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Contos-->Quando me livrei da morte -- 11/04/2010 - 22:13 (Antonio J. C. Antunes) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Quando me livrei da morte
Antonio J. C. Antunes


1. O começo do fim

Caminhava eu a toa pelo bairro da Encruzilhada a recordar distraído e com fortes sentimentos as minhas origens, a minha infância e a minha juventude naquela minha cidade do Recife. As coisas que me rodeavam, os tipos das pessoas, os barulhos dos carros e do comércio as árvores, os pássaros teimosos em sobreviver naquele ambiente, tudo o que via e sentia provocava aqueles pensamentos de comunhão e de lembranças do que ali vivi. Quando estava atravessando a rua numa faixa de pedestre, com aquela confiança de respeito no transito para quem mora em Brasília, eis que uma camionete nova, dessas grandes importadas, investiu em alta velocidade pegando-me de cheio. Fui lançado com toda a força, ralei no chão com violência e golpeei minha cabeça no meio fio.
Apaguei de imediato para pouco tempo depois despertar numa situação completamente estranha, trazendo-me uma certeza, a de que o meu fim aqui na terra havia começado a chegar.
Via-me a flutuar acima de meu corpo que estava deitado no chão, inconsciente e gravemente ferido. Era eu mesmo cá em cima, com toda minha individualidade, toda consciência, tudo da razão, todos meus sentimentos e toda minha memória.
Estava como si eu fosse um daqueles balões de borracha cheios de oxigênio que buscam subir, mas estão atados a um cordel comprido na mão de uma criança. Umas forças me puxavam para cima e outras me mantinham a flutuar atado ao meu corpo atropelado.
Mas a surpresa não acabava aí. Passei a sentir coisas extraordinárias, incríveis e assustadoras.
Apesar de estar meu corpo lá em baixo cercado por curiosos e policiais, sentia como se ele estivesse fisicamente também comigo cá em cima. Tal como acontece com as pessoas que perdem um braço ou uma perna e continuam a senti-los. Era um corpo meu virtual apresentando, ou parecendo apresentar, tudo de real: toda a vitalidade, todas as percepções dos sinais do mundo e obedecendo a todos os comandos da minha mente.
Mas a capacidade de perceber as coisas e as pessoas havia se ampliado de uma forma radical que nunca havia antes experimentado, nem nunca ouvira falar como imaginado e muito menos como vivido por alguém.
Dava-me conta que podia ouvir sons, com timbres, intensidade, harmonia e desarmonia, nunca antes sequer imaginados. . Ouvia ruídos perceptíveis tão ou mais agudos do que pelos cachorros e mais graves do que pelos elefantes.
E nas cores, eu as percebia numa amplitude muito maior do que a do arco-íris, e com umas nuances muito mais numerosas.
Sentia cheiros tão mais variados que imaginava escapar ao faro mais acurado de um cão
E mais ainda, para mim, os sentidos às vezes se misturavam dois a dois, três a três, quatro a quatro ou todos os cinco. Eram combinações muito mais do que a simples soma dos sentidos conhecidos, criando verdadeiramente novos tipos de percepção sensorial, adicionais aos cinco conhecidos. Era como muito mais do que aquela sensação de quem dirige e sente o carro como uma prolongação do corpo e combina o que se vê com o que se ouve e o que se sente na direção do veículo.
Esses novos sentidos geravam imagens impressionantes na minha cabeça. É impossível para mim agora entender e fazer entender o que eu vi naqueles momentos. É tão impossível como que um daltônico sinta as nossas sensações das cores e que um cego de nascença perceba as imagens visuais que percebemos.
Surpreendentemente, podia também captar sinais curiosos de todas as partes da natureza. Podiam vir da água, das nuvens, das pedras, dos vegetais, dos animais e até das pessoas. Chegavam com detalhes, novas cores, emissões luminosas débeis de energia, os menores ruídos das transformações materiais e biológicas, batidas de corações transeuntes, cheiros de todo tipo e vindos de toda parte. E também chegavam pedaços de pensamento, alguns com angustia, outros com enleio de felicidade. E tudo como se minha mente tivesse ampliado não só sua capacidade de captar, mas também as de selecionar e interpretar imagens da realidade com maior inteligência.
Meu pensamento funcionava como se fosse uma filmadora zoom. Podia focalizar todas as coisas nos menores detalhes e nas maiores aparências. Indo dos objetos bem próximos aos mais longínquos e vice-versa. Lentamente, rapidamente, ou instantaneamente. E ver seus movimentos em câmara lenta ou com ultra rapidez. Assim percebia os menores movimentos, as transformações mais lentas da natureza, como o crescimento das árvores.
Consequentemente, o tempo se fundia e me confundia, ao poder ver os movimentos de forma mais acelerada ou mais lenta e de perceber que tinha as potencialidades que adquirira junto com o uso ocasional de cada uma, como se tudo fossem num mesmo instante. Ou como se o tempo tivesse deixado de existir, ou como se eu estivesse vivendo numa outra dimensão ainda não conhecida do universo, onde o tempo teria outro comportamento distinto do conhecido. Lembrava um pouco, ainda que sem as imperfeições do caso, aqueles sonhos mais ou menos freqüentes, em que as imagens ocorrem quase instantaneamente, aparecendo ora associadas ora misturadas, às com nitidez e outras vezes confusas.
Para complicar mais ainda, os limites que definem o exterior das pessoas e das coisas eram penetráveis por meus sentidos, meu pensamento e meu corpo virtual. Podia perceber pelo tato e pela vista a superfície dos objetos, a pele das pessoas. Mas também meu corpo e meus sentidos podiam penetrar nos objetos e nas pessoas, como fantasmas, como se estivesse noutra dimensão desconhecida, coexistindo com as dimensões conhecidas da natureza.
Sentia a alma leve, como se estivesse numa meditação. Não me perturbavam sentimentos desagradáveis nem culpas. Como se minha mente rejeitasse automaticamente as associações e as sensações que outrora me fizeram sofrer.
Podia controlar minha atenção e focalizar a realidade a meu bel-prazer. Mas também minha mente podia agir sozinha, selecionando e interpretando os sentidos e as imagens sem me contrariar nem atordoar.


