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Contos-->Pedras no Caminho -- 06/05/2010 - 07:05 (Aléxis Rodrigues de Almeida) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
"O homem andava à noite pela estrada quando foi abordado por um velho:

- Por favor, jovem rapaz, leve esta carga até a cidade mais próxima. São apenas pedras, mas tenha muito cuidado com elas. Chegando lá você será recompensado com muita riqueza.

O homem andou a noite toda e, já cansado, pensou que poderia largar algumas pedras pelo caminho... A cada trecho da viagem, mais e mais cansado, atirava mais pedras. Imaginou que assim conseguiria alcançar seu objetivo..."


PRÓLOGO

Pedro segurava em seus braços a cabeça ensanguentada de Nélio. Fitava profundamente seus olhos quase sem vida. Ouvia atentamente os sons de morte que escapuliam meio sem jeito da boca do amigo.

- Não se preocupe, Nélio, vou cuidar de você. Nada vai lhe acontecer - falou sem muita convicção.

- Ora, deixe disso Pedro... não pode dar jeito em tudo... cada um tem sua hora e... a minha acaba de chegar.

- Não diga bobagens, amigo. Ainda é muito jovem e forte. Logo os médicos chegarão e tudo vai ficar bem.

Um leve sorriso surgiu em meio ao sangue que corria da boca de Nélio.

- Ah, Pedro! Você sempre foi um cara legal... eu zombei tanto de você... sempre querendo tudo controlado, planejado... mas quer saber a verdade? sempre lhe tive inveja.

- Inveja de mim? Você aproveitou sua juventude como ninguém. Nenhum compromisso lhe prendia...

- É... como gosto de dizer: a vida pode ser curta... mas tem que ser vivida intensamente... só que não precisava ser tão curta assim. Amigo, eu fiz muita besteira para honrar essa minha filosofia de vida. Diga, Pedro, Você tem filhos?

- Sim. Um menino e uma menina.

- Seus filhos têm muita sorte de ter um pai assim. Você lutou muito para lhes dar um futuro... e merece receber o prêmio por sua dedicação.

- Nélio, chega de falar, precisa poupar energia.

- Não, amigo... viver intensamente até o fim, lembra? - disse no tom mais irônico que conseguiu imprimir às palavras já quase inaudíveis.

No corpo do amigo, era possível perceber a violência do ataque que sofrera. Várias perfurações de bala por todo o tórax. Ao fundo ouviu os primeiros sons de sirene. A multidão se aglomerava em torno deles. A curiosidade amorfa lançava olhos esbugalhados em direção ao corpo estendido no chão enquanto vozes de lamento e de exclamação escorriam e misturavam-se à agitação da rua.

A esperança do resgate vinha sendo carregada pelo vermelho-amarelo vivo e oscilante e pelos berros estridentes da sirene que anunciavam a chegada da ambulância, agora bem mais próxima.

No chão, Nélio dava seu último suspiro.

Pedro deitou cuidadosamente a cabeça do amigo no chão, levantou-se e deu espaço para os paramédicos, que desceram apressadamente com todo o aparato de primeiros socorros. Porém não havia mais nada a fazer.

***

ESCOLA SANTA INÊS - QUINZE ANOS ANTES

- Vamos, Pedro, venha com a gente. Vai ficar aí sozinho, estudando o tempo todo?

- Nélio, obrigado por me chamar, mas realmente não posso ir. Tenho que repassar algumas matérias de hoje.

- Tá bem, super Pedro, continue assim e vai salvar o planeta.

Pedro ficou parado na porta da escola enquanto a turma entrava no carro à sua frente, que arrancou em seguida deixando no asfalto as marcas de uma juventude inquieta.

A cena se repetia com frequência. Os amigos de Pedro sempre tinham algo para fazer depois das aulas. Em alguns momentos Pedro sentia-se muito mal por não acompanhar a turma, mas logo lembrava do sacrifício que seus pais faziam para mantê-lo na escola e de toda a esperança que depositavam nele. "Certamente haverá tempo para me divertir" - pensava.

