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Poesias-->A um ausente (Carlos Drummond de Andrade) -- 09/05/2008 - 20:18 (Ana Maria de Oliveira Ramos) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
A um ausente (Carlos Drummond de Andrade)





Tenho razão de sentir saudade,

tenho razão de te acusar.

Houve um pacto implícito que rompeste

e sem te despedires foste embora.



Detonaste o pacto.

Detonaste a vida geral, a comum aquiescência

e viver e explorar os rumos de obscuridade

sem prazo sem consulta sem provocação

até o limite das folhas caídas na hora de cair.



Antecipaste a hora.

Teu ponteiro enloqueceu,

enlouquecendo nossas horas

Que poderias ter feito de mais grave

do que o ato sem continuação, o ato em si,

o ato que não ousamos nem sabemos ousar

porque depois dele não há nada?



Tenho razão para sentir saudade de ti,

de nossa convivência em falas camaradas,

simples apertar de mãos, nem isso, voz

modulando sílabas conhecidas e banais

que eram sempre certeza e segurança.



Sim, tenho saudades.

Sim, acuso-te porque fizeste

o não previsto nas leis da amizade e da natureza

nem nos deixaste sequer o direito de indagar

porque o fizeste, porque te foste.

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