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Contos-->A MINHA GATA PRETA -- 13/06/2016 - 20:53 (Benedito Generoso da Costa) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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A MINHA GATA PRETA


Já tive oportunidade de dizer a alguns de vocês que sou um apaixonado por animais. Gosto de gatos e cachorros, de bois e de cavalos e, para não discriminar, também de suas fêmeas e de tantos outras e outros como bodes, cabras, carneiros e ovelhas. Precisa dizer mais?

Por eu amar assim tanto os animais, nunca me surpreendi quando li que o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche um dia abraçou um cavalo e lhe deu muitos beijos.

"Diz a história que Nietzsche foi internado depois de um estranho fato acontecido em Turim, no ano de 1889, que foi o seguinte: Ao ver da sua janela um pobre cavalo ser brutalmente espancado pelo dono, o filósofo correu em socorro do animal. Após espantar o cocheiro aos berros, Nietzsche passou os braços ao redor do pescoço do cavalo e começou a chorar convulsivamente. Beijou muito o cavalo, mas seu choro, porém, durou pouco. Acometido por um violento colapso, o filósofo precisou ser carregado para seu quarto, onde permaneceu desacordado por algum tempo. Quando voltou a si, não era mais o mesmo - pronunciava frases ininteligíveis, cantarolava, martelava o piano e soltava estranhos ruídos.”

Bem, a história de Nietzsche, creio eu, muitos de meus leitores a conhecem. Portanto, não preciso detalhar nada sobre ele, nem de sua obra prima, “Assim Falava Zaratustra”.

O fato é que esse filósofo, reverenciado por muitos e odiado por tantos quantos, por ser um demolidor de ídolos, também disse em sã consciência: “Temo que algum dia me canonizem santo”.

Eu, de minha parte, mesmo sendo um cartesiano por formação, não tomo nada como definido definitivamente, e a palavra “nunca” eu risquei de meu dicionário há muito tempo. Aprendi que não se deve e nem se pode fechar uma questão. Tudo é questionável e todas as portas permanecem abertas, mesmo que teimamos em fechá-las.

Meu pensamento não caminha em linhas retas e muito menos em círculos. À mim me parece que tudo nesta vida e neste mundo caminha sempre para frente, porém em ondas, mas não em ondas homogêneas. As ondas de que eu falo são muito variáveis e volúveis. Às vezes se levantam, outras vezes se abaixam, algumas vezes retrocedem, porém no final sempre chegam à praia.

Sei que estou dando muita ênfase ao meu ego e falando um tanto filosoficamente, mas agora quero falar de mim como pessoa humana, que tem carne e ossos, sentimentos de alegria e tristeza, raivas passageiras e uma constante vontade de me esquecer e sempre lembrar de quem está comigo. Gosto muito de proteger e bem menos de ser protegido.

Às vezes penso que seja até um orgulho machista, mas embora eu seja homem, não tenho receio de chorar diante de qualquer criatura deste mundo, seja perante pessoas, animais, vegetais ou minerais, para não dizer, até mesmo diante de uma pedra fria.

Bem, desculpem-me a divagação filosófica, pois pretendo ser fiel ao tema que aqui proponho, ou seja, contar um caso que de tão comum me intriga profundamente, talvez pela minha sensibilidade que acabei de enunciar.

Se já disse que amo muito os animais, nem é preciso que eu diga que possuí muitos e de variadas espécies. Há muito tempo, depois de me aposentar no serviço público, comprei um pequeno sítio, onde os criei e, mais do que isso, os amei profundamente. De uma coisa me orgulho, nenhum deles eu matei por qualquer razão que fosse, apenas deles tratei e cuidei dando alimentos e amparo com muito amor e carinho.

Mas por fim tive que parar e deixar que cada um fosse vivendo até morrer, enquanto eu envelhecia e não podia mais cuidar de ninguém, a não ser de mim mesmo. Assim não quis mais adotar nenhum animal e fui vendo cada qual envelhecer ou adoecer e, por fim, todos morrerem, restando-me apenas uma gata preta.

Quanto prazer eu tive, tanta alegria que todos me deram! Quanta tristeza suportei pelo sofrimento daqueles que não pude amenizar e, enfim, pela morte de todos, um por um.

Tanto tempo faz que de mim se despediu a última criatura que fazia parte daquela grande família de animais que viveu por mais de dez anos comigo. A minha gata mais estimada e que se chamava Sofia, mas que aqui vou denomina-la simplesmente de “A Gata Preta”.

Como disse, depois que me aposentei eu comprei um pequeno sítio, não muito longe da cidade, para onde me mudei e, não querendo estar ocioso e solitário, já que sou um solteirão que nunca me casei, resolvi adotar uma grande quantidade de animais abandonados que fui encontrando pelas ruas da cidade, à qual eu ia todo dia no começo.

Sempre voltava para casa com algum cão ou gato, além de alguns bois magricelos e cavalos velhos, que comprava só para libertá-los do peso das carroças e da dor dos açoites. Mais uma vez, para não fazer discriminação, também levava para o sítio vacas magras e éguas que eram só couro e ossos.

Como eu dispunha de bons recursos, alimentei e cuidei de todas essas criaturas que eram maltratadas apenas porque seus donos não as mais queriam, já que lhes davam apenas despesas e não mais lucros, como antes.

Numa tarde chuvosa, eu voltei com meu Jipe cortando barros e com uma companheira, uma gatinha preta, do meu lado, meio assustada, mas me parecendo confiante e que iria ter um lugar melhor do que a rua onde a encontrei encolhidinha junto a um muro, suportando a borrasca daquela tarde fria de inverno.

