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Contos-->Outono -- 22/04/2010 - 07:24 (Aléxis Rodrigues de Almeida) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Recostado em sua espreguiçadeira, posta convenientemente sob a sombra da algarobeira à beira da calçada, Seu João observava o movimento morno do fim da tarde na ruazinha onde morava desde criança.

Ao seu lado, mal acomodado - quase equilibrado - sobre um pequeno tamborete de madeira, o velho Zé Pedro, que tinha a mesma idade do companheiro, juntava-se ao amigo nessa contemplação diária da vida. Na verdade, não ficavam somente a contemplar, mas desenvolviam uma prosa entrecortada por longas pausas em que se ouviam apenas os movimentos da rua e as ruidosas recordações que eles traziam. Cada transeunte era o estopim para uma nova história. Quem apenas passava por ali não podia compreender aquele estranho diálogo, em que mais se ouvia do que se falava.

Todos os dias a cena se repetia: espreguiçadeira, calçada, algaroba, reflexão, recordação.

João Pereira dos Santos era conhecido por todos na região simplesmente como Seu João. Somente aos amigos mais chegados era dado o privilégio de chamá-lo diretamente pelo primeiro nome. Zé Pedro era um desses. Ou, para ser mais exato, o único que ainda restava.

Amigos de infância, vez por outra se entregavam à tarefa de relembrar o dia em que se conheceram e de outros tantos momentos que viveram juntos ao longo de suas vidas. Bons e maus momentos eram relembrados e só lhes escapava os detalhes que o tempo caprichosamente resolvera apagar-lhes da memória. Nesses momentos, lembravam-se de muitas histórias, importantes ou banais: festas, nascimentos, família, colheitas, pragas, conquistas, perdas... lembravam-se com pesar de todos os amigos que já haviam renascido para a eternidade.

Os últimos dias vinham se arrastando preguiçosamente sob o típico calor da região naquela época do ano. No rádio pousado sobre o colo, Seu João ouvia entre indiferente e incrédulo o locutor de uma distante emissora falar sobre as diversas estações do ano. Chamou-lhe especial atenção o comentário sobre o outono e sobre tudo quanto a estação representava; como as folhas cairiam e como a temperatura diminuiria gradativamente, abrindo caminho para o inverno. Seu João não entendia nada do que ouvia. Aliás, ele até entendia, mas não compreendia que relação podia haver entre sua realidade e o outono romanticamente propalado pelo locutor. O que tinha a ver o outono com ele, com sua cidade ou, principalmente, com seu pé de algaroba? Sabia que a algarobeira, plantada por ele e pelo amigo Zé Pedro quando ainda jovens, continuaria verde como sempre fora. E o calor, que agora os abatia, seria refrescado somente pelos chuviscos trazidos por alguma nuvenzinha afoita que se atrevesse a enfrentar aquele deserto para amenizar um pouco a vida do povo sertanejo.

No rádio, Seu João ainda podia ouvir os comentários finais do locutor. Olhou para a algarobeira e tentou imaginar como ela ficaria com as folhas amareladas. Sua mente se recusava a criar tal imagem. Para ele, a algarobeira continuaria verdinha o ano todo, como sempre foi desde pequena. Seu João ainda tentava buscar um significado do outono para sua vida. Se tinha um significado, esse não tinha nada a ver com aquela arvorezinha.

*** PRIMAVERA ***

Os dias se passavam como as tardes de prosa do Seu João, monótona e lentamente.

Em uma das muitas tardes de conversa, ele e o amigo Zé Pedro se pegaram a falar da saída dos filhos de casa. Sete filhos de um, oito do outro. Todos amadureceram e saíram pelo mundo espalhando suas sementes. Alguns não sobreviveram à vida e murcharam precocemente. A dor da separação em ambos os casos também foi lembrada. No primeiro caso, normalmente a dor era compensada em dobro, triplo ou mais. Era quando os filhos voltavam com a prole em visita ao pai, avô e bisavô. Eram dias cansativos, com muitas mudanças de rotinas e hábitos, mas nem de longe desagradavam o velho. Pelo contrário, traziam um pouco de primavera à sua vida. Mesmo em meio à agitação daqueles dias, Seu João trazia à mente as cores de sua própria infância e mocidade. Nessas ocasiões, a alegria primaveril das brincadeiras infantis trazia-lhe aos lábios sorrisos furtivos ignorados por ele, mas que não passavam despercebidos pelo amigo.

- Ô João, tá rindo de quê? - perguntava Zé Pedro.

- Tô rindo da vida, cumpade! - respondia com simpatia Seu João.

Mas assim como as visitas chegavam, também iam embora. E a vida se repetia e continuava.


