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Cronicas-->O Muro e a Liberdade -- 20/11/2007 - 11:01 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
O muro e a liberdade

Guido Ernani Kuhn (*)

Já se passaram 18 anos desde que caiu o muro de Berlim, no dia 9 de novembro de 1989. Foi uma divisória absurda, que começou em agosto de 1961 e se estendeu por mais de 28 anos. Os berlinenses foram dormir no dia 13, sem desconfiar de nada, e na manhã seguinte acordaram com aquela cerca maluca de 119 quilómetros de extensão, cercando Berlim Ocidental, a parte livre que ficou encravada na Alemanha Oriental, com arame farpado, torres de vigia e cães de guarda, segurança que em curto prazo foi substituída por um muro compacto de três metros e meio de altura. Não foi apenas uma muralha, mas uma dura e definitiva separação entre compatriotas, inclusive irmãos de sangue, até pais e filhos. Desdenhando o risco e tentando cruzar aquela linha, muita gente ali morreu impiedosamente.

Em 1986, ano em que o muro comemorava o seu nada honroso jubileu de prata, vi pessoalmente aquela coisa tola, podendo até mesmo atravessá-la como turista. O ónibus foi parado no portão e fiscalizado por dentro, por fora, por cima e por baixo, com checagem de documentos, mil perguntas e duas mil desconfianças. O càmbio era um absurdo: o marco ocidental valia três ou quatro vezes mais que o oriental, mas eles trocavam um por um. O trajeto estava determinado, inclusive o restaurante em que deveríamos almoçar naquele domingo gélido de inverno. Ali havia só turistas, e os garçons não respondiam nenhuma pergunta que não fosse sobre a comida. Raras pessoas na rua passavam ao largo, rapidamente, sabendo-se vigiadas e evitando os turistas.

Se em Berlim Oriental não se podia saber nada de ninguém, do lado ocidental, por mais que tenha procurado e por mais absurda que parecesse a situação, não foi possível encontrar alguém que sequer admitisse a hipótese de esse muro poder um dia cair, muito menos de as duas Alemanhas poderem voltar a ser uma só. Pois não demorou mais que três anos para que a muralha viesse abaixo, pela fúria de um povo oprimido, que rompeu os grilhões, venceu o medo e partiu para a liberdade. O regime soviético degringolou por inteiro, levando muitos ingênuos a acreditar que o mundo teria paz com o festejado fim da guerra fria. Ledo engano.

Mesmo com uma só superpotência no planeta, esta encontrou com quem guerrear: o mundo árabe dos palestinos, dos afegãos, dos iraquianos, de Saddam Hussein e de Bin Laden. O dono do mundo, gloriosamente reeleito nos Estados Unidos, precisava de mercado para a sua fantástica indústria bélica. Até hoje não fala em paz, mas em guerra ao terror e ao eixo do mal. O que é o mal? E quantas torres gêmeas ainda precisarão cair? Lá está ele, não conseguindo sair de mais uma aventura, em que se lançou contra o bom-senso e até contra a advertência da ONU.

Dez anos depois da unificação, voltando àquela região alemã e encontrando um apicultor vendendo o seu mel junto a um posto de combustível, perguntei-lhe sobre a diferença entre a ditadura anterior e a liberdade atual. Ele respondeu que antes não precisava preocupar-se em vender o seu produto, porque o governo comprava tudo, e agora tinha que se virar sozinho. A liberdade só valeria a pena se dela pudesse tirar algum proveito. Mas, pelo que estava vendo, só servira para alimentar o individualismo e destruir o espírito comunitário. A história se parece um pouco com a do passarinho libertado da gaiola. Tendo que buscar sozinho o seu alimento, não o encontra com facilidade, por estar acostumado a receber a papinha pronta. É natural que talvez prefira ficar preso, dividindo a comidinha garantida com os outros passarinhos, mesmo sem a liberdade para voar. Viver era bom, mas voar não era preciso. Não sabendo mais voar, isto nem lhe faz mais falta...

Enquanto isso, entre os alemães ocidentais, que continuam carregando nas costas o peso da unificação, não é difícil encontrar os que lamentam a derrubada do muro. Prefeririam que tivesse ficado dois metros mais alto, como me afirmou um deles, por causa da conta que cada cidadão tinha que ajudar a pagar. Fiquei pensando nisso, procurando compreender a insatisfação de uns e de outros. Uns não sabendo o que fazer com a liberdade, outros onerados com impostos cada vez mais elevados. Devo entender, também, por que tão facilmente os povos subjugados se submetem aos regimes. Conformados e até indolentes, trocam a liberdade pela tutela do Estado. Se fosse possível, votariam eternamente em gratidão por um agrado como a humilhante bolsa-família, para eles melhor que um emprego, onde é preciso trabalhar e há o risco de demissão. Não só em ditaduras, mas até em democracias cambaleantes como a nossa, a cidadania não se exerce e a dominação tem cara de bondade. Continuo pensando nisso e tentando entender, o que não é fácil.


(*) Guido Ernani Kuhn é jornalista e cronista de Gazeta do Sul

Fonte: Gazeta do Sul - Santa Cruz do Sul, RS - 14 11 2007
Site: www.gazetadosul.com.br



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