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Contos-->A MORTE DO PAI -- 09/05/2001 - 13:58 (Antonio Albino Pereira) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Nasceu pobre, numa cidade do interior. Era o quarto filho e, depois dele, viriam mais três. Estava ali no meio, nem o mais velho, nem o caçula. Conta sua mãe que quase não sobreviveu. Não comia nada que parasse em seu estômago. Quase tudo o que comia, pouco depois, retornava pela mesma via, e, quando saía pelas vias corretas, era em forma de líquido com um mal cheiro insuportável. O intestino não funcionava bem. Coitado do moleque. Tão fraco e doente era que um dia quase desistiu da vida. Sua mãe chegou a chamar o padre para a extrema unção. No último suspiro, reagiu e o representante de Deus não chegou a encomendar aquela pequena alma.

Ele não sabe ao certo como sobreviveu, mas o amor de sua mãe contribuiu muito para sua reação. Certamente ela ficaria muito entristecida com a perda daquele pedaço de gente. Mãe é mãe e, embora já tivesse três pimpolhos bem saudáveis não deixaria aquele ali escapar de suas mãos, nem do seu coração.

Só falou aos três anos de idade. Contam que foi uma festa quando pronunciou "midubim" (ele queria dizer amendoim). Daí para andar foi um pulo: antes dos quatro anos. E assim, aos trancos e barrancos, passou sua infância. Os outros irmãos nem notaram que ali estava um quase ressuscitado garoto a brincar com eles. Os mais velhos até que se lembram, não tão bem como sua mãe.

Seu pai também lembraria se vivo estivesse. Seu pai e herói se foi prematuramente, nem tinha ainda 45 anos e partiu. E ele, aquele menino mirrado, justo ele, presenciou a morte do pai, sozinho, sem ninguém, sem poder fazer nada a não ser chorar. Aconteceu assim: o pai trabalhava com carro de boi. Fazia carretos e aqueles carretos eram o sustento da família. Não tinha dia nem hora para ser contratado. Era um domingo, 1º de abril, e saíram de manhã para um carreto em uma fazenda um pouco distante da cidade. O dia todo na labuta, sem comida, com fome, voltavam e comentavam do jantar que os esperavam em casa. Saboreariam aquela comida gostosa de mamãe depois de um longo dia sem sentir o sabor do arroz. A certa altura da viagem o pai pediu que o menino parasse os bois para que pudesse arrumar alguma coisa que estava se soltando no carroção.

Estava o menino na frente dos bois, distraído, quando ouviu o pai gritar seu nome. Foi a última palavra dita por seu pai. Quando chegou ele estava caído, boca aberta, respirando ofegantemente. O menino gritava com seu pai, pedia para que se levantasse, tentava desesperadamente tirar o carroção de cima dele pois, no seu entender, aquilo é que estava machucando o pai. Tinha então pouca idade e tinha o corpo franzino. Era do interior e nem de longe imaginava como era um ataque cardíaco e o que poderia fazer para ajudar. Então gritava e chamava pelo pai. Chorava, olhava em volta e não enxergava ninguém. Se desesperava cada vez mais. De repente, não ouviu mais aquela respiração ofegante. Seu pai se fora.Ele estava ali, naquela estrada deserta, sozinho. A essa altura chovia.

Parece que os acontecimentos são conduzidos numa seqüência mais ou menos lógica porque, todo o drama do menino não durou mais do que dez minutos e, já escurecendo, naquela estradinha deserta, chovendo, quando o normal era não ter ninguém por ali, eis que surge uma camioneta de um fazendeiro conhecido de seu pai. Daí em diante eles conduziram as coisas. O menino não chorava, prendia o choro, mas seu coração estava em pânico, não conseguia concatenar as idéias e os pensamentos estavam turvos e sem sentido. Tudo parecia distante, como num sonho. Ficou calado o resto da viagem.

Já era noite e rodavam a cidade para cima e para baixo com aquele corpo na carroceria da camioneta. No início o colocaram ali, na carroceria, junto com o pai. O menino olhava o corpo estendido e sentia uma dor profunda no peito que apertava cada vez mais. Depois, com o aumento da intensidade da chuva, pararam o carro e o colocaram na cabine. Mas ele olhava para trás e via, através do vidro embaçado, seu pai se molhando sem reclamar. E o carro rodava pela cidade. Depois se soube que estavam procurando um certo compadre para que fosse junto dar a notícia à viúva. Seria doloroso e precisavam de alguém mais íntimo para dar aquela notícia.

As coisas aconteceram rapidamente, sem que o menino pudesse entender direito. Desde a chegada em casa, a notícia dada, o desespero, o velório naquela noite interminável em que as pessoas ficavam em volta da fogueira bebendo e contando histórias boas daquele homem que agora estava ali, estendido num caixão. O menino, do quarto, escutava tudo, não conseguia dormir. Hoje se sabe que seu estado recomendaria assistência médica. Mas naquele tempo e naquele lugar as coisas passavam despercebidas. Ir até a sala para ver seu pai ali, sua mãe chorando, ele não conseguia. Também não conseguia chorar. Estava em estado de choque. Tudo o que fazia era pensar naqueles momentos terríveis porque passara a algumas horas. Não queria dormir pois tinha medo de sonhar. Ficava deitado, quietinho, pensando, pensando. E muitos dias passou assim.



























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