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Contos-->A chave -- 04/06/2007 - 08:11 (Alvaro Nascimento Vieira) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
A chave
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São 19:30h de uma Segunda-feira. Sou um homem jovem, solteiro, financeiramente independente e estou voltando para a casa quando percebo que não tenho a chave em nenhum dos meus bolsos. Procuro também em uma bolsa de compras que está no carro. Nada. Tento me recordar de todos os lugares onde estive no intuito de atinar onde poderia ter esquecido a tal chave. Começo, então, a reviver o meu dia...

Depois de ter “quase acordado” e tomado meu café pela manhã, fui à mesa de centro da sala, onde sempre deixo a minha chave de casa. Não costumo deixar nunca a chave do carro com a da casa juntas, pois a eventual ausência de uma delas faz você ficar também sem a outra. Peguei a chave e saí.

Quando entrei no carro coloquei a chave onde sempre coloco: no “porta-luvas”, um compartimento que eu nunca usei para colocar luvas. Não me lembro, para falar bem a verdade, de um dia ter tido luvas... Bom, até então tenho a chave comigo.

Saí mais cedo e aproveitei, antes de ir ao trabalho, para passar na casa de um amigo meu e pegar uns documentos que lá eu deixara para ele avaliar. Ele não estava em casa. É incrível como é que uma pessoa tem a capacidade de não estar em sua casa quando você passa para falar com ela sem avisar. Mas tudo bem. Não seria isso a estragar o meu dia logo de manhã.

Segui, em plena manhã chuvosa, para o bairro mais barulhento e confuso da cidade neste horário. Era quase uma noite às sete da manhã. É um bairro onde, ninguém sabe por que, todas as empresas resolveram se instalar. Em geral, empresas de altos prédios e quase nenhum estacionamento destinado a funcionários de baixo escalão. Ou seja, as ruas, para quem já chegou e está vendo de lá de cima, ficam mais parecidas com caminhos de formigas indo em busca de um açúcar derramado na cozinha. Aí eu me pergunto: “Poderia a empresa onde eu trabalho ser diferente? Poderia ela ter se implantado em outro local?” Pois é. Não. Essa empresa, a qual eu dedico tanto esforço, escolheu algo como o cruzamento da avenida principal com a transversal principal para se instalar. Nesse caso não se trata de uma trilha de formigas em busca do açúcar. É o próprio formigueiro.

Pensei: “Já estou tão acostumado que isso nem vai me afetar”. E realmente não afetou. Como é todo dia a mesma coisa, nem sinto mais. É como um carro cuja partida não se dá com facilidade e de vez em quando faz com que você tenha que pegar um ônibus lotado. É ruim para quem tem o carro. Quem não tem carro, posso garantir, nem sente muito a falta quando ele não funciona.

Retirei cuidadosamente a chave de casa do porta-luvas após estacionar o carro e a coloquei dentro da pasta, junto com os envelop... Puta merda! A chave ficou na pasta que eu deixei no escritório! E o pior é que a pasta já foi enviada ao destinatário, que por acaso se encontra do outro lado do país! Deus do céu! O que eu vou fazer?

Eu sou da opinião de que para tudo existe uma solução. Por exemplo, neste caso, a solução era bem simples. Eu passaria na casa do meu melhor amigo e companheiro de trabalho e pegaria, lá com ele, a chave reserva da minha casa. Como eu disse, para tudo existe uma solução. E esse meu amigo seria a minha salvação. Seria, se ele não tivesse ido embora junto com a mala e os documentos para o outro lado do país! Claro que ainda havia a possibilidade de eu conseguir pegar a minha chave reserva se eu lembrasse na casa de quem o meu melhor amigo e companheiro de trabalho deixava a chave reserva da casa dele. Foi então que eu lembrei com quem ele costumava deixar a chave reserva dele: comigo! Lembro até da sua frase infeliz: “Eu deixo na sua e você deixa na minha. Assim, qualquer coisa, um salva o outro”. Grande salvação... Já era quase 20:00h e, não sei se mencionei, não havia parado de chover desde de manhã. Passei um dia inteiro pensando positivo, tentando enxergar as coisas sempre pelo seu lado bom, mas nesse momento do dia este sentimento de otimismo estava gentilmente cedendo lugar a uma pequena porção de raiva. Afinal de contas eu sou um otimista, não um otimista que gosta de dormir no carro.