*** VERÃO ***

Seu João, vez por outra atormentado por alguns incômodos males da idade, já não podia se entregar ao prazer de trabalhar a terra para dela tirar o próprio sustento. Agora ele vivia da aposentadoria e de ajudas ocasionais que recebia dos filhos. Frequentemente lembrava com saudades os bons dias de saúde e vigor, quando podia labutar de sol a sol até a completa exaustão, sem se queixar de nada. Ao fim de cada dia trazia para casa os sabores da tarefa realizada. Às vezes, vinha com a esperança renovada de que teria uma boa safra; outras vezes, lamentavelmente não raras, carregava nos ombros o desgosto de ver tudo perdido, fosse pela seca persistente que frequentemente assolava a região, ou por uma praga qualquer. Mas o vigor da juventude tudo podia.

O antigo sítio crescera e se transformara em uma pequeno vilarejo. A casa, antes incrustada no coração do sítio, rodeada de plantações as mais diversas possíveis para a região, agora se encontrava próxima ao centro da vila. Era uma casa humilde, mas espaçosa; bem iluminada, ventilada e cheia de muitas recordações. Eram recordações boas e más, que representavam a maior parte da sua vida. Agora, aos oitenta e dois anos, Seu João não a trocaria por nenhum outro lugar no mundo, por melhor que fosse. Afinal, ele mesmo a construiu com suas próprias mãos. Fez questão de levantar a casa em frente à algarobeira plantada por ele e pelo amigo Zé Pedro quando ainda crianças. Cada uma das histórias ali ocorridas foi cimentada com muito suor e lágrima. Cada pedaço daquele lugar guardava um pedaço da sua vida.

Foi ali que recebera sua esposa - de saudosa memória - e com quem construíra uma grande família. O progresso se encarregou de os espalhar pelo mundo. A terra já não os podia sustentar e muito menos prendê-los ali. Apesar de não ter estudo, Seu João era sábio o suficiente para não tentar mudar o curso natural das coisas. Aprendera essa e muitas outras lições de vida com a própria natureza que o rodeava.

- Zé!

Silêncio...

- Zé! - Chamou novamente Seu João, dessa vez com mais força e rispidez.

- Diga, João.

- Você lembra de quando a gente plantou esse pé de algaroba, Zé?

- Mas é claro, João. Como eu ia esquecer uma coisa dessas? - Foi aquele homem que passou por aqui e deixou algumas mudas. Como era mesmo o nome dele, o tal do Dr. agrônomo?

- Ah, Zé! Disso eu não lembro não. Só sei que foi muito divertido. Foi uma festa por aqui. Muitos acreditaram logo no poder da plantinha, outros não. Ainda bem que a gente acreditou, não é mesmo, Zé?

- Pois é, João. Quem diria que ela duraria tanto tempo, mesmo com essa seca braba.


*** OUTONO ***

Todos os dias era a mesma coisa. Sentava na espreguiçadeira, ouvia o rádio, pensava, refletia sobre a vida e cumprimentava aqueles que passavam pela rua, enquanto tecia uma frágil prosa com o amigo Zé Pedro, sob a sombra da velha algarobeira.

- Zé, o que você acha do outono? - perguntou outro dia o amigo.

- Outono!!! Eu não acho nada, João.

- Pois acho que agora entendi o que o homem do rádio tava falando um dia desses, cumpade.

- Que rádio? que homem? do que você tá falando, João?

- Ah, Zé. Deixa prá lá. Você não ia entender mesmo.

Novo silêncio, novas lembranças, mais reflexões.

Quando voltaram a falar, lembraram-se da finada Maria, mulher de Seu João, a quem este amara profundamente do seu jeito de homem da roça. Mesmo ali naquele fim de mundo, longe de toda a modernidade, onde havia espaço de sobra para os brutos, houve romantismo e muito companheirismo entre os dois. A morte da mulher da mocidade deixara muitas marcas no velho lavrador. Alguns dos males que hoje sentia vieram depois da partida da esposa. Havia já dois anos que ela se fora, mas a água que faltava no sertão inundava os olhos do sertanejo sempre que falavam sobre o ocorrido. Mulher de poucas palavras, mas de uma sabedoria de vida incomum, criara os sete filhos e os educara extraordinariamente para a vida como poucos conseguem, apesar de toda a psicologia contemporânea e tecnologia educacional hoje disponível.

Um dia daqueles, o inverno se aproximou ainda mais de Seu João. Sentiu que seu outono estava chegando ao fim. O pequeno tamborete ao lado encontrava-se desocupado. O amigo Zé Pedro não viera. Eu seu lugar, logo nas primeiras horas do dia, veio uma notícia árida; tão seca quanto a tarde daquele dia. O amigo não acordara de manhã. Morrera calmamente durante o sono. Era mais uma folha que caía.

As tardes que se seguiram foram de extrema calmaria e introspecção. Pensamentos regados por muita tristeza e saudade do amigo. Algumas brisas sopravam, às vezes acompanhadas dos sorrisos quentes e alegres dos netos e bisnetos que o visitavam. O resto do tempo passava sozinho, sentado na espreguiçadeira, embaixo do velho pé de algaroba, que não conhecia estações e continuaria verde ainda por um bom tempo, mesmo depois que o amigo cumprisse todos os dias do seu longo outono e o inverno finalmente viesse ao seu encontro.

FIM
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