. 2. O vôo para o hospital

Percebi que tinha todas essas capacidades no meu eu virtual ainda enquanto o meu corpo físico jazia no asfalto. Demorou bastante até que fui colocado numa ambulância que seguiu celeremente para um hospital. Lá ia eu em coma numa maca, cheio de tubos, fios e aparelhos médicos, seguido pelo eu voador, como se fosse um balão atado ao meu corpo.
Os ruídos, as visões, as sensações de todo o ambiente por onde passávamos tinham para mim uma incrível riqueza de detalhes como jamais havia visto antes. Atravessava os objetos como nos filmes de fantasmas, como se todas as coisas fossem absolutamente permeáveis para mim. Percebia aquilo da física quântica sobre a enorme preponderância dos espaços vazios entre as menores partículas da realidade. Meu corpo devia estar composto de elementos naturais ainda desconhecidos que podiam passar nos vazios microscópicos das coisas. E, apesar dessas travessias através de uma infinidade de brechas, permanecia intacto todo eu, com toda minha individualidade.
Era prazeroso aquele vôo. Via muito mais bonita a paisagem urbana do Recife. Com percepções positivas incríveis e com a eliminação dos desgostos do passado.
Via e atravessava as grandes árvores com outros olhos. As folhas com mais tonalidades de verde e emitindo um brilho suave, apenas perceptível, oscilando tranquilamente como emanações de vaga-lumes. Via assim sua extraordinária atividade, utilizando a energia da luz do sol para transformar as substancias simples, que vinha da terra, em alimentos complexos dos quais dependemos todos nós. Via também os insetos, fungos, ácaros e outros seres microscópicos ativos em suas mútuas dependências, naquelas folhas, naqueles ramos e troncos.
Ouvia os Sabiás, os Sanhaços, os Bem-te-vis, os Canários, os Caga-sebites e muitos outros pássaros com uma enorme riqueza de som e melodia.

