Guerra mais antiga, essa! Pólvora, lança e machado. As armaduras! Não se pode esquecê-las! Fundamentais para a preservação do tórax! Levar machadada na cabeça tudo bem, mas no tórax nem pensar! É aí que reside, embrenhado nas tramas do avesso, o tal do órgão vital. "Deus nos acuda! O comandante está morto!" - as graves vozes irrompem no vasto prado. "Joguemo-lo na vala!". Praticidade. Lógica.

Já era sem tempo, pois que tudo tem um fim, isso é mais do que certo. Embalsamar só fazia sentido lá em determinada época, para uma cultura específica. Mumificar sentimentos não condiz com a modernidade. Não existe bálsamo capaz de conservar o efêmero. Não hoje em dia, quando, por comparação, o efêmero nunca foi tão efêmero. A velocidade não está nos automóveis nem nos aviões, nem nos metrós e nem nos computadores. A velocidade está no homem. Sua urgência é incentivada pela urgência de outros. Carência, ànsia, insegurança, curiosidade. Dá-se o nome que convier.

Chega a equipe da Cruz Vermelha. Grita-se e revira-se na terra, já encharcada de sangue desconhecido, a fim de se acelerar o resgate: "Ah! Fui retalhado! Estilhaços vieram de todos os lados! Estou morrendo... MORRENDO!" E a alguns passos, outro se contorce: "Tive meu braço amputado!" Guerra. Praticidade. Lógica.

"Licença!" - outro reivindica. Ela nota que precisa sair do caminho, permitir o fluxo. Está atrapalhando com sua presença, o caminhar dos outros. Estorvo. "Nada!" - ele havia dito. Agora era abrir espaço e permitir o fluxo. Amara, mas seu amor era tão útil quanto uma caixa de band-aid em pleno front de batalha. "Deus nos acuda! O amor está morto!" - sua voz irrompe no vasto prado. "Joguemo-lo na vala!" - gritam os bravos homens da guerra.

Simone Maia é formada em Educação Artística

Texto publicado em http://www.estadao.com.br/artigodoleitor/canal/"






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