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Contos-->FLASH -- 04/07/2007 - 10:24 (Antonio Alfredo Matthiesen) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
FLASH



Antonio Alfredo Matthiesen


Telefonara para a tia Clotilde na véspera avisando que iria visitá-la. Como esta já havia marcado hora no cabeleireiro, deixou-lhe a chave da casa debaixo do tapete da porta da frente.
Sentado no terraço de inverno, em meio a vasos suspensos com samambaias e rendas portuguesas, Horácio aguardava a tia, curvado sobre uma mesinha de centro folheando, aleatória e descompromissadamente, uma revista de notícias semanais. De quando em quando, desviava os olhos para o quintal a fim de acompanhar as travessuras de Flash, que corria de um lado para outro, numa alegria imensa. Nos últimos tempos aquele cachorro da raça “Labrador Retriever”, tornara-se seu companheiro inseparável. Por vezes cogitava se era apenas uma amizade ou o seu próprio carma. Sorria ao lembrar o que um amigo havia comentado certa ocasião: “Labrador só deveria ser criado por cegos, como cão-guia, pois ninguém suporta enxergar as barbaridades que o dito-cujo apronta”. Sua casa nos três últimos anos havia sido literalmente detonada. Os móveis de madeira estavam em petição de miséria. Poucas cadeiras ainda ofereciam alguma segurança. A maioria, com seus pés mordidos e roídos, foi interditada por absoluta falta de estabilidade. Isso sem falar naquele tapete de seda que havia trazido de Pequim, quando lá esteve numa missão oficial representando o Porto de Santos. Fora um presente do governo chinês, que se transformou numa verdadeira via crúcis quando chegou ao Brasil. Retido na alfândega, tentou sua liberação de todos os meios de que podia lançar mão, face ao caráter de sua viagem. Depois de muita luta e aborrecimentos, sucumbiu, arcando com os recursos do próprio bolso, para o pagamento das pesadas taxas alfandegárias correspondentes. No entanto, todo sacrifício e dispêndio seriam relevados pelo prazer de ter e ostentar no próprio lar, um troféu do extremo Oriente, símbolo de parte de sua ascensão profissional. O orgulho por tal relíquia, porém, transformou-se num pesadelo e quase lhe causou um infarto quando, após um dia exaustivo, ao chegar do trabalho, viu retalhos e tufos de seda espalhados por toda a casa, formando uma trilha que conduzia ao caos. E o caos era nada mais nada menos do que seu querido tapete, agonizando no chão do corredor. Estraçalhado, parecia que tinha sido abocanhado por um tubarão. A um passo de distância, o cãozinho de quatro meses de idade, balançando o rabo, olhava para ele com cara de anjo, como se nada tivesse acontecido, não fosse sua boca cheia de fiapos de seda a denunciá-lo de forma inquestionável. Na hora, cheio de ódio, seu desejo foi o de esganar, depois esquartejar e salgar os pedaços do cão para atirá-los de cima de todos os penhascos existentes na face da Terra. Mas o tempo é o senhor da razão, e, já no dia seguinte, seu instinto sanguinário havia arrefecido e a vida continuava seu curso, como um rio caudaloso e de águas turbulentas algumas vezes. Por diversas ocasiões pensou seriamente em se desfazer daquele “patrimônio inconseqüente”, mas não lhe faltaram conselhos de amigos ligados à Associação Protetora dos Animais, veterinários e donos de pet-shop para demovê-lo desses momentos de lucidez. Diziam que o animal era ainda muito novo e que tudo isso mudaria radicalmente com o tempo, tornando-o comportado e obediente.
No entanto, já se havia passado cerca de três anos e pouca coisa mudara. Fazendo justiça, a índole canina destrutiva tinha diminuído, o bicho tornara-se mais dócil, as brincadeiras mais amenas e as traquinagens, que eram sua marca registrada, continuavam, porém, de maneira mais suportáveis. Sendo sincero para consigo mesmo, Horácio reconheceu que o que mudara realmente foram as suas atitudes para com o cão. Com a convivência, a sua tolerância, à razão direta do tempo, foi aumentando sensivelmente. Muita coisa de seu intransigente código de posturas passou a não ter tanta importância. Sua escala de valores foi mudada e as coisas materiais passaram para um plano inferior. Atribuía isso, sem dúvida, ao convívio com aquele animal que passou não apenas a suportar, como também a compreender e, porque não dizer, a amar.
