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Contos-->Não há mal que perdure, não há dor que não se cure -- 11/04/2008 - 15:26 (Antonio Alfredo Matthiesen) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Não há mal que perdure, não há dor que não se cure



Há três meses, Dorivaldo fora demitido da empresa em que trabalhara por quinze anos. Não por incompetência ou insubordinação, isto não lhe cabia em hipótese alguma. Profissional exemplar, por duas ocasiões vencera com enorme vantagem o concurso anual de funcionário padrão. Talvez sua excessiva dedicação ao trabalho e inegável senso hierárquico – nunca medindo esforços para cumprir prontamente qualquer ordem superior – tenha despertado a inveja de seus colegas. Já era de seu conhecimento que, às suas costas, chamavam-no de “Dori, o dodói do chefinho”. Em que pese a maledicência, o velado tratamento não era de todo injusto, pois o puxa-saquismo do jovem rapaz tornava-se cada dia mais acintoso. Por seu reconhecido domínio de informática, freqüentemente ia à casa do chefe depois do expediente, para atendê-lo, e à sua família. E quando isso acontecia, o talentoso informático fazia questão de acirrar ainda mais os ânimos, dando ciência do fato aos seus desafetos no escritório. Por essas e outras, com exceção da diretoria, que lhe dispensava uma atenção toda especial privilegiando-o com promoções funcionais em diversas oportunidades, seu comportamento era mal-visto por todos.

Porém, o ódio maior ao subserviente funcionário era nutrido pela secretária do patrão. Morena bonita e venenosa como uma cobra, lançara mão de seus encantos femininos para também conquistar o vulnerável coração do executivo e, segundo as más línguas, passou a ter com ele um relacionamento além dos limites profissionais. E, à medida que se fortalecia esta mútua afinidade, menos espaço sobrava a Dorivaldo, que passou a se constituir num entrave cada vez maior aos sonhos de ascensão na carreira da moça.

Foi apenas uma questão de tempo. Tudo se resolveu com uma simples, e evidentemente infundada, acusação de assédio sexual. Após ouvir ambas as partes numa acareação, o imparcial, austero, justo e apaixonado chefe, com os olhos faiscando de raiva, deu seu veredito em favor da indefesa ajudante, que durante todo o ato chorou convulsivamente.

Como tudo que está ruim pode se tornar ainda pior, depois de desempregado e com maior disponibilidade de tempo para ficar em casa, Dorivaldo começou a perceber algo estranho na rotina de sua esposa. Alheia a tudo, sem demonstrar a menor preocupação com a desesperadora situação de seu marido, ela parecia estar vivendo num outro mundo. Com o olhar sempre distante, tal como uma adolescente sonhadora, esmerava-se no vestuário e quase todos os dias tinha um motivo para sair de casa: consulta com o dentista, médico, academia, reunião na casa de amigas, etc.

No entanto, o que mais despertou a atenção de Dorivaldo foi o fato de ela passar a incentivá-lo a ir pescar – seu hobby predileto, até então relegado a um segundo plano. Tal conselho agora parecia-lhe descabido. Soava mal aquele desprendimento, beirando a futilidade, em meio a um cenário preocupante de desemprego.

A partir daí, o sofrimento de sua via crúcis em busca de um trabalho cedeu lugar à perturbação da dúvida, que lhe invadiu a mente. Dantes, apaixonado, jamais pudera sequer imaginar um simples pensamento infiel por parte da mulher.

Com o ciúme a consumir-lhe as entranhas, comprou um revólver e pôs-se a arquitetar um plano para esclarecer de uma vez por todas as suas suspeitas.

Foi na hora do jantar, numa quinta-feira, que ele fez o comunicado:

— Seguirei seu conselho, querida.

— Que conselho?

— Vou para o rancho de pescaria do Antonio Cláudio, amanhã de manhã.

— Que bom, meu amor. É disso mesmo que você está precisando. Descanse bastante. Não vale a pena tanto sofrimento. As coisas vão se resolver logo, logo. Pode confiar. E quando você volta? – indagou a esposa com ar inocente.

— Domingo à tarde.

Aquela conversa dissimulada revirou-lhe o estômago. A raiva aumentara e já se tornava nítida a cena que estava por vir, em meio ao turbilhão de imagens projetadas em sua cabeça,.

