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Cronicas-->A QUE DISTÂNCIA, MINHA SOGRA? -- 06/08/2007 - 14:04 (Alexandre José de Barros Leal Saraiva) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
A que distància, minha Sogra?

Não sei de quem foi a idéia, mas há um senso comum de que a crónica há de ser hilária, efetivamente engraçada, capaz de abrandar as feições do marmanjo mais carrancudo.
Talvez o grande culpado seja o impagável Luis Fernando Veríssimo, agraciado por Deus com um dom sem igual, acabando por mal-acostumar a população brasileira a desafogar suas dores em gargalhadas generosas, no embalo de seus textos fantásticos.
Eis que me encontro, então, numa situação angustiante: "me coçando" para escrever e morrendo de medo em não causar, ao menos, um tímido sorriso de "canto-de-boca".
Antes de sentar-me e detilografar, a imaginação soa fértil como a mais bela moça de ancas largas e seios promissores; porém, basta encandear-me com o brilho da tela branca, que o pànico do ridículo furta-me a inspiração, e no lugar da moça, lembro-me de minha sogra, terrível e horripilante, fazendo cooper à beira-mar, trajando uma indecorosa malha de ginástica, com desenhos de ursinhos, picolés e piratas da perna de pau.
Superado o susto, quase hipnotizado, os dedos assumiram minha personalidade e, sem querer, comecei a escrever estas besteiras, sem qualquer mote e nenhum arremate, apenas a pena. A pena a que me refiro, bem que poderia ser o sentimento que você, certamente, está afeto por mim neste instante. Menos pela minha sogra caricata, penso eu. Todavia, ao revés, a pena de que me ocupo é a hoje eletrónica e informatizada, que não suja as mãos nem a camisa, e a que, sobretudo, a um simples toque no backspace permite que a pena sentimento apague o registro da pena instrumento.
Penas à parte, volto ao assunto sogra! Não que eu queira dele me aproveitar, mas por puro amor à verdade histórica gostaria de parabenizar o luminar que sintetizou a fórmula do sucesso no casamento. Segundo ele, que não sei quem é, para o casamento dar certo é necessário que seja rigorosamente observada a seguinte regra: "A sua sogra não pode morar tão perto de sua casa que para lá vá de chinelos, nem tão longe que precise ir de mala".
Foi assim que resolvi comprar minha casa. A primeira distava algo em torno de 15 km do reduto sogresco, portanto parecia-me razoável. Ledo engano! Nem ia de chinelos, nem vinha de mala. Visitava-nos todos os dias. Sempre na hora do almoço, pois embora ficasse distante de sua casa era próximo ao seu trabalho, e aí você já viu: além de "encher o saco", a velha esvaziava as panelas.
Inconformado, troquei a casa por um apartamento, e este era ao mesmo tempo longe do trabalho e da casa da boa senhora. Mas o conserto saiu pior do que a encomenda. A duas quadras do edifício havia uma seita denominada Consciência Energizante dos Antepassados de Medusa e, para minha profunda martirização, noite sim outra não, aparecia em minha sala um misto de espectro e de gente, apenas enrolado em um lençol de cetim cor de púrpura, gemendo, gritando e entoando profecias, enquanto exalava toda espécie de cheiros e liberava gases que denunciavam as dez últimas refeições.
Preocupadíssimo, inclusive com a possibilidade dos americanos confundirem os abomináveis gases com armas de destruição em massa e invadirem meu apartamento em uma legitima operação de guerra defensiva, desertei e fugi para um verdadeiro campo de refugiados: aluguei um sítio, nem tão longe, nem tão perto, pois continuava decidido a obedecer ao preceito filosófico.
Os dias se passaram tranquilamente, permitindo que retornasse aos meus hábitos de sempre. Porém, o destino parece perseguir os homens de bem e uma tempestade assolou nossa cidade, de sorte que a estrada que levava ao sítio ficou interditada por três meses. Por pura infelicidade, instantes antes da interdição da rodovia, havíamos recebido a primeira visita de D. Gertrudes à nossa nova casa. Era a primeira, em três semanas. Teria uma duração curta, efêmera, uma ou duas horas, somente. Depois seria só felicidade e sossego. Agora tudo parecia perdido. Três meses. Noventa e um dias. Duas mil, cento e oitenta e quatro horas. Milhões de segundos.... Era totalmente insuportável. A angústia invadiu minha alma. Meus olhos dilataram-se. A boca secou. Os pelos eriçaram. O coração bateu mais e mais rápido. As pernas bambearam. Caí.
Algum tempo depois, passei a escutar vozes distantes, murmurando palavras até então incompreensíveis. Sentia que as pessoas estavam à minha volta, mas não podia vê-las. Aos poucos os sons me pareciam familiares. Sim, eu bem escutava minha esposa. Ela estava contando para sua melhor amiga que logo após o meu desmaio, que na verdade decorreu de um súbito ataque cardíaco, fui resgatado por um helicóptero do Corpo de Bombeiros. No momento do embarque, minha solidária sogra fez questão de acompanhar-me. Mal havíamos decolado a desesperada mulher começou a gritar e pedir que voltassem, pois tinha medo de altura. Esperneou tanto que o piloto perdeu o controle da aeronave e caímos em cima de uma montanha de lixo.
Agora, eu, que tanto me preocupei em morar longe de minha sogra, acabo de descobrir que dela me avizinhei por toda a eternidade, pois as vozes que escuto são das pessoas que estão em nosso velório e que, além de tudo lamentam: há só um túmulo para enterrar os dois defuntos.
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