E com esses devaneios, na calmaria ecológica do terraço de tia Clotilde no qual Horácio ainda a aguardava, foi surpreendido por um verdadeiro tsunami. Era Flash, em desabalada carreira, latindo e perseguindo aos pulos uma borboleta amarela que havia invadido a área num vôo irregular, zigue-zagueando em meio às plantas. O piso do terraço, revestido de cerâmica vermelha impecavelmente encerada, ficava elevado cerca de um metro em relação ao quintal. O terraço possuia uma escada de quatro degraus em cada uma de suas duas extremidades. Aquele relâmpago, fazendo jus ao seu próprio nome, em sua perseguição implacável, invadia o terraço por um lado e escapulia pelo outro, completando um círculo em que metade era o quintal e metade era o terraço, e quando neste último, derrapava no chão liso e ia de encontro aos enormes vasos de antúrios, majestosamente enfileirados ao longo da parede longitudinal que fazia divisa com a sala da casa. A cena lembrava uma pista de boliche onde os pinos eram os vasos, e a bola, aquele incorrigível animal. Tentando evitar um strike, Horácio, com a agilidade de um tigre, saltava de um canto a outro para proteger os vasos, mas não rápido o suficiente para salvar um cinzeiro de cristal que decolou da mesinha na derradeira derrapagem do cão, momentos antes da borboletinha sair de cena ilesa, perdendo-se por entre as árvores do quintal.
Varridos os cacos e contabilizado o prejuízo, Horácio voltou à sua revista, já sem nenhuma concentração para as notícias. Seu humor mudara e não era para menos. Seus olhos faiscavam de irritação ao contemplar o danado do cão, que havia retomado suas brincadeiras no fundo do quintal. A raiva nem era tanto pelo recente incidente, mas pelo trabalho que teria para dar banho no cão, ao voltar para casa. O cachorro parecia um tatu. Numa euforia doida, cavava buracos na terra, corria pelo barro e poças de água, perseguia os passarinhos, enfim, dava a impressão de estar vivendo os últimos minutos de sua vida. Para evitar uma nova surpresa, fechou as portas que ligavam o terraço às salas, enquanto aguardava o retorno da tia. A velha já beirava os oitenta anos e, apesar de ter uma saúde de ferro, Horácio duvidava que ela pudesse suportar o impacto de ver seus tapetes persas sujos de barro. Portanto, todo cuidado era pouco. Mesmo mantendo “o pestinha” em local aparentemente seguro, intensificou a vigilância, demarcando bem os limites para o irrefreável alvoroço de seu amigo. Para Flash, sempre era possível aprontar alguma coisa, a qualquer hora, em qualquer lugar. Reafirmando mentalmente seus temores e precauções, Horácio repentinamente notou que, ao longe, Flash chacoalhava na boca um pedaço de pano branco sujo de lama. Onde, por Deus, ele pegou aquele pano?, pensou. Correu para mais perto e quase teve uma síncope ao ver que não se tratava de um pano branco e sim do gato de estimação de sua tia. Berrou com o cão a plenos pulmões, mas quando o viu soltar o bichano, notou que era tarde demais: o felino estava morto. Aquele gato “Angorá”, branco como a neve, vivia naquela casa há mais de dez anos e era a própria razão de viver da titia. Talvez por nunca ter tido um filho, ela o considerava como tal. Tratava-o como um rei e conferia-lhe plena liberdade na casa, sem restrições de território. Chamava-se Dingo e parecia ter consciência de sua própria majestade, pois andava por todos os cantos numa altivez inenarrável. Empoleirava-se por todos os móveis e dormia em uma poltrona de veludo carmim especialmente instalada para ele no quarto da tia. Semanalmente, tinha uma hora reservada num pet shop para banho e escovação dos pelos. Com certa regularidade, era levado ao veterinário para consultas de rotina e tratamento dentário. E tudo isso