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Contos-->Conto de Inverno -- 22/04/2009 - 11:20 (Anita de Souza Coutinho) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Conto de Inverno

Haviam acordado juntos e agora, conversavam abraçados, ainda deitados, sem o menor esforço para modificar aquela atmosfera. Há muito amanhecera. Dormiram pouco. Estavam preguiçosos, mas não estavam cansados. Uma tranqüilidade os abraçava naquele abraço: não tinham pressa, não estavam ansiosos. Conversavam longamente: olhos presos aos outros olhos numa hipnose compassada; o vasto diálogo dos silêncios do encantamento.
Abraçados, falavam baixo, esboços de palavras nas bocas quase unidas. Ele falava mais. Ela, deslumbrada, dava um símbolo onírico a cada palavra dele. Sua voz a levava, seduzia, inebriava e ela, na lânguida segurança do momento quase adormecera protegida por sua voz e seu abraço. Os rostos próximos. Calor próximo. Ele a despertou:
- Você dormiu? Não estava me ouvindo? - perguntou passivo e completou com o suave gesto de aproximar o rosto do dela e com ele, num toque leve, acariciar-lhe a face.
Ela abriu os olhos e sorriu com serenidade:

- Não dormi. Estava onde sua voz me levou... aqui tudo está bom, confortável, aquecido. Eu aqui, segura, quieta, tranqüila. Está tudo perfeito. Não me falta nada agora. – falou enquanto ele a observava com contemplação e retaliou ao que ela dizia:
- É, agora não falta. – disse ele relembrando que em breve não estariam mais juntos.

Ela balançou a cabeça em negativa e pousou o dedo indicador sobre os lábios dele enquanto soprava um som baixo num pedido de silêncio. Não queria falar nisso. Não queria lembrar a despedida iminente. Tinha um terrível medo de chorar na frente dele, queria que guardasse dela uma imagem sã e não um olhar derretido por lágrimas.
Ele, que a olhava fixamente, fechou os olhos ao toque dos dedos em seus lábios. Sabia o que ela temia e padecia da mesma dor afiada que ela. Não falou e, de olhos fechados, se deixou sentir admirado enquanto percebia o toque da mesma mão que lhe pedira silêncio deslizar sobre seu rosto, como se descrevendo o foco do olhar dela sobre ele. Ainda de olhos fechados, beijou-lhe a palma da mão.
Se olhavam com complacência. Sabiam mutuamente que suas buscas haviam terminado. Sabiam agora, depois destes dois dias que passaram juntos, entregues visceralmente um ao outro, que não havia mais o que buscar, não havia mais lacunas a serem preenchidas. Estavam completos. Se sentiam moldados com a mesma pele, mesmo sensório; com sentimento e sensação mútua, mesmo assim não falavam disso. Lhes parecia injusto demais reconhecer tamanha adequação: um ideal ao outro, simultaneamente peça e alinhavo. Injusto reconhecerem que estavam completos ali, para que após se despedirem, no final da tarde, serem tomados pela acidez de suas realidades tão distintas e distantes.

- Está completo aqui. – disse ele cortando o silêncio dos olhares, e continuou – mas podemos ter isso sempre assim.

Ela o olhou com curiosidade e dúvida. Pensou nas possíveis vertentes do que ele estava falando, torceu para que fosse uma proposta de união, romantizou. Se sentiu tola e, de sua própria tolice, sorriu. Ele a surpreendeu:
- O que foi? Diga! Riu porque falei que poderíamos ser sempre assim? - o sorriso dela o deixara inseguro. Talvez tivesse dito algo obtuso. Ela o confundiu. Ele precisava saber, e continuou: - Podíamos estar sempre assim...

