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Contos-->NEGÓCIO FECHADO! -- 22/02/2010 - 21:54 (Antonio Alfredo Matthiesen) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
NEGÓCIO FECHADO!

O tilintar das fichas atiradas sobre o feltro verde da mesa redonda, em meio à fumaça azulada dos charutos, conferia ao ambiente a atmosfera de um autêntico cassino. Um lugar para poucos, na verdade. Somente quatro homens compunham o seleto grupo para o tradicional jogo de pôquer, religiosamente realizado às sextas-feiras na mansão dos Carter. A fama daquela mesa, pelas altas somas de dinheiro nela apostadas, era notória em toda a cidade, e sempre que alguém fazia um comentário a respeito desta extravagância na presença do divertido anfitrião, ele dizia, inflado de prazer, que se tratava de um mero joguinho caseiro. E, pensando neste invariável comentário, Ben Carter, com o charuto preso entre os dentes, esboçou um leve sorriso, enquanto olhava para sua quadra de noves, naquela que seria a última rodada da noite. Um jogo que há muito tempo não via. Com calma, contou as fichas da mesa, que somavam um pouco mais de cinquenta mil reais, e apostou este valor para dar continuidade à rodada.

Carter era um milionário excêntrico. A cada três meses, com o intuito de dar um cunho mais profissional ao seu vício, reunia um grupo de amigos e os levava, em seu avião particular para uma semana de jogos nos reluzentes cassinos de Las Vegas. Nascera em berço de ouro, é verdade, mas ninguém poderia negar sua competência no mundo dos negócios. Como filho único, herdara do pai uma indústria de sapatos muito bem estruturada, que pela qualidade de seus produtos, era líder entre as demais concorrentes do ramo, não só no atendimento ao mercado interno, como também na exportação a diversos países europeus. Este fora o pontapé inicial. Assumindo o controle da empresa paterna aos vinte anos de idade, o jovem rapaz tratou logo de comprar e montar novas fábricas, diversificando as atividades industriais da família, o que lhe permitiu, em pouco tempo, erigir um verdadeiro império. Tinha hoje, sob seu controle, um dos maiores grupos empresariais do país.

O próximo jogador, e o mais comedido de todos, era um velho usineiro de açúcar que não quis correr o risco de continuar no jogo com apenas um par de oitos na mão.

Com o olhar fixo em suas fichas, e depois de refletir por alguns instantes, Max, o caçula da mesa, optou pela permanência na rodada com sua trinca de ases, pagando a importância de cinquenta mil reais.

Eurico, o último na sequência, comunicou sua saída do páreo, atirando as cartas fechadas no centro da mesa.

Restaram assim, dois jogadores na disputa: Carter, a velha raposa, com fama de blefador, e Max, o jovem impetuoso e de rotineira má sorte nos jogos, descendente de uma tradicional família de banqueiros.

Olhando para ambos, Eurico, que conhecia a fundo a vida de seus parceiros e amigos, analisava as semelhanças e diferenças entre aqueles homens. Na verdade, tinham muita coisa em comum. Vieram de famílias ricas, eram jogadores inveterados e desde muito jovens, cada um ao seu tempo, havia assumido as rédeas das empresas paternas. A grande diferença, no entanto, era que Carter tinha uma aptidão invejável para negócios. A herança que recebera quando jovem, multiplicara-se a cada ano de sua vida. Já Max, nesse aspecto, era o oposto. Com a morte recente do pai num acidente aéreo, viu-se de uma hora para outra, à frente de um conglomerado de bancos, sem que tivesse preparo e interesse pela condução dos mesmos. E o seu prazer pelo jogo, que não se limitava só ao baralho, mas principalmente às corridas de cavalos, estava levando à bancarrota, um patrimônio familiar construído ao longo de quatro gerações.

Em sua análise, Eurico podia imaginar com clareza o desespero do jovem parceiro em buscar a sonhada cartada. Aquela que lhe daria a sensação de ter valido a pena esperar. De que a partir dali sua sorte seria outra, o que significaria o início da recuperação de toda a fortuna perdida. Podia-se dizer que era uma aflição mesclada de ansiedade. E, para um jogador de pôquer, o recato e o sangue frio eram características básicas. Não se podia, em hipótese alguma, deixar transparecer qualquer sensação de euforia ou desânimo. Qualquer gesto, por menor que fosse, poderia ser fatal aos olhos sagazes dos oponentes. No entanto, por mais que Max se esforçasse em dissimular os sentimentos, Eurico podia perceber a sua aflição.

O jogo estava pronto para a sua segunda e decisiva fase, que consistia na possível reposição de parte das cinco cartas que cada jogador tinha nas mãos. Max pediu duas novas cartas, segurando sua trinca de ases. Carter, com sua quadra de noves, optou por não trocar qualquer uma delas.

Com uma leve transpiração cobrindo a fronte, a despeito da temperatura agradável da sala e o coração prestes a explodir, Max abriu suavemente as duas novas cartas recebidas, e para a sua surpresa, constatou que era um par de reis. Havia feito uma full hand de ases com reis. Jogo excelente no pôquer. Avaliou o montante das fichas no centro da mesa e apostou sua totalidade: cento e cinquenta mil reais.