3. As cenas vividas

Algumas vezes durante o vôo aumentei a audição de tudo ao meu redor, numa grande mistura de sons e ruídos. Aí minha mente os selecionava colocando-os com precisão em músicas e canções que faziam parte de minha vida. As ouvia com nitidez e sentimento. E mais ainda, em perfeita harmonia com tais músicas vivenciava com muita nitidez cenas que as lembravam. Ouvia músicas clássicas que me emocionam assistindo tocá-las de paletó e gravata no Teatro Santa Isabel. Ou com detalhes de móveis, ambientes e presença de pessoas queridas, as escutava no gramofone de meus avôs ou na radiola de meus pais. E quando ouvia músicas populares, surgiam com nitidez à minha frente suas interpretações ao vivo. Ao som delas, assistia desfilar ao alcance de minha mão, grupos de frevo, maracatu, ciranda e caboclinhos. E também ao som delas revivia minhas participações nas festas de São João e São Pedro, nas serestas, serenatas e nos coretos das praças. E também em noitadas que passei com parentes e amigos nos bares de Olinda e Rio Doce, com seus inesquecíveis repastos de lagosta, goiamum e carne de sol, nas quais com enorme entusiasmo as músicas eram cantadas pelos freqüentadores com o acompanhamento de conhecidos instrumentistas. E até músicas sacras me vinham à mente junto com as cenas que vivi com meus pais nas celebrações em igrejas e capelas e no andamento em tradicionais procissões pelas ruas do Recife.
E sempre que queria, revivia com todos os detalhes os banhos de mar nas praias do norte e do sul. Reinventava os passeios curtindo os bairros com suas casas antigas. E assistia em câmara acelerada a construção dos altos edifícios no centro da cidade e nos bairros de Boa Viagem, Piedade, Casa Forte e Casa Amarela. Voltava às tardes de contemplação dos rios, pontes e braços de mangues. E também a ver ao longe o alto verde-azul do mar, com suas jangadas, barcos lagosteiros e navios em demanda do porto. E a visitar vividamente os morros com suas casas amontoadas, suas árvores cultivadas e sua gente inexplicavelmente alegre e muito criativa. E a apreciar da janela do automóvel o passar dos canaviais enormes, a rever os engenhos de aguardente e as matas sobreviventes.
E podia dosar a permeabilidade de minha pele, para sentir passar a brisa permanente dos aliseus no meu rosto virtual.


4. Os Eus e o Universo

Dentro da ambulância dois profissionais da saúde me acompanhavam. Não se davam conta que o eu daqui de cima captava tudo: seus gestos e suas palavras. Falavam de suas vidas e da gravidade de meu estado, com uma naturalidade assustadora, acostumados como eram a conviver com a morte. Falavam das misérias dos salários, das dificuldades de estudo e emprego dos filhos, das brigas com as respectivas esposas, das mulheres do trabalho e do bairro, das namoradas, dos casos hilários, do futebol e dos homossexuais conhecido por eles. Era um amontoado de lugares comuns da vida humana da classe média. Mas eram vividos, muito vividos por eles, alguns tragicamente, outros com risos, felicidade e gozação. Suas vidas passavam na minha mente como um filme. Via os rostos e os gestos das pessoas mencionadas pelos dois. Mas também entre triste e divertido observava que aquilo tudo era a repetição das mesmas situações de muitas outras pessoas. Era muita repetição contrastando com a consciência de individualidade e liberdade que tinham essas pessoas.
Aí veio um pensamento para mim definitivo: estava sentindo, raciocinando e vivendo um instante do jeito de quem já está abandonando a vida. Tinha uma ampliação de observação e de pensamento que, tal como me diziam nas aulas e nas leituras sobre as religiões, é própria de almas ao abandonar seus corpos. Na verdade sentia que a morte estava chegando, mas acreditava que aquele eu voador era composto por elementos da natureza, do universo, que a ciência ainda não conhecia. Como se fosse coisas de outra dimensão, ali, real, convivendo com tudo conhecido do mundo.
E o mais surpreendente foi que tinha a sensação de que eu era parte e ao mesmo tempo o todo do Universo. E também percebia com clareza, que meu eu não existia sem o eu das outras pessoas. Havia uma ligação que era vital para minha própria individualidade.
O fato de que eu podia atravessar todas as coisas e ocupar o mesmo espaço que elas, davam-me a intuição de que o conceito da distinção entre o todo e as partes era uma limitação da ciência humana, condicionada por uma visão muito incompleta da natureza.
Possivelmente, este sentimento de ser parte e o todo ao mesmo tempo, que é contraditório com lógica da ciência dos vivos, talvez proviesse da ampliação de minhas capacidades sensoriais e de pensamento. Ou talvez fosse prenúncio de uma participação misteriosamente ampliada em algo depois de terminada a vida na terra.

