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Artigos-->Os infratores e suas infracoes sob a otica humanista -- 17/04/2001 - 12:04 (Alexandre Farah Gieseke) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos


OS INFRATORES E SUAS INFRAÇÕES SOB A ÓTICA HUMANISTA :



"Eu parto do pressuposto de que existe em cada ser humano o desejo de um encontro profundo, onde ele possa ser verdadeiramente ele mesmo e onde o que ele expressa possa se compreendido e considerado pelo outro...".

Escípio da Cunha Lobo



Inicialmente, é bom que se exponha que tais escritos vem antes de mais nada objetivar novas formas de enxergar e de lidar com os adolescentes em questão - em cumprimento da lei. Ou seja, ao contrário de substituir algo, pretende-se somar, lançando-se reflexões àquelas já existentes e utilizadas. Além disso, espera-se que se entenda que sob nenhuma forma está se tomando partido de algo ou alguém em detrimento de outrem, mas sim que está se lançando novos olhares a um campo mais abrangente e a fatores/causas, do descumprimento das normas e leis, talvez antes negligenciados.



Em se tratando de uma ótica humanista, pode-se contextualizá-la no presente texto exprimindo-se alguns termos e os seus significados. Esses devem ser encarados como condições fundamentais para a ambientação e promoção de crescimento e auto-desenvolvimento o mais saudável possível, de todo e qualquer ser humano.



Antes porém, de se apresentar tais termos, deve-se ter em mente um dos principais pilares da Teoria Humanista (Rogeriana), chamado: Tendência a Atualização.



Essa, considerada a mais fundamental do organismo e que preside o exercício de todas as funções, é inerente ao ser humano e visa desenvolver todas as suas potencialidades, de maneira cada vez mais, a favorecer sua conservação e seu enriquecimento. Ou seja, é uma força direcionada para a preservação e o engrandecimento do "eu" (lê-se indivíduo) e que assim, orienta os comportamentos que esse manifesta.



Expondo portanto, os termos escolhidos como basicamente necessários, tem-se:



Aceitação incondicional: respeito e consideração à pessoa e ao seu sentimento interno e não necessariamente ao ato executado por essa. Em outras palavras, há um prezar da experiência vivida pela pessoa e não propriamente do seu comportamento.



Congruência: utilizando-se de algumas palavras do psicólogo Carl Rogers (1964), em seu texto: "Um jeito de ser - Experiências em Comunicação" tem-se que: "...quando o que estou vivenciando num determinado momento está presente em minha consciência e quando o que está presente em minha consciência está presente em minha comunicação, denomina-se congruência...". Em outras palavras, há uma autenticidade quando o que está sendo vivido tem representação na consciência e quando esse mesmo conteúdo se esvai de alguma forma pelo que faço, digo, demonstro, enfim comunico.

A experiência em si, quando é simbolizada, expressada e comunicada demonstra o estado de congruência.



Antes de se correlacionar os contextos em que os adolescentes infratores estão sujeitos com o pensamento humanista, exposto por Carl Rogers é interessante focalizar a que tipo de posturas de rejeição eles estão submetidos e de onde esses procedimentos se originam. Haja visto que nesses contextos, em sua grande maioria, não se sustenta uma visão otimista/respeitosa do homem, algo encontrado nos que crêem na Tendência a Atualização. Além de não serem permeados por atitudes que valorizam a aceitação incondicional ou a congruência, pelo menos não de forma explícita.



Enfim, quais são esses contextos ? Inicialmente, encontra-se a família como um espaço de maior referência - para não dizer influência - durante o desenvolvimento bio-psíquico-emocional do infante. Cabe aqui falar por exemplo, dos inúmeros e marcantes casos de abandono por parte do pai, ou dos pais. Posteriormente a tal ato, aqueles que assumem a adoção (responsabilidade) pelos menores, não suportam consciente ou inconscientemente a enxergar o ódio provocado por aquele abandono ou por aquela rejeição. Ou seja, logo em suas primeiras relações, seja por desamparo físico ou emocional vão constituindo-se sensações e experiências angustiantes, dolorosas que não encontrando possibilidades de expressão, fluem através de atos desadaptados socialmente.



