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Cronicas-->TOPOGRAFIA DA CONCUPISCÊNCIA ABSOLUTÓRIA -- 06/08/2007 - 14:00 (Alexandre José de Barros Leal Saraiva) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

Topografia da Concupiscência Absolutória



Era uma típica noite alencarina, aquela que embalava os sonhos libidinosos do jovem soldado Picanço. Ao som distante e convidativo da boemia, sob os eflúvios lascivos de seus dezenove anos, não entendia as razões pelas quais era mantido como "sentinela da hora" na garagem da bela Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção. Da muralha, hoje decorativa e tombada, observava o intenso movimento de carros, pessoas e, como não poderia deixar de ser, contemplava desejoso o vai-e-vem das cortesãs, algumas delas provocantemente vestidas, outras desnudadas nas partes mais "valorizadas" pela clientela habitual.
De todas, a pequena e desajeitada Matilde Bezerril era a que lhe chamava a maior atenção, muito mais pela fama acumulada no "disse-me-disse" da soldadesca do que pela pouca beleza que ostentava no seu metro e meio de verniz moreno, assimétrico pela manca perna esquerda e de todo desarmonioso com a exagerada bocarra sem dentes que lhe adornava perfidamente o perfil.
Com efeito, Matilde pouco tinha herdado da sensualidade plástica de Iracema - imortalizada em literatura e adormecida nas praias e lagoas da cidade. Todavia, era conhecida como particularmente competente em uma específica manobra lúbrica, há muito apreciada, embora ainda hoje não goze de serena licença literária para ser referida ou identificada sem rodeios ou atalhos.
No avanço da lua Picanço já não mais conseguia concentrar-se em sua heróica missão militar. Aos poucos, passou a observar cada vez mais obcecadamente a Vênus desengonçada imaginando como trazê-la para si, burlando a fiscalização do Oficial-de-Dia e os mal-encarados Sargentos que, de hora em hora, faziam a desconfiada ronda. E estes foram instantes de pura aflição: Picanço andava de um lado para o outro, suava frio, tinha vontade de urinar, pensava em fugir do quartel, enquanto sorvia o conteúdo de seu cantil como se estivesse prestes a morrer de sede, até que em um determinado instante da desesperada marcha em torno de si mesmo, Picanço enganchou o fuzil em uma pequena tranca adormecida no grande portão de ferro limítrofe a rua da Santa Casa de Misericórdia, separando o casto purgatório castrense do paraíso hedónico que insiste em orbitar a praça erguida ad perpetuam rei memoriam de Bárbara de Alencar.
Foi aí que Picanço definiu sua estratégia. A redentora tranca pertencia a uma janelinha colocada exatamente no meio do portão. Normalmente, a janelinha servia para a identificação daqueles que desejam entrar no quartel. Para Picanço, no entanto, era o portal libertador, pois sem sair inteiramente do quartel poderia entregar-se aos prazeres carnais levando em conta, principalmente, as singulares e festejadas habilidades de Matilde Bezerril.
E foi assim que aconteceu! Picanço chamou Matilde, com ela firmou o preço do enlace mercanciado, e em poucos instantes, de "corpo presente" no serviço - ou quase todo presente - serviu-se da janelinha, enquanto Matilde, do lado de fora do quartel, fazia jus ao desairoso perfil que lhe servia de marketing.
Mas, como era de se esperar, no exato momento em que as idéias abandonam por completo as inteligências humanas, os sussurros se transformam naturalmente em urros e o instinto animal se apresenta com voracidade inigualável, eis que surge no erótico cenário o antipático e severo Tenente Astolfo, oficial de Infantaria e, para infelicidade geral, bacharel em Direito recém egresso dos bancos escolares, circunstància que o tornava especialmente orgulhoso a ponto de, costumeiramente, citar de memória a descrição exata dos crimes previstos na lei militar, para os subordinados, em suas infindáveis preleções matinais.
Diante da magna oportunidade que se lhe apresentava - a flagrància de um crime hediondo como aquele - o tenente não hesitou e partiu para cima do soldado, não sem antes convocar reforços, embora o tenha feito somente para dar publicidade à sua coragem e enaltecer a pretensa cultura jurídica que pensava ter.
Assim, aos berros, disse:
- Soldado Sentinela, pelos poderes com os quais estou investido na qualidade de oficial-de-dia, dou-te voz de prisão em flagrante delito, por estares praticando o gravíssimo crime de "Pederastia ou outro ato de libidinagem", previsto no artigo 235 do Código Penal Militar. Atente para o que diz a lei: É crime o soldado praticar ato libidinoso em área militar. Portanto, considere-se preso.
Pobre Picanço! Ainda na flor da idade, nascido e vindo do interior do Ceará, em um vilarejo onde meninos e cabras passam os dias se esfregando, preso naquela situação vexatória por um tenente bacharel em direito. Porém, ainda que despido de qualquer diplomação, o esperto soldado percebeu que algo estava errado e, após uma pausa instintiva e necessária ao ordenamento das idéias, saiu-se com essa:
- Excelentíssimo doutor tenente, não pretendo desafiá-lo, nem ao menos desobedecê-lo. Reconheço, ilustre bacharel d´Armas, que a situação é extremamente delicada, mas penso que não posso ser preso, pois o senhor acabou de dizer que é crime fazer xumbregas dentro do quartel. Ora, se é certo que cá estou, dentro do quartel, também é induvidoso que "meus documentos" não estão, isto é, coloquei-os na janelinha que dá para a rua e lá, na rua, não é mais quartel.
Com a resposta de Picanço, o tenente-bacharel tremeu de raiva, gaguejou de pànico e chorou de vergonha, os soldados do reforço foram rendidos por gargalhadas histéricas e Matilde Bezerril, tão rápido quanto póde, safou-se da confusão, levando consigo a recompensa financeira de seu labor e a doce lembrança do soldado rábula que, literalmente, achou uma "brecha" na lei!
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