Carter, com toda serenidade, retirou do bolso interno do paletó um talonário e preencheu um cheque no valor de seiscentos mil reais que atirou sobre a mesa, dando a seguinte orientação:

– Eu pago os seus cento e cinquenta e quero mais quatrocentos e cinquenta mil para mostrar minhas cartas.

A partir desse instante, Max não mais conseguia controlar o tremor das mãos. Sua mente era um verdadeiro turbilhão. Tudo se agitava em seu corpo. Exceto os olhos. Estes fixavam os olhos de Carter com visível fúria. Era o olhar de uma fera prestes a atacar sua presa. Apesar do nervosismo, mantinha a ideia fixa de que o velho estava blefando, como de costume. Seria sua melhor cartada. Aquela que esperava há anos.

Pegou também seu talonário e preencheu um cheque de quatrocentos e cinquenta mil reais, e o depositou sobre o monte de fichas, dizendo:

– Está pago. Mostre suas cartas.

Lentamente, estampando ar de vitória com o charuto no canto da boca, Carter abriu o leque contendo a quadra de noves sobre o feltro verde.

A partir daquele momento, Max sentiu o mundo desabando sobre sua cabeça. Pela primeira vez na vida, não encarou aquela derrota como mais uma noite de azar. Conseguiu enxergar um pouco além. Tomou consciência de que estava dilapidando rapidamente tudo o que seus antepassados haviam construído durante décadas. Mas, ele também sabia que o seu vicio era implacável. No dia seguinte sairia em busca de recuperação em outra mesa de jogo. Enquanto refletia, permaneceu petrificado, com os olhos cravados sobre aqueles quatro noves, até que a mão de Eurico, num gesto de consolo, apertasse um de seus ombros.

Ao se despedirem, já do lado de fora da mansão, Eurico aproximou-se de Max dizendo que gostaria de ter uma conversa particular com o amigo, sugerindo um almoço para o dia seguinte no Clube de Tênis.

Ainda aturdido, Max aceitou o convite, porém declinou de preceder o almoço com uma partida de tênis, alegando falta de resistência física em virtude de seu fragilizado estado psicológico.

O resto da noite maldormida permitiu a Max chegar ao clube antes do horário marcado. O sol estava radiante naquele final de manhã de sábado. Do terraço onde estava sentado e que contornava o restaurante podia avistar inúmeras quadras ocupadas por conhecidos executivos que faziam do tênis seu esporte de fim de semana.

Ao meio-dia em ponto Eurico chegou e, contrariamente ao amigo, demonstrava muita disposição física e o sorriso contagiante de quem estava de bem com a vida. Suas primeiras palavras sugeriram um aperitivo para quebrar a visível tensão no rosto de Max.

Após algum tempo, já na segunda dose de uísque e um pouco mais descontraído, Max interrompeu a conversa dizendo:

– Pois bem. Chega de papo-furado e vamos direto ao assunto que nos trouxe aqui. Pelo amor de Deus, se for para me aconselhar a parar de jogar e mais todo aquele blá-blá-blá de que eu vou acabar com o patrimônio da família, não precisa nem começar. Já estou de saco cheio desse lero-lero.

– Acho que você ficou maluco! Como um jogador poderia aconselhar outro a parar de jogar? Principalmente se este outro é milionário, azarado e parceiro semanal numa mesa de pôquer. Seria acabar com a minha própria mina de ouro!

– Então vamos lá. O que você quer?

Eurico deu uma baforada no charuto que acabara de acender, fitou as quadras de tênis, e falou em voz baixa:

– Mudar a sua sorte...

– Como? Mudar a minha sorte? Acho que quem está maluco é você!

– Não estou não, meu amigo. Eu posso fazer isso.

– Ah é? Descobriu alguma fórmula? Talvez você possa estender tal descoberta para salvar o mundo também. Olha meu velho, acho que você está no caminho certo para compor aquele grupo de cientistas que está morando lá no manicômio!

– Então vamos direto ao assunto. – deu mais uma baforada, desviou o olhar das quadras e fixou-o nos olhos do amigo – Eu sou o diabo!

– O que??? Por favor, Eurico, eu não estou com clima para brincadeiras. Você me traz até aqui para falar bobagens?

– Pode acreditar no que estou dizendo. Eu tenho poderes.

– Tá bom. Então vamos brincar. Talvez isso ajude a mudar meu humor. Como nos filmes sobre o diabo, você vai me pedir agora algo em troca, não é mesmo? Posso até adivinhar... Deixe-me pensar. Ah! Já sei. Quer comprar minha alma, é isso?

– Exatamente, Max. Nada mais justo, concorda?

– E depois que você concretizar o negócio, vai me matar rapidinho, estou certo?

– É provável que o seu caso não siga um roteiro cinematográfico, mas posso deixá-lo escolher a sua morte.

– Tem razão, nossa amizade não permitiria que meu corpo acabasse em uma vala comum. Tenho que ter algum privilégio.

– Não brinque Max. Eu estou falando sério.

