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Cronicas-->Filho da mãe sexualmente remunerada -- 17/05/2007 - 17:03 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
O POLITICAMENTE CORRETO

Fritz Utzeri

Odeio o falar politicamente correto. Trata-se de um processo de emburrecimento global nascido nos EUA, sob o pretexto (em princípio correto) de não ofender. Lá, por exemplo, aboliu-se a expressão "nigger" com a qual se (mal)tratava o negro. Ela foi substituída por "black", preto, o que é até mais correto e visualmente incontestável. (Curioso é que no Brasil prefere-se negro a preto). Mas, aí, o politicamente correto evoluiu para a burrice, e passaram a chamar o negro de afro-americano, uma besteira total. Meu pai era africano e branco. O Kadafi e o rei do Marrocos não são negros e, se esse reducionismo pega, meus filhos serão "eurobrasileiros", e assim por diante.

O mais curioso é que essa besteira empobrece tremendamente a língua. Tome a própria palavra pobre. Sumiu. Pobre virou "carente". Cego passou a ser "deficiente visual". Pessoalmente, ficaria mais ofendido com a expressão deficiente do que com a palavra cego. Anão? Anátema! Palavrão! Leproso? Chamem a polícia! (Se for morfético, então, é caso de pena de morte). Aleijado? AAAARRGGGGHH! Surdo? Moro perto do Instituto de Educação dos Surdos e vejo (ufa! Que alívio!) que ainda não mudaram a placa para "deficiente auditivo" ou "auditivamente prejudicado".

Criam-se expressões tolas. Ninguém mais "diz" algo, mas passa a "colocar". Ou a "questionar" em lugar de perguntar. Usa-se o "enquanto" com uma finalidade misteriosa para o mais audaz gramático: "enquanto mulher, acho que...". O que é isso? Para não falar de horrores como "disponibilizar" e boa parte do "informatês" e do "economês" que invadiram a língua, espalhando bobagens.

E o que dizer dos costumes? Sou do tempo em que as palavras tinham peso específico. Hoje existe a Aids, mas também a camisinha, e não me consta que todos tenhamos nos tornado santos. Então, que fim levou a palavra amante? No meu tempo, não se dizia em público e sugeria pecado e fantasias. Não há mais amantes, e ninguém mais vive em concubinato (palavra que transportava para um harém cheio de belas mulheres de véus diáfanos e eunucos. Que fim levaram os eunucos?). E o termo adultério está praticamente esquecido. "Amante! Concubina! Adúltera!" Quem vai atirar a primeira pedra?

E, já que chegamos à religião, protestei uma vez, em artigo em O Globo , quando os anglicanos mudaram o pai-nosso, substituindo tentação por "horas de tribulação". Mas os burocratas eclesiásticos - desta vez do Vaticano - não tomam jeito e mergulham de cabeça no politicamente correto. Não chegam aos extremos dos burocratas do regime militar que criaram esta pérola: "Contatos hídricos recreacionais de terceiro grau". Tradução: banho de rio! Mas um livro publicado na Itália pelo jornalista Roberto Beretta, "Il piccolo eclesiale ilustrato ", reúne algumas jóias do novo vocabulário eclesiástico. Dá vontade de chamar a Inquisição de volta...

Vamos ao "neocatoliquês". Você se lembra da homilia? É o que chamávamos de sermão, e chegar depois do sermão tirava metade do valor da missa (era o que acreditávamos). Devo dizer que, em geral, o sermão era chato, mas íamos à missa para o padre assinar a caderneta escolar atestando que assistíramos ao culto. Assim, procurávamos chegar depois do sermão. Sermão, pelo novo vocabulário, é palavrão, mas nem homilia pode mais. Agora temos o "momento homiliástico". Lindo, não?

O pregador passa a ser um homiliasta (termo dicionarizado mas no mínimo pedante, como diria padre António Vieira em seus bons e velhos sermões). O batismo torna-se "opção batismal", bobagem, já que a maioria dos batizados não opta por absolutamente nada, por ser incapaz, com alguns dias de vida, de fazê-lo.

E a missa? Palavra simples, que diz tudo. Virou "celebração litúrgica", "ceia do senhor", "partilha do pão" ou (em italiano) sinassi .. Em português, sinapse. Trata-se de uma conexão entre dois neurónios (células do sistema nervoso), para que se propague o impulso nervoso de um para o outro. Só em sentido muito figurado pode-se descrever a missa como uma sinapse. Houve aí uma "intelectualização" inútil.

A conversão passou a ser uma metanóia, palavra que existe nos dicionários e que, de fato, significa conversão. Mas - mais uma vez - por que complicar? O ateu (aquele que não crê em Deus, íMPIO!) virou "não crente". Agnóstico (pessoa que só admite os conhecimentos adquiridos pela razão e evita qualquer conclusão não demonstrada) não consta do novo vocabulário. Talvez acabem distinguindo um do outro por "não crente ativo" e "não crente passivo". A primeira comunhão e a crisma agora são "sacramentos da iniciação cristã". A caridade tornou-se (pasmem!) "exercício da proximidade com o próprio semelhante". Essa se parece bastante com a dos "contatos hídricos".

Mas se você morrer com a alma mais suja do que a capacidade de Omo, Minerva e Ariel de lavarem mais branco, então fique sabendo que você vai para o INFERNO! Como? Não vai? O quê? O INFERNO MUDOU DE NOME? Como é que pode? PLEROMA? INFERNO VIROU PLEROMA? Em grego, pleroma quer dizer plenitude. Não entendi... Pleroma é também a zona central do caule das plantas. Entendo menos ainda. Quer saber de uma coisa? Vá pro inferno! Perdão, vá pro pleroma!

Um dos objetivos da "novilíngua" (vide Orwell) é apagar as emoções e tornar tudo pasteurizado, anódino, sem emoção. Os sentimentos devem ser varridos para debaixo do tapete. Tome cuidado com o que fala. O termo "crioulo" pode enquadrá-lo na Lei Caó (cujo apelido nos tempos da UNE era Crioulo). Tudo depende de como se fala, embora a descrição "passou por aqui, era um crioulão" seja adequada. Mas, se fosse vivo, Adolfo Caminha teria problemas com O bom crioulo . Além do mais, porque o tal crioulo de seu livro, era gay e não veado, como Lula referiu-se, recentemente, aos pelotenses.

Sendo assim, morram a emoção e a objetividade, e vamos à assepsia vocabular que emburrece. Imaginem a multidão no Maracanã. Quarenta e quatro minutos do segundo tempo. Jogo zero a zero. O centroavante se prepara para fulminar. O goleiro já está fora da jogada, vencido, quando o becão vem por trás, dá um carrinho, tira um pedaço do atacante e faz PÊNALTI!

O quê? O juiz não deu? LADRÃO! Agora imagine o Maraca em peso gritando - e repetindo - a plenos pulmões: "Filho da mãe sexualmente remunerada!". Eu hein?





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