Era a gatinha que achei por bem chama-la de Sofia, ao me lembrar de Sócrates, o maior sábio da Grécia antiga. Eu pensava que ao acolher essas criaturas não estava nada mais sendo do que um amigo da sabedoria, como ele se denominava.

Essa gatinha mal desmamada, se sentiu tão à vontade em minha casa de campo que tão logo se adentrou já estava arranhando os portais e tentando subir até em cima da mesa. Sua cor? Ora, já disse. Era da cor da noite, que chegava enquanto ela ficava cada vez mais esperta. Quem diria! Encontrei-a tão tristinha, deprimida e agora ao se ver dentro de uma casa, acarinhada por um dono que em breve se tornaria dela o mordomo, já se sentia dona de tudo.

Pois bem, ela cresceu e ficou enorme, uma linda gata de pelos pretos e eriçados, mas um dia se enamorou por um dos muitos gatos que eu tinha lá no sítio. Ficou prenha e dois meses depois ganhou uma ninhada de quatro gatinhos, três machos e uma fêmea.

Até então eu não tinha nenhuma gata e sim sete gatos, que não foram escolhidos pela identidade sexual, senão pela sorte, ou azar, de estarem abandonados. Um deles, que nunca pude identificar, engravidou minha gata preta. Mais três gatos e uma gata agora faziam parte de nossa família, na qual eu me sentia mais como um mordomo do que dono.

Alguns vizinhos meus, com os quais eu sempre mantinha contato, se interessaram por aqueles gatinhos correndo e rebolando, saltitando e brincando uns com os outros e, bem mais que quatro deles, pediram-me a doação dos filhos da gata preta.

Sem consultar minha negra dona gata, mesmo dela me considerando um mordomo, não lhe dei satisfação e doei os filhos dela que, logo após desmamados, foram levados cada um para um sítio diferente.

Num passe de mágica, minha gata preta ficou só e sem seus filhos, sentindo-se confusa e triste, pelo que observei e, naquela noite, dormiu ao meu lado e mais do que nunca se achegando a mim, agitando-se de vez em quando, saindo e voltando.

No dia seguinte a surpresa. Ao me levantar, dei de cara com a gata preta e os quatro gatinhos, todos dormindo nos pés de minha cama. Ela tinha saído furtivamente durante à noite e foi buscá-los um a um. Mãe é sempre mãe e faz de tudo para ter seus filhos junto de si.

O fato é que os vizinhos vieram buscar os gatinhos e por mais de uma vez a gata preta trouxe de volta um ou outro, mas, por fim, desistiu e seus filhotes nunca mais os viu, parecendo-me que os esqueceu sem sequer sentir saudades.

Vou agora para a parte mais triste desta narrativa.

Um dia eu trouxe para o sítio um cãozinho amarelo que ficou do meu lado enquanto eu tomava cerveja num bar. Ele olhava para mim tristemente e quando eu olhava para ele, abaixava os olhos e se acomodava cruzando as patas dianteiras. Quando saí ele me acompanhou e sem que eu chamasse, ele pulou no Jipe e se sentou ao meu lado. Levei-o, como se é de esperar.

A essas alturas, meus animais todos haviam morrido de forma das mais diversas que a morte surpreende cada vivente deste mundo. Então pensei que minha gata preta, a única sobrevivente até então, poderia ter um amigo cão, embora tradicionalmente seja um inimigo do gato, mas com minha mediação, talvez em armistício, fosse dela um amigo até que eu não mais pudesse cuidar de animais.

Contudo, o que eu não esperava aconteceu, pois ao chegar no sítio e ver minha gata preta costumeiramente me esperando, até sorri de alegria, mas o cachorro desconhecido que eu trazia comigo, saltou do Jipe assim que abri a porta e foi direto numa carreira atacar minha gata preta sentada na soleira da porta, como sempre, para me receber.

Não tive tempo de impedir a tragédia e, numa abocanhada, aquele cão estranho estrangulou minha gata preta, a Sofia, que tanto amei e da qual cuidei e não pude evitar-lhe a morte.

Tudo o que fiz, foi correr afobado para tentar evitar o inevitável. Ela estava inerte junto ao umbral da porta, sua língua ensanguentada sobressaindo pendente da boca.

Quanto ao cão estranho que eu trazia para casa e que matou minha gata preta, não sei dizer que fim levou. Nunca mais o vi. Tal como me apareceu, assim desapareceu e dele, por incrível que pareça eu ainda sinto saudade.

Enterrei minha gata preta no jardim dos enterros, que é o nome que dei ao campo espaçoso em frente de meu rancho no sítio, onde havia enterrado todos os meus animais que viveram e morreram sob meus cuidados. Só não cuidei do último, o cão agressivo, porque após matar minha gata preta, simplesmente fugiu sem sequer me dar adeus.

Sobre a cova de minha gata preta, plantei um pé de rosas. Pouco tempo depois a roseira cresceu e floresceu e, numa manhã chuvosa, eu contemplei seu primeiro botão despontando.

No dia seguinte, claro e com o sol brilhando, aquele botão de rosa havia desabrochado em uma flor perfumosa e, uma de suas pétalas se sobressaía, tão vermelha como a língua ensanguentada de minha gata preta, quando morreu atacada por aquele estranho cão.

Permaneci sozinho por algum tempo no sítio e logo depois o vendi a um grande empresário que ali construiu um condomínio fechado e muito lucrou com o empreendimento.

Naquele lugar em que havia animais alegres e verdes pomares, hoje só há prédios de muitos andares...

E longe dali, para mim, uma solidão sem fim.


BENEDITO GENEROSO DA COSTA

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