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cronicas-->A mão do Médici -- 29/01/2004 - 22:40 (Athos Ronaldo Miralha da Cunha) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos


A mão do Médici
Athos Ronaldo Miralha da Cunha

Em 1971 eu era um retraído estudante da 5a série do ensino fundamental. Um garoto que, naquela época, ainda não amava os Beatles. Mas era um guri cheio de vida que brincava, jogava futebol, colecionava figurinhas e preenchia álbuns. Naqueles anos meninos havia várias coleções para ocupar nossas horas vazias. Juntávamos figuras para completar os cadernos do mapa do mundo; dos jogadores de futebol tricampeões da Copa de 70; de carros de corridas e outros temas que se perderam nas sombras da memória.

Em um certo dia daquele longínquo início da década de 70 a nossa lúdica rotina estudantil foi quebrada, fomos surpreendidos por uma convocação. Iríamos recepcionar o Presidente da República quando sua comitiva cruzasse pelas ruas da cidade.
E num final de uma manhã com um sol escaldante, todos os colegiais da rede pública de ensino estavam prontos para saudar o Presidente Emílio Garrastazu Médici.
Era uma novidade para os estudantes e um alvoroço para os professores. Tudo organizado nos mais ínfimos detalhes. Uma enorme responsabilidade, pois estaríamos recepcionando o Presidente Médici, como era mais conhecido no meio estudantil. E o presidente, ainda por cima, era general e durão. O que dava maior importància, respeitabilidade e admiração.

O general Médici virá a Santa Maria! Um burburinho tomava conta dos estudantes.
Os alunos foram devidamente uniformizados e perfilados nas calçadas das ruas e avenidas da cidade para ver o presidente passar. Todos portavam nas mãos a bandeirinha do Brasil para fazer a devida saudação ao presidente.
Ficamos mais de hora expostos a um sol de meio-dia de um outono de ressaca.
Enfim, alguém avisou. A comitiva presidencial estava chegando. Já estava na avenida em que aguardávamos junto ao meio-fio. Eu não tenho muita certeza e a lembrança pode ser falha, mas a nossa turma deveria estar nas proximidades do cruzamento da avenida Borges de Medeiros com a Niederauer.

Passaram ligeiros, velozes, insensíveis e invisíveis. Era uma caravana com camionetas do exército com soldados armados (sabe-se lá se amados ou não) e de pomposos carros pretos com os vidros fechados.
Fiquei decepcionado. Pois na minha doce ilusão infantil eu queria ver o presidente, quem sabe até apertar sua mão. Afinal! Éramos gaúchos.
Também não entendi o porquê daquela pressa. Com o agito provocado pela movimentação e ronco dos motores, sequer fiquei sabendo qual era o carro do presidente. Certamente, deveria ser um daqueles carros pretos hermeticamente fechados e com as pessoas escondidas por detrás do suporte traseiro do carro.

Após o rápido desfile da comitiva o nosso grupo voltou para a escola, localizada a quatro quadras do nosso infrutífero "posto de observação do presidente".

Chateado e desapontado voltei com a bandeira brasileira sob o braço. Ainda comentei com um amigo que não havia achado graça nenhuma naquela correria de carros pretos e milicos armados.
E o colega falou que viu uma mão branca acenando levemente de dentro de um dos carros. Deveria ser a mão do presidente. Certamente, era a mão do general.
- Pelo menos tu viste a mão e eu que não vi nada.
E em seguida tive que ouvir uma flauta do colega. Repetidas vezes, no melhor estilo infantil de tirar sarro.
- Eu vi a mão do presidente! Eu vi a mão do presidente! Eu vi a mão do presidente! - e se foi correndo pela calçada, atirando a bandeira de papel para o alto e tentando segurá-la novamente.
E eu fiquei desolado e triste pois não tinha visto nada, nem a mão do Médici.





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