Ela esboçara umas palavras mas se calara. Estava tomando cuidado com suas palavras; se sentia tola, não queria tornar tola a situação. Ele percebia seu conflito e a indagava com olhar apreensivo:
- Diga !
- Se eu te responder, irei romantizar tudo... – falou pausadamente, desviando o olhar como se sentisse ameaçando toda atmosfera de tranqüilidade e segurança, mas era o que sentia, era a única resposta que tinha.
- Eu também! – respondeu ele, sorrindo, com alívio a sua preocupação causada pelo sorriso dela.
Ela apenas o olhou interrogativa. Estava surpresa com o que ele havia falado, não esperava reciprocidade. O que ele dizia soava como uma charada, uma charada para uma promessa. Ele continuou:
- Eu também estou romantizando! Quero mais estar assim com você. Não falta nada agora. Sei que à noite irá faltar um pedaço. – falou e se calou ciente de que precisava equilibrar suas palavras. Não podia se arrepender de tê-las dito. Não podia permitir que elas se fizessem como uma promessa semeadora de frustrações futuras.
- Daqui a pouco eu vou embora, mas vou ficar. – Disse ela com olhar perdido.
Ele havia entendido perfeitamente o que ela havia dito e completou:
- Daqui a pouco eu vou com você.
Ela não disse nada, apenas o olhava delicadamente. Seu olhar demonstrava o quanto estava encantada, envolvida. Sabia que ele falava a verdade; sentia o mesmo e com olhar já delirante de saudade o observou buscando registrá-lo bem, guardar detalhes... o olhou roubada por um temido pensamento de ser aquela a última vez que se veriam. Tomada pela angústia da saudade que se antecipava, desviou os olhos e o corpo; disfarçou o choro com um sorriso e algum comentário bobo.
Ele não reagiu , ao contrário, se deixou levar pela mudança de assunto, de posição, de tema. Sentou-se na cabeceira da cama enquanto falavam sobre o tempo, a estrada, tamanho de mala e umas futilidades sutis mas de extrema necessidade para distraí-los da intensidade de seus pensamentos e sentimentos.
Ela levantou para abrir a janela, ver como estava o dia e, enquanto dava a volta pela cama, sentiu seu corpo ser observado, milimetricamente delineado pelos olhos atentos dele, que permanecia sentado junto à cabeceira da cama. Essa sensação lhe dava confiança, mais uma vez se sentiu segura: com ela, com ele.
Abriu a janela e se frustrou com o dia cinza que empalidecia a paisagem. Fazia frio, mas ela não sentia, carregava ainda consigo o calor dos últimos dias.
Ele se juntou a ela, a abraçou por trás, apoiando o queixo sobre seu ombro enquanto ela inclinava a cabeça para trás para apoiá-la. Assim, abraçados diante do horizonte nublado, dividiam uns minutos de silêncio.
Logo depois, ele comentou:
- Daqui a pouco, é para aquela direção que vou estar – falou apontando para uma cordilheira coberta com névoa, que parecia inalcançável. E continuou: - e para lá é onde você vai estar. Falou apontando exatamente para o lado oposto ao que mostrava antes.
De certo modo eram vizinhos, viviam sim, lado a lado, um em cada seta da rosa dos ventos.
Duas cordilheiras vizinhas, paralelas que se cruzavam através deles dois.
Ela estava sendo roubada pela imagem das montanhas... Distantes, como eles dois estariam horas após. Disfarçou. Virou-se para ele talvez querendo surpreender alguma reação, mas não, ele estava contemplativo, olhar vago, impregnado de entrelinhas que ele não falaria.
Se olharam. Se conheciam, sabiam a intensidade e a qualidade de aperto no peito que cada um estava levando. Disfarçaram. Se beijaram sem a mínima volúpia. Buscavam ternura, queriam se eternizar.

Arrumaram as malas, se arrumaram, precisavam ser rápidos nestas tarefas. Tentaram ser divertidos. Brincavam, se implicavam. Mascararam a situação para a melhor forma de passarem por ela. Estavam distraídos, se faziam afobados. Saíram do quarto sem olhar para traz, sem comedimentos. Estavam atrapalhados com bagagem e abraço. Riam indiscriminadamente.
No carro, rumo à rodoviária onde ela iria seguir, falavam sobre os próximos passos: ainda faltava comprar passagem, mas fora de temporada não havia porque se preocuparem. Não ligaram o rádio, talvez porque sabiam que se alguma canção que lhes agradasse tocasse, ela se eternizaria em suas mentes. Seria a música deles sem que tivessem pedido, sem que lhes fosse permitido. Não queriam guardar vestígios dos últimos dias, mas sabiam que seriam eles mesmos autênticos cofres de pistas e marcas de um no outro.
Estavam dispersos, se faziam desligados. Queriam se mostrar leves. Simulavam bem, mas não enganavam nem a si nem ao outro.
Quando o carro parou no estacionamento da rodoviária, segurando-o pelo braço ela falou:
- Fique aqui! Não vá até lá dentro comigo, não. – disse olhando-o com medo até de si mesma. Precisava se livrar do momento da despedida. Sabia que ia chorar.
- De modo algum... – interrompeu ele taxativo, perturbado.
- Por favor, vai ser mais fácil se você não for até o terminal comigo. Mais fácil pra nós dois. – disse ela com olhar esquivo, com voz equilibrada.