Toca o meu celular. Em meio a uma interferência absurda que os usuários de telefones celulares não pagam para ter, uma voz extremamente irritada profere as seguintes palavras ainda no meio do meu “alô”:

- Escuta, vem para o escritório agora que surgiu um problema. Depois te explico. Até mais.

A ruas da cidade eram como braços de um grande e caudaloso rio e eu, sabendo que teria que voltar ao escritório uma vez tendo acabado de sair de lá, comecei a procurar por coisas piores que já tivessem acontecido na minha vida, pois achei que essa era a única maneira de amenizar um pouco a situação.

E lá vamos nós. De volta ao escritório. Pelo menos dessa vez tinha um monte de lugar para estacionar o carro. Cumprimentei o segurança, certamente só por educação, e com os olhos fixos no chão passei pela entrada, pelo elevador e pelos corredores que vão até a minha sala, ainda na esperança de ter me enganado quanto à pasta com os documentos e da chave ter caído em algum lugar por ali mesmo. Infelizmente, acho que estava certo. Só carpete, carpete...

Comecei a achar muito estranho o fato das luzes estarem apagadas e, para que fique bem explícito o nível de irracionalidade a que uma pessoa pode chegar em uma situação como esta, comecei até a pensar que o pessoal do escritório teria preparado uma festa surpresa para mim. Está certo que a gente não pode acreditar em tudo o que vê nos filmes, mas isto acontece tanto nos filmes que pensei poder ser possível de acontecer comigo também.

Não sei por que, talvez pela iminente e potencial “festa de escritório” que já havia tomado conta de mim, aquela sensação de que “hoje não é o meu dia” ou de que “azar é o meu sobrenome” foi embora repentinamente. Já tinha até me esquecido de que tudo que acontecera naquele dia até então fora extremamente desagradável. Fui caminhando lentamente pelo corredor, tomando o cuidado de manter as luzes apagadas como estavam, para que o pessoal não percebesse a minha presença. Cheguei até a porta da minha sala, abri-a com cuidado e, num gesto de euforia, acendi as luzes e ouvi o que tanto esperava: “Surpresa!”. Não que alguém tenha dito, pois não havia absolutamente ninguém na sala. Acho que só eu mesmo é que ouvi. E lembra aquela sensação de que “hoje não é o meu dia” e tudo mais? Pois é, voltou tão rápido...

Era deplorável o estado em que se encontrava o meu otimismo. Porém me lembrei que, ainda que um completo derrotado emocionalmente, eu era um profissional que havia sido convocado para uma reunião de emergência. Imparcial no meu trabalho, sempre sabendo separar vida profissional de vida privada, deixei de lado tudo o que me abalava e fui à sala do meu chefe para a reunião. Está certo, tenho que admitir que, com exceção da perfeição em forma de mulher que coordenava toda a equipe do sétimo andar, eu sempre fui imparcial e sempre soube separar vida profissional de vida privada.

Chego então à sala do meu chefe. Gostaria muito de não ter que passar novamente pela situação que acabara de acontecer, mas eu via, naquele corredor escuro, toda a cena se repetindo. Por que o meu chefe, que supostamente deveria estar trabalhando, estaria na sua sala com as luzes apagadas? A resposta é simples: é porque ele não estava lá. E não foi muito difícil descobrir o porquê. Meu melhor amigo e companheiro havia me falado claramente, no dia anterior: “Que droga! O chefe tinha que escolher justo a mim para acompanhá-lo na viagem?”. Puxa, como eu queria ter me lembrado dessa frase quando estava ainda no carro, em frente da minha casa, sem falsas reuniões ou falsas festas de escritório. Segundo os meus limitados conhecimentos em física, o meu amável chefe não poderia estar me esperando para a reunião na empresa e, ao mesmo tempo, estar viajando para o outro lado do país. Por que eu não comprei um aparelho de som novo em vez do celular?

