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Contos-->O Mundo em Sete Sonhos -- 24/03/2010 - 07:24 (Aléxis Rodrigues de Almeida) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Sábado, 23 horas. Não consigo dormir. Sinto medo. Não é insônia; é realmente medo de dormir. Ou melhor, medo de sonhar. Não tenho medo de sonhar qualquer sonho, mas de sonhar o sonho que hoje certamente virá. O leitor deve estar confuso e achando que sou paranóico, mas isso é porque ninguém, além de mim, conhece a insólita seqüência de sonhos que me ocorreu esta semana, a qual passo a narrar.

Tudo começou no domingo. O sonho foi tão real que ao acordar tive dificuldade em aceitar que aquilo que acabara de viver havia sido apenas um sonho.

Encontrava-me em uma comunidade muito primitiva. Não existiam leis senão as naturais. As armas e ferramentas eram rudimentares. Os homens saíam todos os dias para caçar com paus e pedras, enquanto as mulheres cuidavam das crianças e coletavam frutos das árvores nativas próximas à aldeia. Sim, agora sei que estava vivendo em uma aldeia pré-histórica, mas durante o sonho não entendia o significado disso. Sabia apenas ser aquela a minha vida, e devia lutar para mantê-la viva a cada dia. Estava em meu mundo e em meu tempo.

O grupo era muito unido. À noite nos reuníamos em volta da fogueira e contávamos histórias. Sem dúvidas, o domínio do fogo havia sido a maior descoberta dos últimos tempos. O lume nos convidava a conversar sobre as aventuras das caçadas, o assunto preferido das crianças. Cada novo dia trazia suas próprias preocupações, tristezas e também alegrias. Éramos realmente felizes.

Segunda-feira. Cenário diferente, mas sensação idêntica à da noite anterior. Tudo muito real, muito verdadeiro. Eu era um comerciante de prestígio na cidade e os negócios iam muito bem. Já conseguira acumular uma pequena fortuna capaz de garantir um futuro tranqüilo para meus filhos e os filhos dos meus filhos. Nosso povo, comandado por um rei forte e sábio, garantira ótimas rotas para o comércio marítimo e agora eu possuía minha própria frota mercante. Vivia boa parte do ano em alto mar buscando novas possibilidades de comércio. Sentia saudade da família e quando nos reencontrávamos havia muita festa, presentes e alegria.

Terça-feira. Mais um sonho inusitado. Agora eu fazia parte de um exército que marchava contra um poderoso inimigo. Deixara para trás mulher e filhos, sem saber se um dia voltaria a vê-los. A razão da guerra: reconquistar a terra santa das mãos dos infiéis. "Aqueles porcos imundos ousaram profanar o solo sagrado e agora merecem toda nossa fúria" - pensávamos nós incentivados pelo rei. É bem verdade que eu esperava algum despojo ao fim da guerra. Talvez pequena gleba onde pudesse me enraizar com a família.

Após a terceira noite tive certeza que não se tratava de mera coincidência aquela estranha seqüência de sonhos. Parei para pensar, tentando encontrar um significado para essa loucura. Pensei... Meditei... Refleti... Enfim, achei! Meus parcos conhecimentos de História Geral permitiram-me concluir que eu estava vivendo, em sonhos, a evolução da humanidade. Fiquei imaginando o que viria na noite seguinte...

Na quarta-feira sonhei que era um trabalhador jornaleiro em uma corporação produtora de seda. A demanda aumentava a cada dia e o mestre já não conseguia atender aos pedidos somente com a produção dos membros da corporação. Viu-se forçado, então, a contratar trabalhadores por jornada. O salário não era lá essas coisas, mas com a crise no campo não restava outra alternativa para os pobres como eu. E olhe que já éramos muitos a vagar pelas ruas das grandes cidades.

Na quinta-feira não foi muito diferente das outras noites, mas agora o mundo parecia meio louco. Crises no campo e nas cidades, corrupção e injustiça generalizada, impostos abusivos, ausência do Estado. Nós, a classe burguesa, não podíamos mais tolerar os desmandos do rei e do clero. Estava claro que uma resposta rápida era necessária. A burguesia estava cansada de sustentar sozinha a nobreza improdutiva e pesada. Os camponeses desprovidos de terras viviam à beira da escravidão. Não havia outra saída senão o confronto armado.

Sexta-feira. Foi o mais incomum dos sonhos. Tudo aconteceu numa velocidade estonteante.

Em um momento estava encurralado em um porão, ouvindo o barulho das pesadas botas dos soldados à procura de refugiados das raças inferiores, das quais era eu um legítimo representante. Os capturados seriam incinerados ou levados para campos de concentração. Diziam que a morte talvez fosse a melhor alternativa nesse caso.

No instante seguinte pude ver o aparecimento de coisas magníficas e outras nem tanto. Antigos muros de separação sendo destruídos, o mundo todo interconectado, pessoas de extremos opostos da terra conversando normalmente, o comércio entre nações a pleno vapor. Por outro lado, o antigo anseio dos povos por expandir fronteiras e acumular riquezas continuava mais vivo e forte que nunca. Barreiras geográficas quase não existiam mais. As fronteiras agora eram outras: Oriente - Ocidente, Mulçumanos - Cristãos, possuidores de petróleo ou não.

As ameaças do amanhã cresceram em escala. A necessidade de garantir o petróleo e a água de cada dia motivavam guerras e invasões. A busca desenfreada pela acumulação de reservas aos poucos matava o mundo. Morria gente, morria bicho, morria planta, morria a vida do planeta. O mundo aquecia. Todos, como que não vendo o que acontecia à volta, continuavam a fazer planos para o futuro. Para o próximo mês, para 2014, para daqui a trinta anos, indiferentes à possibilidade de inexistência de futuro para seus planos.

Acordei em desespero. Suado, ofegante, pensei: o que eu vou sonhar amanhã?

E aqui estou na sétima noite, prestes a ter o sétimo sonho. Não consigo dormir. Na verdade não quero dormir. Tenho medo do que hoje certamente vou sonhar.
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