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Cronicas-->Um romance consumido pelas labaredas da Lubianka -- 16/04/2007 - 17:27 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
"O principal era que o meu preguiçoso comissário não se dispusesse a examinar aquela maldita carga que eu trazia naquela maldita mala - os apontamentos de um Diário de guerra", escrito com um lápis rijo, muito fino, e com letra miúda, e que começavam já a apagar-se em alguns lugares. Estes apontamentos traduziam as minhas pretensões de me tornar escritor. Eu não confiava na força da nossa admirável memória e durante os anos de guerra procurava escrever tudo o que via (isso era ainda o menor mal) e tudo o que ouvia das pessoas. Mas os relatos mais naturais do mundo na primeira linha de fogo, aqui, na retaguarda, pareciam sediciosos, e cheiravam a palha úmida aos meus camaradas da frente. E só para que o comissário não fosse transpirar sobre o meu Diário de guerra e não arrancasse dele a fibra da raça livre da frente, eu me arrependia o mais que podia e além do necessário, começando a tomar consciência de todos os meus erros políticos. Extenuava-me neste caminhar pelo fio da faca, até que percebi que não traziam ninguém para acareação, e que começavam a aparecer sintomas claros do fim da instrução do processo. Até que, no quarto mês, todos os cadernos do meu Diário de guerra foram lançados na boca infernal do fogão da Lubianka, espalhando a casca vermelha de mais um romance morto na Rússia e deixando as borboletas negras da fuligem voar pela mais alta das chaminés.

À sombra desta chaminé passeávamos nós, numa caixa de cimento, no telhado da grande Lubianka, ao nível do sexto andar. As paredes subiam ainda até a altura de três homens. Com os ouvidos escutávamos Moscou, as buzinas dos automóveis respondendo umas às outras. Mas víamos unicamente a chaminé, a sentinela de atalaia no sétimo andar e esse infeliz pedaço do céu de Deus ao qual era dado estender-se sobre a Lubianka.

Oh, aquela fuligem! Caía e caía sem cessar, nesse 1o. de maio do após-guerra. E era tanta, tanta, durante cada um dos nossos passeios, que imaginávamos que a Lubianka queimava arquivos de tempos remotos. O meu diário perdido não passou da espiral de um minuto no meio daquela fuligem".


Alexandre Sojenítsin, in "Arquipélago Gulag", Difel, São Paulo, 1975, pg. 141-142.


Obs.: Lubianka era o nome da famosa prisão soviética de Moscou, por onda passaram levas e levas de torrentes humanas rumo ao Gulag (campos de trabalhos forçados, na Sibéria). Soljenítsin, oficial (capitão de Artilharia) do Exército russo em combate na linha de frente contra os nazistas, na II Guerra Mundial, foi detido no front de Koenigsberg em janeiro de 1945 e condenado, sem julgamento, a 8 anos de prisão e mais 4 anos de exílio no desterro do Gulag. A acusação baseou-se em carta enviada a um amigo, em que criticava os privilégios no Exército e a conduta de Stálin em relação à guerra. Foi expulso do Sindicato dos Escritores, viveu 6 anos como escritor clandestino e em 1970 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Após a publicação do "Arquipélago Gulag", no original russo, em Paris, no ano de 1973, Soljenítsin foi levado de avião, sob protesto, para a Alemanha Ocidental e em 1974 escolheu a Suíça para morar. Além do "Arquipélago Gulag", outros livros do escritor foram publicados no Ocidente, a exemplo de "Pavilhão dos cancerosos" (durante um ano, Soljenítsin ficou internado num hospital para tratamento de càncer) e "Agosto 1914", que circularam na URSS em edições clandestinas, ou samizdat (F.M.).







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