As festas da turma eram regadas a fumo, bebida e até algumas drogas leves. Pedro foi uma única vez a uma dessas festas. Depois desse dia, afastou-se da turma. Tentou conversar com Nélio sobre o assunto, mas foi taxado de moralista e ultrapassado. Por um momento Nélio quase o convenceu de que realmente ele estava sendo muito rigoroso consigo mesmo. Afinal, a vida é curta e pode ser que não haja tempo para aproveitá-la depois.

Mas Pedro manteve-se firme. Sempre usava a desculpa dos estudos para recusar os convites. Não queria expor os pais, por isso nem pensava em falar da responsabilidade que carregava nos ombros. Seus pais eram pessoas simples, vinham do interior. Não tinham estudo e o pouco que conseguiram acumular na vida era dedicado "para o desenvolvimento no pequeno Pedro", como gostavam de falar. Com muito esforço e dedicação, Pedro conseguiu bolsa de estudos em uma das escolas mais caras da cidade. Diziam ser a melhor da região.

O tempo passou e o primeiro alerta veio quando um dos amigos da turma foi preso por tráfico de drogas dentro da escola. Os pais, com um bom poder aquisitivo, contrataram um dos melhores advogados da cidade. O rapaz foi solto quando ficou provado que ele era apenas usuário e não traficante de drogas. Outros episódios semelhantes ocorreram nos meses seguintes envolvendo outros componentes do grupo.

Ao final do ano, o último do ensino médio, todos saíram da escola. Pedro, seguindo seu plano de carreira, iniciou sua formação superior em conceituada universidade, enquanto os demais concluíram os estudos com uma pequena ajuda da escola, que já não os queria andando por lá manchando a imagem da instituição.

Nos cinco anos seguintes, Pedro encontrou o amigo Nélio poucas vezes. Esporadicamente, um encontro fortuito os levava a trocar um aperto de mão e algumas palavras. O suficiente para se manterem superficialmente atualizados sobre a vida do outro. Em um desses encontros Pedro percebeu que o amigo estava um pouco abatido. Apesar da aparência impecável que procurava manter, com boas roupas, cabelo bem penteado, sapatos caros, carro luxuoso, estava claro em seus olhos que aquilo tudo era muito fugaz.

- Tudo bem, com você, Nélio? O que anda fazendo?

- Ah! tudo bem. Ando viajando muito. Tenho encarado umas boas por aí. E você, já salvou o planeta? - disse em tom jocoso.

- Ainda não, mas estou bem perto - respondeu Pedro no mesmo tom. Estou me preparando para casar. Alguém precisa perpetuar a espécie.

Os dois deram uma boa gargalhada.

- Pedro, preciso ir. Tenho compromissos urgentes. Foi bom falar com você. A gente se vê.

- Até mais, Nélio. E cuide-se.

***

Certo dia Pedro foi surpreendido por uma foto de Nélio estampada na primeira página de um jornal da cidade. A notícia citava o envolvimento do rapaz de classe média em um assalto a banco. Filho de um grande empresário da região, Nélio, segundo a reportagem, comandava um grupo de traficantes de droga e uma quadrilha de assaltantes de banco. O jornal ainda dizia que o rapaz conseguira fugir de um cerco montado pela polícia e naquele momento encontrava-se foragido.

Pedro abateu-se com a notícia. Embora não tenha dado crédito absoluto ao que lera no jornal, suspeitava que ali havia muitas verdades. O envolvimento com drogas desde a escola não poderia ter outro desfecho. Em sua mente projetou-se um rápido filme dos últimos anos. Lembranças das brincadeiras inocentes da adolescência que viveram juntos. O período atribulado do ensino médio, a turma, as festas, as drogas...

Desejou intensamente falar com o amigo, mas como poderia? Na situação de foragido, qualquer ajuda poderia ser encarada como conivência.

Alguns dias se passaram e aconteceu o que Pedro temia. Estava agora já formado e casado e iniciara seu primeiro trabalho havia alguns meses. Quando voltava para casa, foi abordado por um estranho. Pedro demorou a perceber o amigo Nélio por traz de um rosto transtornado. Cabelo grande e desgrenhado, barba por fazer e olhos escondidos atrás de óculos escuros.

- Pedro, preciso de sua ajuda.

- Nélio! O que está fazendo?! A polícia está à sua procura.