acabara agora na boca de Flash. As pernas de Horácio tremiam, e, por alguns instantes, sentiu que seu espírito se desprendera do corpo. A sensação de impotência criou-lhe um bloqueio na imaginação. Com o olhar perdido varria o horizonte, as copas dos arbustos e, nauseoso, fitava aquele trapo sujo e sem vida aos seus pés. Por Deus, o que farei? Lentamente foi recobrando a razão, as idéias desordenadas tomaram forma e se convergiram para uma saída que julgou como a menos traumática. Pelo menos para si mesmo. Embora fosse carregar pelo resto de seus dias o remorso de ter sido o responsável pelo ocorrido, não queria, aos olhos da querida tia, ser visto como co-autor daquele assassinato. Dividiria aquele segredo somente com o verdadeiro culpado. O acontecido, para Horácio, tinha sido o final catastrófico de uma tragédia envolvendo ele próprio e seu cachorro. Mas, tudo isso era para se pensar depois. Agora tinha que agir, e rápido! Sua tia poderia chegar a qualquer minuto. Pegou o defunto, correu para a área de serviço e encheu de água o tanque de lavar roupas. Abriu uma caixa de sabão em pó e despejou todo o conteúdo, bem como o próprio bichano, naquela banheira improvisada, que agora parecia um iceberg, de tanta espuma. De banho tomado, o próximo passo seria secar aquela montanha de pelos. Começou usando uma toalha, mas logo percebeu que aquilo duraria séculos. Correu desesperadamente para dentro da casa com o gato debaixo do braço e, ao atravessar a sala de visitas, deu-se conta de que Flash estava em seu encalço com as patas sujas de lama. Mais essa, meu São Genaro? Enxotou o cão para fora, trancou a porta e retomou sua corrida até o banheiro. Depois de uma vistoria desesperada por todos os cantos, encontrou o que procurava no fundo de uma prateleira do armário sob o lavatório: um secador de cabelos que, pelo excesso de uso, tinha seu fio descascado na extremidade. Na pressa, Horácio não o percebeu e acabou tomando um tremendo choque. Acho que não falta mais nada para acontecer hoje! Com os pêlos do gato já secos, ele ainda rezava por um pouco mais de tempo enquanto escovava o cadáver com a primeira escova de cabelos que viu pela frente. Completado o serviço, correu para o quarto da tia e, cuidadosamente, depositou o bichano em seu trono exclusivo: a poltrona de veludo carmim. Ajeitou-o de forma que aparentava um sono profundo, afinal, de fato dormia, só que para sempre. Saiu do quarto, limpou o banheiro, as pegadas no chão da sala e deu uma última inspecionada junto a porta de entrada dos aposentos do rei. Sentiu uma espécie de prazer mórbido ao ver Vossa Majestade nos braços de Morfeu.
Retornando ao quintal com o coração sobressaltado, Horácio tratou de amarrar o cão no tronco de uma jabuticabeira, para evitar novas surpresas. A seguir, sentindo certo alívio por ter a situação sob controle, voltou ao terraço e lá permaneceu cerca de meia hora até ouvir o ruído da porta de entrada da casa se abrindo. Mais alguns minutos e um grito alucinado preencheu todo o ambiente. Correu até o local já esperando ver a tia morta com a constatação do óbito do bichano. Ao chegar ao quarto, viu tia Clotilde caída na cama com os olhos arregalados, o braço direito levantado apontando a poltrona onde jazia o infeliz. Tentando disfarçar ao máximo, Horácio argumentou:
― O que foi, titia? O que aconteceu? Dingo está dormindo!
Com a boca completamente escancarada e tremendo convulsivamente, a velha fez um esforço enorme para falar:
― Não, não! Isso não é o Dingo! Isso é um fantasma!
― Como assim titia?
― Dingo morreu ontem de manhã! Eu mesma o enterrei perto do pé de limão.
Então, Horácio ouviu três latidos zombeteiros vindos lá do fundo do quintal.
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