Na manhã seguinte, carregando seus apetrechos de pesca, Dorivaldo se hospedou num hotel no centro da cidade. Passou o dia no quarto, repassando na mente cada detalhe da execução do roteiro que lhe lavaria a honra. O amante será o primeiro a morrer, pensou. Não porque o considerasse pior em sua escala de vingança. Afinal, pelos conceitos familiares machistas que compuseram a sua educação, Dorivaldo até relevaria o papel do garanhão. Muito provavelmente tinha sido envolvido por aquela devassa. O que pretendia, na verdade, era intensificar o sofrimento da esposa, obrigando-a a assistir tudo aquilo que ela mesma experimentaria, quando chegasse sua vez. Procrastinando-lhe a morte, poderia saborear um pouco mais o mórbido prazer de ver estampados, na face da infiel, o pavor e o pânico, e quem sabe, um pouco de arrependimento.

Assim, para pôr em prática o tão elaborado script, retornou à sua casa no começo da noite. Logo ao entrar na sala, sorrateiro como um felino, viu espalhadas, aleatoriamente sobre o tapete, as roupas do visitante e da mulher. De arma em punho dirigiu-se à porta do banheiro, de onde provinham os sons de vozes e risos abafados pelo barulho da ducha que jorrava água sobre a banheira.

Suas mãos suavam quando tocou a fria maçaneta da porta, mas não teve força suficiente para girá-la. Alguma coisa em seu corpo impedia-lhe qualquer ação física naquele momento. Sentiu-se impotente frente aos pensamentos que lhe passavam pela cabeça. Vislumbrava as manchetes dos jornais do dia seguinte, estampando o seu nome como autor de um duplo assassinato, a comoção social que o crime causaria e a sua posterior condenação a um longo período de prisão. As imagens surgiram tão reais em sua mente, que passou a vivenciar, com extrema clareza, todo o sofrimento que o aguardava numa cela abarrotada por gente da pior espécie.

Com as pernas tremendo e o coração acelerado, sentindo que aqueles instantes seriam decisivos em sua vida, Dorivaldo lutava com todas as suas forças para que a razão sobrepujasse o ódio. Não, não haveria de sujar as mãos por uma pessoa sem moral e dignidade!

Guardou o revólver e, ao dirigir-se para a porta da rua, seus pés enroscaram-se numa peça de roupa. Uma súbita curiosidade lhe assaltou: Quem seria o pivô dessa história? Para esclarecer, retirou a carteira do bolso interno da jaqueta masculina que apanhara no chão e a colocou no próprio bolso. Mesmo sem verificar seu conteúdo, imaginou que se ali tivesse algum dinheiro, seria uma forma de recompensar-se pelos serviços que a prostituta de sua esposa estava prestando naquele momento.

A desgraça vem a cavalo – pensava com seus botões, enquanto estendia o conteúdo daquela carteira sobre a cama do hotel. Além dos documentos, através dos quais descobriu a identidade da voz que ouvira no seu banheiro há pouco, havia também a quantia de R$ 550,00 e um volante da mega-sena no valor de R$ 1,50. Tratava-se dos pertences do Sr. Gaspar, o conceituado cidadão, dono da maior livraria da cidade. Em um misto de náusea e desdém, olhava as fotos do crápula, sentindo-se cada vez mais humilhado e desprezível. Completamente arrasado, sem uma aparente saída para sua desgraça, Dorivaldo lutava contra a tentação de estourar os próprios miolos com aquela arma, ainda sem uso. Felizmente, o instinto de preservação falou mais alto.

No domingo de manhã, ao deixar o hotel, Dorivaldo carregava nos ombros o peso de um fim de semana sem dormir. Era como se estivesse saindo de um campo de concentração. Embora vivo, não vislumbrava nenhum rumo para dar seqüência à sua vida. No caminho de volta para casa, a passos lentos e relutantes, parou defronte a uma banca de jornal. Com a realidade fora de foco, lia com displicência as manchetes do dia, quando algo lhe despertou a atenção. Num impulso, retirou do bolso o volante da mega-sena encontrado na carteira do amante da mulher. O mundo à sua volta pôs-se a girar como um carrossel, transformando o reflexo dos raios de sol sobre as capas das revistas num imenso borrão colorido. Sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés e o corpo flutuar por alguns momentos antes de desabar por cima das pilhas de publicações estocadas a um canto da banca. Ao recobrar os sentidos tinha a mão direita ainda fortemente fechada, escondendo um verdadeiro tesouro: um pedaço de papel com os exatos seis números sorteados no concurso lotérico da véspera, acumulado em 30 milhões de reais e tendo somente um ganhador.