5. As descobertas do pensamento

A ambulância chegou ao hospital e me levaram para a UTI. O eu da maca, devidamente seguido pelo eu que sobrevoava. No corredor minha mulher, filhos e alguns irmãos a chorar. Tive preocupação por não poder dizer que ainda estava vivo, ainda que de um modo bem diferente. Mas curiosamente, não sei por que, eu estava calmo e até achava um exagero aquele clima de tragédia que via nos rostos e nos pensamentos dos meus. Sim, porque eu escutava alguns dos pensamentos deles na minha cabeça. Os de minha mulher principalmente.
“Ai, meu Deus, será que ele vai embora? Que será de mim sem meu bem!”
E ela pensava com antecipação de saudades em coisas de muita intimidade, que não vou repetir aqui.
Aí afloraram no meu consciente, além das lembranças minhas do meu passado, pedaços de pensamentos de meus pais e imagens da vida e de pensamentos de outros antecessores distantes, todas surpreendentes. Algumas de dar orgulho e outras vergonhosas. Parecia até que estavam aí no inconsciente sem que jamais tivesse antes percebido.
Os tempos das heranças de mentes ancestrais e das minhas lembranças se confundiam com os tempos dos fatos, da fala e do pensamento das pessoas presentes. E não conseguia vislumbrar como e porque tais coisas coexistiam no meu pensamento. E não sabia se era eu pensando, se era eu sonhando ou se ambas as coisas misturadas com pensamentos alheios do passado e do presente que vinham de fora.
Passei a suspeitar que na minha mente tivesse misturados uns zumbis que apareceram pelos abalos na minha cabeça. Partes do cérebro impactado estariam trocando informações e funções entre si, desnudando coisas insuspeitadas. Eram zumbis que, se existiam, viviam escondidos em harmonia com as outras partes do meu eu. Os condicionamentos da educação, dos fatos passados, da herança mental dos antepassados, da cultura, tudo isso colocavam naquele instante a dúvida de que existisse um verdadeiro eu. Como si tudo em mim fosse causado por condicionamentos e por mecanismos de manejo de informações pelo cérebro com muito grau de autonomia. Mas ficava claro que si havia tal causalidade ela de jeito nenhum seguia um determinismo. Parecia mais um processo com muita intervenção da sorte. Minha vontade e meus sentimentos pareciam muito condicionados naquele momento. Mas sem nenhum traço de infelicidade. Na minha consciência, formavam-se novos conceitos sobre a vontade, a individualidade e o livre arbítrio. Nesse novo enfoque eles verdadeiramente existiam, mas funcionavam de um modo muito mais sugestivo do que determinístico. Com uma intervenção complexa e inteligente dentro da própria mente. Tratava-se de algo bem diferente do conceito que todos temos deles.