Sem casa, sem reunião, sem muito motivo até para andar para a frente, resolvi fazer uma coisa que sempre tive vontade: fingir que era diretor da empresa. Aproveitei a chance de estar sozinho em uma sala com mais carpete que a minha para assinar uns documentos fictícios e chamar umas secretárias fantasmas pelo interfone de mesa. A sensação foi muito boa. Já que eu não podia ir para casa mesmo e, a essa altura, a empresa era toda minha, resolvi que eu seria o diretor geral da corporação inteira, da multinacional, ou qualquer que fosse a denominação que a minha mente dava para a empresa naquele momento. Foi então que eu resolvi pegar um porta-canetas da mesa e fingir que era um celular extremamente caro que somente os diretores gerais possuem. Deu-se início a negociação.

“Vende tudo e aplica em fundo!” – eu dizia – “Esquece as filiais na Ásia. Aquela gente não sabe fazer negócio do nosso jeito!”

Já tinha dado algumas broncas nos meus subalternos ao redor do mundo e resolvi que era hora de ir embora. Tudo bem que eu não poderia voltar para casa, mas também não ia amanhecer na empresa. Arranjaria um hotel e pronto. Tive o cuidado de arrumar tudo antes de sair, dei aquela última sentada na cadeira e foi então que passei a duvidar do que eu mesmo via.

Parada, de pé, encostada na porta, estava ela. Aquela mulher. Aquela que fazia com que a minha distinção entre vida profissional e privada fosse completamente esquecida. A coordenadora da equipe do sétimo andar. A linha que separa o mundo real do imaginário já tinha se tornado tão inexistente para mim que eu resolvi ignorar mais esse devaneio e simplesmente ir embora.

- Brincando de ser o chefe, hein?

Bom, devaneios que falam têm mais chance de serem reais do que os outros. Antes que eu pudesse responder, ela continuou, com uma certa surpresa no olhar:

- O que você faz aqui a essa hora?

Resolvi responder com a mesma pergunta. Afinal, que motivos ela teria para estar na empresa, sozinha, àquela hora?

- Vim buscar a chave da minha casa que eu havia esquecido – ela disse.

Depois dessa eu não agüentei. Comecei a rir tanto que a mulher não entendeu nada. Eu tinha chegado a um limite tal de qualquer raciocínio lógico ou de controle das minhas reações que não estava nem mais me importando com o que ela iria pensar de mim, ali, rindo feito um idiota. A situação se deu tão naturalmente que ela começou a rir também, do nada. Quando consegui me conter, comecei a contar a ela toda a história, desde a chave perdida até a festa-surpresa imaginária. Ela ria deliciosamente. Percebi que por trás da idéia que eu tinha de uma inatingível chefe de departamento, existia uma pessoa amável e carinhosa. Uma mulher linda, amável e carinhosa me perguntando se seria muito incômodo levá-la até a sua casa, uma vez que o carro dela estava quebrado e ela teria que pegar um táxi para ir embora. A minha resposta, afirmativa, é claro, foi dada quase que já dentro do carro, tamanha era a minha vontade de fazer esse incômodo favor a ela.

No caminho conversamos mais um pouco sobre os detalhes de toda a sorte que eu tivera naquele dia. Era impressionante como ela parecia interessada em tudo que eu falava, ao contrário de mim, que permanecia completamente absorto na beleza e na suavidade com que ela dizia cada palavra.

Infelizmente chegamos. Disse a ela que teria conseguido fazer ao menos uma coisa certa naquele dia que teria sido levá-la em casa sem nenhum contratempo. Foi então que para minha total surpresa ela me pegou pela mão, já fora do carro, me olhou com um olhar que eu jamais vou esquecer e me convidou para entrar.

A partir daí a coisa toda se torna pessoal o suficiente a ponto de não ser de bom tom comentar. Só sei que entre um gole de vinho e outro toca o meu telefone celular. Era o meu melhor amigo e companheiro de trabalho falando diretamente de não sei bem onde, do outro lado do país:

- Escuta, a sua chave está aqui comigo, viu? Ficou dentro da pasta. Amanhã, assim que a gente voltar, eu te devolvo.

Ri um pouco e pensei: “Chave, chave... Uma vez que se descobre a maneira correta de abrir as portas, quem precisa de chave?”
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