Um mês após tornar-se milionário, e já com o processo de separação conjugal em estágio adiantado, Dorivaldo, para não perder o antigo hábito provocativo, estacionou seu carro em frente à maior livraria da cidade e procurou pelo proprietário. Sem ter como fugir, Gaspar se apresentou com o rosto lívido e as mãos geladas e suadas. Já conhecia, e bem, o homem que o procurava, pelos inúmeros porta-retratos espalhados por toda a casa da amante. Visivelmente apavorado, o livreiro esperou pelo pior. Isso só pode ser um acerto de contas, pensou, quando o recém chegado estendeu-lhe a mão:

— Senhor Gaspar?

— Sou eu mesmo.

— Ah, sim. Em primeiro lugar, eu quero lhe pedir desculpas pelo atraso de minha vinda até aqui. Estive um pouco atribulado ultimamente, mas sempre é tempo, concorda?

E ao terminar a frase, Dorivaldo enfiou a mão direita no bolso interno do paletó.

Neste instante, Gaspar, com os olhos arregalados, teve vontade de gritar por socorro enquanto Dorivaldo, esboçando um leve sorriso, disfarçava a sensação de prazer que lhe corria nas veias, quando retirou do bolso uma carteira.

— É sua ? – perguntou, entregando-lhe o objeto.

— Puxa! Muito obrigado! Eu estava realmente preocupado com a provável perda dos documentos – disse, verificando rapidamente seu conteúdo – Onde o senhor a encontrou? – indagou a seguir, arrependendo-se no mesmo instante em que a pergunta lhe fugiu pelos lábios, pois tinha quase certeza que havia perdido a carteira na noite em que esteve na casa da amante, enquanto o marido participava de uma pescaria.

— Junto ao meio-fio da calçada da minha casa – sorriu Dorivaldo.

Para camuflar o desconforto daquela conversa, Gaspar tentou dar uma pitada de humor às suas palavras:

— Pelo menos parece tratar-se de um bom ladrão. Levou-me somente o dinheiro.

— Sim, é verdade. Somente o dinheiro – concordou o visitante com uma sutil ironia.

Ao retirar-se, coberto de agradecimentos, Dorivaldo parou em frente a uma estante no final do corredor para verificar um livro de capa vermelha que lhe chamara a atenção. Folheou-o rapidamente e, ao colocá-lo de volta no lugar, voltou-se ainda uma vez para o proprietário da loja, antes de deixá-la, dando-lhe um aceno e um último sorriso, como se estivesse lhe enviando uma mensagem telepática.

Pensativo e confuso, embora aliviado com o término da inesperada visita, Gaspar passou a conferir os documentos no interior de sua carteira. Estavam todos lá, à exceção do dinheiro, evidentemente, e de um volante da mega-sena que lembrava ter comprado de uma insistente menina na rua, no mês anterior. No entanto, esse fato não lhe trouxe maiores preocupações, já que não era dado a jogos de qualquer natureza. Nas raras ocasiões em que comprara um bilhete de loteria, sequer conferira o resultado. Além do mais, considerava-se uma pessoa de pouca sorte.

Movido pela curiosidade buscou, a seguir, o livro que Dorivaldo examinara com tanto interesse, minutos antes. Ao tomar conhecimento do título, Gaspar sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, como se tivesse adentrado uma câmara frigorífica.

Isto é, sem dúvida alguma, a chave de um enigma – concluiu.

Após um longo tempo absorto em elucubrações mentais, tentando dar um sentido àquilo tudo, rendeu-se, enfim, à sua absoluta incapacidade de estabelecer uma associação lógica entre os recentes acontecimentos e aquelas letras douradas sobre a capa vermelha, compondo o velho ditado popular: “A JUSTIÇA TARDA, MAS NÃO FALHA”.

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