6. O bem querer

Dentro de mim se estabeleceu um conflito. De um lado a tentação de seguir adiante nesse começo de vinda da morte, para gozar daquelas potencialidades subitamente adquiridas. Supunha que na continuação elas seriam mais prazerosas ainda. Mas também tinha muitas dúvidas e muitos medos. Lembrava-me dos possíveis julgamentos que poderiam suceder àqueles primeiros instantes poderosos e prazerosos. Eram memórias do que havia escutado nas aulas de religião.
De outro lado, sentia com muita força e sentimento a atração do bem querer e do gosto pela convivência com todos parentes e amigos que estavam no hospital. Bem querer meu e deles. Tinha uma forte atração por continuar vivendo junto com aquelas pessoas queridas, apesar de todos os pesares.
Foi então que a balança começou a pender para este lado. Comecei a sentir a vontade de bem querer mais ainda aquelas pessoas. Com certa autonomia, minha memória estava me levando a esta opção. Mas tinha uma enorme incerteza sobre se conseguiria atingi-la, posto que minha morte estava chegando poderosa, estava aí a poucos passos de se concretizar.
Intuitivamente e motivado pelos meus sentimentos por essas pessoas comecei intensificar a bem querência por essas pessoas, usando todos meus sentidos, toda a minha imaginação e todos os recursos de meu corpo virtual. Aí pus em prática um exercício de aumentar esses sentimentos mentalizando minha empatia com cada um deles. Lembrava e inventava com crescente alegria os sorrisos, fatos triviais, troca de presentes, apoio em toda hora e ocasião, os abraços apertados e todas essas coisas da amizade.
E para surpresa minha, na medida em que intensificava esse esforço, meu eu voador se aproximava do que jazia na mesa da UTI. Como se a pressão da morte iminente estivesse pouco a pouco cedendo alguns centímetros a essa atração sentimental profunda.
Mas a aproximação do eu flutuante ao eu na cama foi ficando mais lenta. A força de atração da morte era muito poderosa.
Tive medo de um fracasso, ainda que, de antemão, sabia ser um tanto louca minha opção pela vida, e que era imprevisível o resultado de meu esforço.
Então resolvi ir a tudo que fosse possível na bem querência com minha mulher. Aí estava o amor mais forte, e com ele poderia chegar aos maiores extremos de meu desejo de viver.
Fui mentalmente progredindo uma transa com minha mulher. Os afagos, as palavras, os abraços, os beijos, os toques, tudo avançando.
Pouquíssimo depois que comecei esse exercício amoroso, notei a mudança no comportamento de minha mulher. Enxugou as lágrimas com as costas das mãos, pôs-se plácida e pensativa e começou a esboçar um sorriso meio disfarçado, assim como “La Gioconda” de Leonardo da Vinci. Li seu pensamento. Estava correspondendo aos meus carinhos virtuais como se fosse uma idéia que lhe tinha surgido espontaneamente, como se fosse um pensamento dela mesma. Mas estava gostando muito com a mesma naturalidade de sempre. Só que meu filho mais velho, que a observava preocupado com sua saúde, começou a ficar intrigado com aquela mudança de comportamento. Começou a pensar que sua mãe estava a ponto de ter um desvario com o choque de ver-me naquele estado. Minha mulher percebeu os olhares de meu filho. E com muito empenho conseguiu fingir um rosto de sofrimento. Pediu licença a todos e foi ao banheiro. Lá abriu o sorriso silenciosamente e continuou a corresponder às forças de minhas investidas virtuais, sempre pensando que era sua pura imaginação. Aí nos aproximamos do orgasmo simultâneo. Eu na UTI e ela no banheiro do hospital. Eu a penetrava do modo tradicional e também de um novo modo, o de minha fusão virtual com o corpo dela, compartindo os mesmos espaços, os mesmos órgãos e membros de nossos corpos. Foi um modo novo de carinho total, que tinha uma força extraordinária. Eu sentia minhas reações e as delas. Ela sentia os dela e pensava sentir os meus.
Na medida em que crescíamos, no desejo e no gozo, mais o eu flutuante se aproximava, centímetro a centímetro, do corpo na cama. E quando chegamos juntos a um orgasmo conjunto e simultâneo, em que cada um sentia seu prazer e o do outro, e os dois sentiam um prazer em comum, muito mais do que uma soma dos dois gozos, o flutuante baixou violentamente, e como um tiro se integrou completamente no corpo que jazia na cama.
Aí apaguei de novo, e por muito mais tempo.

7. O depois

Acordei semanas depois, aturdido pelos traumatismos no corpo, mas com o pensamento começando a funcionar no modo humano normal, logicamente muitíssimo limitado se comparado com o experimentado naquele vôo.
Apenas abro os olhos, movo dedos e mãos, vejo minha mulher, filhos, alguns amigos, o médico e a enfermeira, todos sorrindo como se eu tivesse ressuscitado. Lágrimas de alegria corriam no rosto da minha mulher e dos filhos. Emocionado, e mais tranqüilo do que eles, esbocei um sorriso caricaturesco.
Hoje tenho certeza de que foi meu amor progressivamente intensificado naquela flutuação na UTI, simultaneamente engrossado pelo amor deles, que me devolveu à vida. E não me arrependo da escolha que fiz.
Mas nunca tive coragem de contar pessoalmente pra ninguém a flutuação que experimentei e as sensações que senti quando minha morte estava chegando.
Tive uma tentação enorme de pensar que tudo aquilo fora pura imaginação. Seria mais conveniente para minha tranqüilidade. Mas não. Aquela ampliação sensorial e aquelas outras novas sensações indescritíveis seriam e são inimagináveis.
Tentei me lembrar com exatidão de todas aquelas sensações que senti vividamente no mais intimo do meu eu. Mas as recordo tão só abstratamente, só do modo genérico descrito linhas atrás.
Veio-me a interrogação de como aquilo sucedera. Como podiam ser aquelas sensações ampliadas que percebi. Poderia ser algo como uma transmissão de fonte alheia que meu pensamento captava. Ou esta capacidade extraordinária de percepção da mente estava aí sem que eu nunca soubesse. E sem que nunca pudesse funcionar nem antes nem agora depois da ressurreição. Se estava tal capacidade aí, como é que não funcionava antes nem funciona agora? Podia ser um processo seletivo da minha mente impedindo tais percepções. Talvez para evitar um acúmulo insuportável de informações e sensações no meu consciente. Mas contrariando esta hipótese havia o fato de que um processo de seleção funcionou quando eu percebia aquelas sensações extraordinárias, impedindo acúmulos e intensidades que minha mente não suportasse. A sensação ou fato da flutuação não me preocupava tanto, e sim o porquê e o como daquelas sensações.