E nessa situação tem-se um adento, pois compete principalmente ao pai, a função de lei ou de determinação de normas. Sendo assim, desde os primeiros anos de vida, a noção de limite/responsabilidade vai se tornando obscurecida e confusa ao sujeito.



No meio sócio-econômico, é semelhante o ambiente indisposto a um crescimento salutar. Tanto no contato com a comunidade e vizinhos, como na relação de trabalho, não se percebe facilmente atitudes que denotem consideração ou valorização do adolescente (no caso, infrator) como pessoa de direitos e deveres. Exemplificando-se, diz-se da enorme dificuldade do mercado em "abrir as portas", querer investir ou mesmo acreditar, que alguém que agiu erroneamente pode agir de outra maneira. Em raros momentos em que se dispõe espaços a esses adolescentes, não incomum de acontecer é a chamada "exploração de mão de obra barata", aonde salários indignos são pagos; ou aonde as atividades oferecidas a esses sujeitos são desproporcionalmente mais árduas ou quase sem limites, em termos de horário ou função.



No âmbito escolar (infelizmente?) não se encontra algo diferente. A padronização forçada de comportamentos e até de expressões a que os alunos - adolescentes ou não - são submetidos é algo comumente observável. Tomando-se como exemplo, um momento de recreio no Colégio Santa Maria - há cerca de 80 anos atrás! - parece que o que era exigido por aquelas irmãs de que a aluna não poderia ficar no recreio conversando em grupo, volta a se repetir de alguma forma, nos dias de hoje. O ato de conversar, de discutir ou até de discordar, por parte do educando, em relação a algum conteúdo, ou mesmo, comentário apresentado, continua rispidamente a ser tolhido e castigado por mentores despreparados a enxergar, que em muitos desses momentos, está sendo dito e exposto o singular, o próprio daquele indivíduo. Algo que muitas vezes, quando considerado, lhe conforta, lhe alivia e fomenta sua auto-estima.



Tais contextos, como podem ser vistos, demonstram não estarem suficientemente preparados, para oferecer a compreensão e o ensinamento necessários, ao mais saudável e adaptado desenvolvimento.



Tomando-se então os contextos expostos acima (familiar, sócio-econômico e escolar) e correlacionando-os ao pensamento Humanista, poderá perceber-se a que nível e como deve se dar essa ambientação e preparação, quando se pretende originar nesses sujeitos - transgressores - caminhos diferentes ao lidar com seus sentimentos de angústias, raivas, medos, inseguranças, entre outros: "... quando estamos numa situação psicologicamente dolorosa e alguém nos ouve sem nos julgar, sem tentar assumir a responsabilidade por nós, sem tentar nos moldar, sentimo-nos incrivelmente bem! Nesses momentos, esta atitude relaxou minha tensão e me permitiu pôr para fora os sentimentos que me atemorizavam, as culpas, a angústia, as confusões que tinham feito parte de minha experiência. Quando sou ouvido, de forma sensível, empática e concentrada, torno-me capaz de rever meu mundo e continuar... " - (Rogers,1964). Como pode ser visto, é o fato de alguém se relacionar com outrem procurando considerá-lo e escutá-lo no que mais próximo está sendo dito da sua essência e concomitantemente auxiliá-lo a fazer com que ele também enxergue isso - ao seu tempo e forma - é que pode permitir a reflexão e possível renovação de seus atos.



Em outros termos e tomando-se emprestado uma interpretação bíblica: "...e foi feito o Verbo..." é graças a possibilidade de poder-se colocar em palavras, preferencialmente saudáveis o que se está sentindo e experenciando, ao invés de colocar em ato, quando esse for insalubre; ou psicanaliticamente falando, "trazer do real para a linguagem, para o simbólico", é que o ser humano atual pode, por exemplo, diferenciar-se do pré-histórico, onde enquanto aquele grunhia, ou utilizava-se de clavas contra seus oponentes, os de hoje pode dizer-lhes que está magoado, com raiva ou ressentido por algo que o outro lhe tenha feito.