Se olharam desavergonhadamente. Estavam abalados. Se mostravam exageradamente frágeis. Não podiam mais relutar.
Ele concordou. Balançou a cabeça afirmativamente enquanto exibia um sorriso diluído por toda tristeza que não estavam chorando. Tocou de leve as pontas dos dedos sobre os lábios dela, como se contornando-lhe o desenho da boca.
Aproximaram os rostos, juntaram as testas, e mantinham os olhos semicerrados. Não se viam: se percebiam, se sentiam, identificavam. As mãos cobertas pelas próprias mãos, entrelaçadas como estiveram suas pernas horas atrás. Não falaram nada. Dividiram o silêncio quietos, e com o peito inquieto.
Com um beijo muito sutil nos lábios dele, ela se despediu e saiu do carro, sem olhá-lo mais; sabendo, porém que ele acompanhava todo seu trajeto até que sumisse do seu campo de visão.
Mais à frente olhou para o estacionamento e viu o carro se afastando, já alcançando a avenida principal. Sentiu frio.
No guichê comprou passagem para o próximo ônibus que sairia em quarenta minutos. Sentia-se insegura. Sentou numa das fileiras de cadeiras postas ali exatamente para acomodar aquele tipo de espera. Deixou a bagagem no chão próximo de seus pés. Sentou quieta e deixou que tanta inquietação que lhe povoava o peito saísse. Se sentiu vazia e chorou porque estava faltando um pedaço. Lembrou de toda a profecia da saudade que havia no quarto horas antes e respondia chorando discretamente a todo silêncio que não podia dividir agora.
Escondeu o rosto sob as mãos, abaixou a cabeça na direção dos joelhos e chorou da forma que mais a envergonhava: só.

Um par de tênis vermelhos, pequeninos, pés de criança, estavam parados bem a sua frente. Levantou a cabeça e se surpreendeu com a figura de um garoto, nove ou dez anos, de boné, bermuda e camiseta, uma bola de futebol debaixo do braço, sorridente. Figura apaziguadora. Enxugou as lágrimas com vergonha, diminuída pela largura do sorriso que o menino exibia sem se abalar com seu rosto entristecido.
- Oi! - a cumprimentou sem desmontar sua espontaneidade sorridente.
- Olá! – respondeu com voz destoada pelo desmoronamento do seu choro.
- Tome, um moço que você conhece me pediu pra lhe entregar. – falou lhe dado um papel dobrado.
- Como assim? Que moço? Onde? - perguntou angustiada
- Ele pediu pra eu entregar porque não queria que você o visse. Disse que você sabe.

Já com o papel nas mãos, reconhecendo a letra, ela balançou a cabeça afirmativamente e agradeceu. O menino saiu zombeteiramente dando pequenos chutes na bola que trouxera.
Ela olhou atentamente ao redor, na busca fracassada de vê-lo por ali. O lugar não estava cheio, seria fácil visualizá-lo; mas nada viu.
Se conteve, buscava seu equilíbrio, começou a ler o que vinha no manuscrito:

“Daqui a pouco você vai embora, mas vai ficar.
Você vai embora, mas eu vou com você.
Lembra? Não devia ter esquecido.
Estou levando toda saudade do mundo comigo,
pra poder ir para todo lugar do mundo com você.

p.s.: Não chore assim... você é tão linda sorrindo.“

Dobrou o papel sem saber se ainda estava sendo observada por ele. Guardou-o como única prova que tinha de que não foi apenas um sonho, um surto, alucinação.
Só não conseguiu atender ao pedido do bilhete, chorava com mansidão. Não controlava. Não sabia como sorrir ali.
Entrou no ônibus sem olhar ao redor. Não levava nenhuma promessa, nenhuma previsão, nada. Estava vazia. Sentia frio.

Anita de Souza Coutinho
Rio de Janeiro, primavera que parece inverno, 2001.


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