8. Lições da morte, lições da vida.

Em compensação à cicatriz das dúvidas que me trouxe aquela experiência, ganhei uma outra forma de ver a vida. Passei a saber que a natureza tem muito mais coisas funcionais e belas que não aprendemos e ninguém conhece. Tento imaginá-las com seus muitos mistérios. De certa forma consigo intuir com alguma aproximação algumas coisas desse conteúdo extraordinário do mundo.
Aprendi a ser humilde com a natureza, com o universo. Somos apenas um elo tão importante como todos os demais viventes e não viventes nas transformações permanentes do universo. Temos a ilusão de sermos poderosos, de podermos controlar muitas coisas. Mas são muito incompletos nossos conceitos, nossa forma de pensar e nossos conhecimentos sobre a vida, sobre a matéria, sobre a energia e sobre muito mais coisas que existem no Universo. E parece que nunca chegaremos a completá-los. Nem sequer podemos perceber toda gama de informações sensoriais que teríamos se conseguíssemos juntar todas as capacidades dos diversos animais nesse campo. Muitos deles vão mais além do que nós no poder de alguns dos seis sentidos, apesar de serem mais deficientes do que nós em outros sentidos. Como no caso da audição do cachorro e do elefante. Como no caso da visão da águia e do gavião. Outros animais têm capacidades sensoriais que nem sequer temos. Como a percepção dos raios infravermelhos das cascavéis. Como os sentidos que servem de orientação aos morcegos para não se chocarem com objetos na frente em seus rápidos vôos na escuridão. Como a sensibilidade dos campos magnéticos de vários animais que sabem voltar ao lugar de origem quando colocados nos ermos mais distantes. Como é o caso exemplar dos pombos-correio. Nem temos também a capacidade, que seria tão útil para nós, de prever fenômenos terráqueos como tsunamis e terremotos. Capacidade esta que comprovadamente têm alguns animais de forma incompreensível para nós.
E poderíamos citar muitos mais casos como estes.
Por isso contemplo com paixão, respeito e alegria as plantas, os animais, a água, as nuvens, os fenômenos meteorológicos, a terra e tudo mais que nos rodeia. Intuo que encerram uma inteligência e uma sabedoria nas suas relações mútuas a cada instante do ciclo vital do Universo. E mais importante ainda, são inteligência e sabedoria que estão contidas na programação e execução da evolução das espécies, nas transformações físicas e energéticas da terra e do universo ao longo dos séculos e milênios.
E as pessoas? Ah! Aprendi a vê-las tão frágeis e ignorantes como eu. Mesmo os cientistas que agora mudam de perplexidade para perplexidade nas ciências que mais avançam. E ademais da questão da limitação de nossos conhecimentos humanos, tão condicionado pela nossa limitada capacidade sensorial, hoje vejo como é pobre a concretização das relações humanas. Tanto ao nível mais pessoal quanto no nível do social e político. Hoje vejo as máscaras de importância construídas pelos inconscientes coletivos, pelas estratificações sociais, pelo poder econômico, pelas instituições de hierarquia governamental e profissional, com muito menos valor do que via no passado. Todos esses poderes, essas poses, são tão pequenos frente à complexidade do que está aí na nossa frente e não percebemos. São modos de convivência humana em todos os níveis que revelam uma realidade de comportamento muito pobre, que poderia ser considerada quase parada face aos avanços científicos e tecnológicos, apesar de quão pobres e incompletos são tais avanços.
O que passei mais a curtir, foi um bom papo, um viver à-toa, um viver em vão, em tentar descobrir com bem querência o verdadeiro eu de cada pessoa. Agarrei a vontade de conhecer. Conhecer passou a ser meu maior prazer. Por isso agarrei a observar com muita curiosidade a natureza, os amigos, os transeuntes, e, sobretudo meus familiares. E tudo o mais que caia nos meus olhos, no foco de minha atenção. E passei a ler livros de divulgação escritos por cientistas de várias especialidades que estão na fronteira do conhecimento.
Mas também estou pagando um preço. Como toda pessoa, sinto-me ansioso por conversar com alguém para talvez compreender o que me passou. Mas isto para mim está proibido. Seria eu impreterivelmente considerado um louco e muito provavelmente uma pessoa perigosa.
Tenho uma frágil esperança de que algum dia cientistas avancem no conhecimento da realidade, explicando como livrei-me da morte com a força da bem querência com os meus..





















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