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Cartas-->O CONTO DA CARTA -- 20/01/2004 - 09:39 (adelay bonolo) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
O CONTO DA CARTA (*)
(ou a precariedade das coisas)

Senhor Diretor,

Não o conheço, nem mesmo sei o seu nome e não saberia dizer se está fazendo uma boa gestão à frente desse Departamento, tão importante para o cidadão brasiliense, que não vive sem automóvel.

Sempre tive orgulho de viver nesta cidade, pioneira na utilização dos cintos de segurança, nas faixas para pedestres e em outros aspectos inovadores na administração do trânsito urbano. Brasília depois foi seguida por outras cidades progressistas deste país.

Sentia-me vaidoso, quando retornava de alguma viagem, ao ver aquela placa com os dizeres: “Senhor visitante, nesta cidade não usamos buzina!”. Primeiro mundo, pensava eu!
Digo o mesmo das faixas para pedestres: tinha inveja de outros países que a possuíam desde os tempos das carroças, diligências, carruagens e tílburis. “Paga-se multa se se atravessa fora da faixa”, dizia-se em francês, inglês ou italiano.

Fui um dos primeiros a utilizar o cinto de segurança, desde a época em que colocaram tal artefato nos carros (e ainda nem era obrigatório!). Tive brigas federais com amigos, familiares e terceiros, defendendo o seu uso. Dele não abro mão, nem mesmo nas estradinhas bucólicas de minha fazenda no interior de Goiás. Retiro-o e torno a colocá-lo em todas as porteiras, cancelas e colchetes, quando dirijo só.

Dia desses, ao viajar para Goiás, numa chuvosa manhã de sábado, uma ponta da lona que recobria sacos de ração que levava para os animais se desprendeu e começou a prejudicar minha visão retrovisora. Desatei o cinto, desci da camionete e ajeitei o plástico que me incomodava. Meus pensamentos, nessa altura, seguiram viagem e pousaram alhures, longe dali. Religuei o carro e parti, com o coração e os olhos prelibando as delícias da fazenda.

Cerca de 300 metros adiante fui abordado por dois policiais garbosamente vestidos e montados em motos incrementadas, novinhas, possivelmente adquiridas com os reforços orçamentários do Programa do Governo Federal de Combate à Criminalidade.

— O motivo da abordagem é a ausência do cinto de segurança. - disse-me um deles, cortesmente, pedindo-me os documentos do veículo e do condutor.

— Eu uso, mas... - balbuciei. Nem precisava, pois o policial não deu a menor importância ao que tentei dizer, menos por desculpa que por encabulação!

Nenhum conselho, nenhuma admoestação. Simplesmente fui autuado e intimado a pagar determinada quantia da qual não faço idéia de valor, com a informação de que teria 30 dias para recorrer, querendo. O fato lembrou-me o dito de um amigo sobre a Campanha contra a Criminalidade: ”Eles deram o dinheiro, mas vão buscá-lo de volta.”

O motivo desta carta, Sr. Diretor, não é reclamar, criticar ou recorrer da penalidade que, justamente, me foi imposta. Move-me coisa de outra natureza, que faz parte da grande tragédia da humanidade: a precariedade das coisas terrenas. Aos 61 anos de idade, fui pilhado cometendo um delito, logo eu que primava pelo cumprimento da lei, em todos os sentidos. Aos olhos daquele guarda, igualei-me a milhares de outros infratores e delinqüentes, grandes e pequenos, e constatei que o histórico cadastral de minha vida inteira, de excelente comportamento, de nada valeria naquele instante. Que vergonha!

Atenciosamente,

Obs.: Remeti cópia desta carta ao Correio Braziliense, principal jornal da cidade, pedindo-lhes que a publicassem. Não o fizeram, nem disseram nem mandaram dizer porquê. Pensei em cancelar a assinatura do jornal, fazendo uma do seu concorrente. Seria a única coisa que poderia fazer, e, se a fizesse, obviamente seria represália inútil! Continuo com a assinatura... até porque o concorrente é muito ruim. Quanto à multa, recebi o respectivo boleto bancário e paguei: uma nota preta!


(*) Carta Aberta dirigida ao Diretor do Departamento de Trânsito de Brasília, a propósito de uma multa de trânsito recebida pelo autor num dia aziago. O texto já tem uns dois anos, mas é divulgado aqui, dada a sua atualidade
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