Antes de finalizar, seria interessante e esclarecedor expor, sobre um grupo de pessoas que normalmente se insere nesse âmbito - à margem da lei. É esse grupo, que a primeira vista poderia-se ilusoriamente, enxergar neles a capacidade de escuta, consideração, respeito, atenção, enfim qualidades de relação anteriormente demonstrada. Tais pessoas que compõem esse grupo são os chamados: "tios". Os "tios" são como - qualquer outro na natureza - amados por uns e desgostados (invejados ?) por outros. Pelos adolescentes, mas não necessariamente, os de rua, infratores ou mesmo os acautelados, lhes são outorgado poder e sabedoria e estabelecida, mais do que com qualquer outro, uma relação de confiança e afeição.



Esses tios, pertencentes à alguma instituição ou não, recebem (e ás vezes se auto determinam) papéis diversos de forma nem sempre tão transparente: pai, mãe, amigo, conselheiro, defensor de direitos, enfim, alguém com quem esses adolescentes podem "contar" e se sentirem temporariamente aliviados de algo angustiante, penoso ou doído. Algo, diga-se de passagem, na maioria das vezes, indefinido para os próprios sujeitos.



Por outro lado, esse mesmo grupo é visto com olhar de crítica ou de descrença sobre o que e como fazem nas instituições. São comuns críticas do tipo: "...eles estão bastante equivocados com esses meninos...,ou, ...eles só sabem passar a mão na cabeça...,ou, ...na verdade, eles querem é disputar espaço com os outros profissionais...".



Na verdade o que pretende-se apontar não é em direção a nenhum dos dois lados, mas a um terceiro que diz respeito ao que esses "tios" fazem com o que escutam. Semelhante a maioria dos pais, chefes ou professores, esses sujeitos não apresentam preparo adequado que estimulem aos adolescentes, a autonomia, a conscientização dos atos infracionais cometidos e principalmente a possibilidade de uma expressão diferente, sobre aquele conteúdo interno que os levaram a transgredir.



Não é o fato assistencialista desses tios de dar balas ou cigarros aos internos que prejudicará a possível revisão de seus atos - mesmo porque, raramente foi-lhes oferecido algo "supérfluo(?)", mas sim o descuido em não se atentar e lhes devolver de forma compreensiva e incondicional seu sentimento, além de, em muitas vezes, ignorar suas graves infrações.



É indispensável que se diga, não só para se retirar a sensação de acusação ou de culpabilidade deixada no ar, mas também para mais uma vez expor sobre o que se entende de ótica/postura humanista, que qualquer ser humano só pode dar aquilo que recebeu. Ou seja, semelhante aos pais, chefes, professores, "tios", e qualquer outro que estabeleça relações, esses adolescentes com maior frequência, não conviveram em ambientes em que se pairava consideração, aceitação, atenção, estímulos a congruência, por consequência também não tendo isso para dar. E sim, como esclarece (Rogers,1964) exemplificando uma má ambientação: "...quando não sou estimado ou apreciado, não só me sinto muito diminuído, como meu comportamento é atingido por meus sentimentos...". Afinal, eles só vão poder agir de uma nova forma, no momento em que forem perseverantemente supridos e escutados com outro nível de atenção e aceitação.



Finalizando-se, é indispensável que se diga, que tais termos, ou melhor, condições são expostas e devem ser entendidas como atitudes da pessoa (ou do profissional), ao invés do que como técnicas ou tópicos teóricos. Portanto, fala-se também que não se pode de maneira alguma restringir suas possibilidades de eficácia a ambientes de consultórios e/ou a processos psicoterápicos tradicionais, mas sim que se tenha através delas um vislumbre de novas formas de se perceber a relação humana, seja em que nível e característica for.















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