- Eu sei, Pedro. Por isso vim conversar com você. Precisa me ajudar.

- O que posso fazer? Já falou com seus pais? Eles podem conseguir bons advogados.

- Não me fale dos meus pais. Eles não querem saber de mim. Só me resta você, Pedro.

- Então como posso ajudar?

- Preciso que faça contato com alguns amigos meus e entregue algumas encomendas.

- Nélio, sabe que não posso fazer isso. Não tem o direito de me pedir uma coisa dessas. Você é procurado pela polícia e eu não posso arriscar o meu futuro e o da minha família. Você, mais do que ninguém, sabe como sou. Acho que deveria procurar um bom advogado e se entregar.

- Isso está fora dos meus planos, Pedro. Se não quer me ajudar, tudo bem, eu entendo, Sr. Certinho.

As últimas palavras pronunciadas pelo Nélio saíram de sua boca cheias de um veneno feito de amargura, raiva e desprezo.

Pedro viu o amigo afastar-se apressadamente. Mais uma vez lhe sobrevieram pensamentos antagônicos. "O que eu fiz? Ele confiava em mim. Mas não é justo da parte dele pedir um coisa dessas."

Naquela noite e nas seguintes teve pesadelos. Sonhava com o amigo atrás das grades gritando por seu nome enquanto ele estava de costas com o olhar perdido no horizonte.

Com o passar do tempo os pesadelos desapareceram e a vida foi aos poucos retomando seu andamento. No trabalho Pedro ia muito bem. Esforçado como sempre fora, logo alcançou um alto posto de confiança na empresa. Nasceram-lhe dois filhos a quem amava muito assim como à sua esposa. Formavam, como se diz, uma família perfeita.

Havia pelo menos cinco anos que Pedro não encontrava seu amigo Nélio. Quando lembrava seu último encontro, uma nuvem de tristeza pairava sobre os olhos de Pedro. Nesse tempo ele visitara a casa dos pais de Nélio algumas vezes. Sentia a amargura no coração dos dois, mas principalmente da mãe. Podia compreender a carga que traziam nos ombros.

***

Certo dia, ao andar pelo centro da cidade, Pedro foi atraído por um grande tumulto. Pessoas corriam de um lado para outro em meio ao estampido de balas. Ele também procurou refúgio na entrada de uma das lojas. Um homem se encontrava no meio da rua, arma em punho. Pedro sentiu um arrepio na espinha quando o homem olhou em sua direção. Pedro o reconheceu imediatamente. O homem mostrou a intenção de correr em sua direção, mas foi atingido por vários disparos. Caiu de joelhos, estendeu as mãos e o olhar para ele, como quem pedia socorro, e depois desabou no asfalto.

Os tiros cessaram. Aos poucos as pessoas saíam de suas tocas. Uns correram para longe; outros, movidos pela curiosidade, se aproximaram do corpo estendido no chão. Pedro foi um dos primeiros a se aproximar. Agachou-se, sentiu-lhe o pulso. Ainda corria vida naquele corpo.

- Ele está vivo! - gritou para a multidão - chamem uma ambulância.

E voltando-se para o homem:

- Nélio, estou aqui. Não se preocupe...

***

A cerimônia fúnebre aconteceu no dia seguinte. Estavam presentes somente Pedro, os pais de Nélio e alguns estranhos. Esperavam que os amigos aparecessem, mas não havia mais amigos. Só clientes e comparsas do tráfico.

- Sinto muito - disse Pedro para os pais de Nélio.

- Nós também sentimos muito por não termos conseguido levá-lo a um bom caminho - respondeu a mãe, entre soluços. - Você foi o único amigo de verdade que lhe restou, Pedro. Nós lhe seremos eternamente gratos. O que estiver ao nosso alcance, não mediremos esforços para fazer em seu favor.

Ao chegar em casa naquela noite, Pedro contou aos filhos a história mais estranha de suas vidas. A história de alguém que, recebendo a incumbência de levar um saco de pedras a um certo destino em troca de riqueza e felicidade, andou a noite toda e, para aliviar o peso e facilitar a jornada, foi largando as pedras pelo caminho, sem saber que a carga na verdade era feita de pedras preciosas, das pedras que lhe trariam a riqueza prometida.


FIM
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