– Agora a questão crucial. Prove-me que você é realmente o diabo. Mostre seus poderes. Afinal tenho de estar convencido para formalizar o pacto.

Eurico apagou o charuto no cinzeiro, tomou um gole de uísque e virou-se para Max dizendo:

– Você, como de costume, deve ter um bilhete de loteria na carteira, certo?

– Sem dúvida. Compro estes bilhetes há mais de dez anos e o máximo que consegui foi acertar uma dezena.

– Pois bem, hoje você acertará o milhar do quinto prêmio. A extração da loteria será às 14h de hoje, isto é, daqui à uma hora. Vamos almoçar, enquanto esperamos o resultado.

– Espere um minuto. Por que o quinto prêmio ao invés do primeiro?

– Ora, isso é uma amostra grátis. Não quero queimar todos os meus cartuchos agora, pois sei que você pedirá muito depois.

Os dois se levantaram e entraram no restaurante. Max, ainda descrente, estava começando a se divertir com aquela brincadeira. De duas uma: ou seu amigo estava surtando ou se empenhando ao máximo, num jogo quase infantil, para ajudá-lo a esquecer um pouco suas preocupações.

As 14:15h, Max, dando continuidade àquele teatro, colocou o bilhete sobre a mesa, pegou o telefone celular e ligou para uma casa lotérica. Ao ser informado sobre os números sorteados, quase deixou o telefone cair. Seus olhos se arregalaram, parecendo querer saltar das órbitas e sua fisionomia se transformou num misto de pavor e admiração pelo amigo sentado defronte. Havia acertado a milhar do quinto prêmio. O dinheiro que havia ganhado dava para cobrir com folga todo o prejuízo que tivera nos últimos meses.

Eurico, vendo o parceiro desconcertado, propôs:

– Peça agora o que quiser em troca de sua alma.

Ainda em estado de pânico, Max não titubeou em responder, embora gaguejando:

– Que... Quero o jornal de segunda-feira.

– Muito previsível seu pedido, meu caro. Você quer o resultado do turfe de amanhã. O que eu poderia esperar de um jogador inveterado? – dito isso, pediu licença para ir até o seu carro no estacionamento e retornou, minutos depois, trazendo um jornal dobrado debaixo do braço.

– Mas, tem outro detalhe do qual não abro mão... – interveio Max.

– Pois diga, ainda é tempo.

– Quero escolher a minha morte. Quero ter certeza de que só morrerei da maneira como eu estabelecer em nosso pacto.

– E como será?

– Bastante simples. Somente um leão poderá me tirar a vida.

– Interessante, Max. Você é bastante esperto, desde que não seja dado a safáris na África, evidentemente. – e sorriu.

Max alimentou o gracejo, complementando:

– Não, nem a zoológicos nem a circos. Bem, como selaremos o negócio? Não vai exigir que eu assine um documento com meu sangue, vai?

– Nada disso. Acredito na palavra empenhada. Ao contrário do que muitos pensam, o diabo leva a sério seus compromissos. Assim, basta um aperto de mão.

Os dois se levantaram, apertaram as mãos, dizendo quase simultaneamente: “Negócio fechado!”.

Max pegou o jornal e saiu apressado para fazer as apostas nos páreos que seriam disputados no dia seguinte. Havia esperado muito por aquela revanche. Mostraria a todos os conselheiros de seus bancos que foi capaz de recuperar todo o dinheiro perdido em cassinos, corridas de cavalos e mesas de baralho. Recomeçaria do zero, sem dívida alguma. Era tudo o que sonhara.

No final da tarde do domingo, Max havia se transformado no maior vencedor da história do jóquei. Acertou quase todos os páreos e arrecadou uma fortuna imensa. Quando saiu do hipódromo, sua primeira providência foi ligar para Eurico e marcar um novo encontro com o amigo no Clube de Tênis a fim de comemorarem aquela grande parceria.

A noite caíra fria e chuvosa, mas em nada atrapalhou a euforia de Max que dirigia em alta velocidade a caminho do clube, enquanto gritava a plenos pulmões querendo anunciar ao mundo que era um vencedor. No entanto, já próximo ao destino, seu carro derrapou numa curva sobre o calçamento molhado da rua, indo de encontro ao meio-fio em frente do portão de um estádio de futebol. Com o choque Max foi atirado para fora do veículo e bateu a cabeça em uma estátua de pedra, tendo morte instantânea.

Minutos depois, enquanto transeuntes curiosos cercavam o corpo do acidentado, um veículo estacionou do outro lado da rua e uma sinistra figura, vestindo uma capa comprida e chapéu pretos, desceu despercebida e foi até o carro de Max de onde retirou do banco traseiro um jornal do dia seguinte.

Caminhando alguns passos adiante, parou sob a luz fraca de um poste de iluminação, abriu o jornal e na última página do segundo caderno leu uma pequena notícia que abordava o trágico acidente automobilístico que tirara a vida de um jovem banqueiro, logo após ter ganhado uma imensa fortuna no turfe naquele dia.

Voltou a dobrar o jornal, acendeu um charuto e sorriu ao fitar a estátua que vitimara o amigo e ler sobre o portão do estádio: “Leão de Ouro Futebol Clube”.


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