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Contos-->UMA MÃE CORUJA -- 05/08/2020 - 16:15 (Benedito Generoso da Costa) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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BENEDITO GENEROSO DA COSTA  - 05/08/2020

MAMÃE CORUJA

Entre os caboclos sertanejos corre uma lenda de que a cada sete anos acontece no mundo uma noite tenebrosa, ou seja, uma noite sem lua e nem estrelas, que eles chamam de noite preta. Até parece que as outras noites não são tão pretas, escuras ou negras, como se dizem. Preconceito à parte, tanto a noite como o dia, são minúsculas etapas do tempo, nada mais natural e tão somente isso.
O que esses sertanejos supersticiosos acreditam é que numa noite assim, tão escura, todos têm mais é que dormir e nem sequer abrir uma janela. Algo mais que isso é muito perigoso, até mesmo amaldiçoado por Deus.
O que me intriga é que nenhum caboclo caipira nunca soube precisar o dia, melhor, a noite desse fenômeno extraordinário.
Confesso que fui nascido e criado no sertão, de modo que assimilei e, inconscientemente, muitas dessas crendices influenciaram e interferiram em minha vida, tão ferrenhamente, que delas até hoje não consegui me libertar.
O caso que vou narrar a seguir pode até ser tido como um delírio, mas por razões que adiante vou expor, também pode ser considerado de forma diferente. De qualquer maneira, deixo à consideração e ao julgamento do leitor.
O fato é que num determinado dia no meu passado, esse dia amanheceu cinzento e um tanto quanto frio. Dias assim eu detesto. O sol fica encoberto, o céu nublado, nem chove nem molha. Pior ainda se houver aquele ventinho frio. Como eu repudio dias assim.
Lembro-me que era um sábado. Passei o dia todo vestido em meu roupão, bebendo vinho para me aquecer e me entreter. Enfim, a noite chegou.
Minha casa estava iluminada. Com uma taça de vinho na mão, saí para o quintal. Não enxerguei nada. Tudo escuro. Nem o pé de amoreira consegui ver. Virei-me para a rua, nada iluminado. Tudo em volta de mim eram trevas.
Só que não me apavorei. Voltei para dentro de casa e minha gata Sofia estava com os olhos arregalados e arrepiada de medo. Passei as mãos sobre suas costas e ela se acalmou, não antes de dar um miado assustador.
Eu sendo um poeta e escritor, decidi que iria descrever tudo o que estava acontecendo, e que eu não estava entendendo. Abri o computador e comecei a escrever este conto que já estou contando: Que noite escura e esquisita!
De início, nem é preciso dizer que a noite estava tenebrosa, sem Lua e nem estrelas, o céu era um negrume de breu. O mundo todo estava mergulhado em trevas.
Como disse, comecei a descrever o fenômeno do momento, sem estar nada com medo, até pelo efeito do vinho, que me tornara disposto e alegre. Nisso ouvi umas bicadas e arranhadas na janela de meu quarto, enquanto eu tomava mais uma taça de vinho.
Achei que era o vento frio, que eu detestava, e que àquelas horas tardes da noite estava um tanto mais forte, para uma vez mais me atormentar.
Entretanto, eu já estava aquecido pelo calor do vinho que vinha tomando desde a tarde daquele dia que já se tornara noite sem lua e nem estrelas. Eu estava aquecido e a noite jazia escura e medonha. Quem será que quer me visitar, entrando pela minha janela?
Eu não sentia medo, apenas dúvidas se aquilo era real ou delírio sob o efeito da bebida, que não lembrava por quê, comecei a tomar à tarde, antes do anoitecer. Enfim, tomei outra taça de vinho num só gole e decidi abrir a janela de meu quarto.
Qual meu espanto!
Uma coruja se adentrou em meu quarto, batendo suas asas e se esvoaçando pousou no meu ombro esquerdo, enquanto eu recomeçava a escrever e descrevendo o que eu via, em delírios, imaginação ou sonhos, sei lá
O que sei é que a Coruja falou comigo e me disse:
“No mundo falta justiça. Do mundo, sou mãe Coruja”.
“Se é mãe, quem é o seu filho justo”?
Enquanto eu escrevia pretendendo concluir uma ideia que me acabrunhava, a Coruja, abrindo suas asas, pousou sobre minha mesa e me respondeu, dizendo:
Meu filho, inocente e justo, é semelhante aos filhos das mães de todos os animais, inclusive dos tidos como racionais, assim como você.
- Sim concordo, - eu lhe disse. - Todos os filhos são bons e inocentes, pelo menos antes de tomar consciência de quem são seus superiores. Depois desta etapa, eles continuam se achando bons e até melhores. Os maus daí em diante são seus pais, que não mais consideram e, menos ainda, obedecem.
E a coruja me respondeu:
- Como assim? O que quer dizer com isso?
Ah, coruja, não lhe vou responder e sim fazer-lhe perguntas.
- Você já viu gatos ou cachorros sentir falta dos pais ou mães? A eles só interessam quem cuida deles, aliás, os próprios donos e que são humanos.
- Hum, hum, parece certo, mas não explica tudo sobre todos os animais.
- E o que mais explica tudo Coruja?
Com os olhos arregalados a coruja me respondeu:
- Você já viu gatos caçando ratos, ante os olhos tristes da Ratazana?
Piscando aqueles olhos gateados, próprios das mães corujas, ainda perguntou-me desafiando:
- Já viu também cachorros brincando com os porcos ou esses cães maldosos mordendo e estraçalhando os leitões da mãe porca, que acabara de dar à luz a esses seus filhos leitõezinhos?
- Não respondi, apenas baixei a cabeça e comecei a tomar mais uma taça de vinho.
A Corujona me apresentou uma corujinha morta. Disse-me que sua primeira filhinha nasceu viva e quando abriu o bico para o primeiro alimento, veio uma enxurrada que lhe afogou e a matou num instante (para quem não sabe, as corujas vivem em tocas, isto é, em buracos que elas cavam no chão dos campos onde habitam).
- Sabe o porquê de enchentes sobre nosso terreno e que inundam nossas tocas, a ponto de matar ossos filhotes afogados?
Como é de se esperar, calei-me. Tomei rapidamente minha taça de vinho e arrumei minha cama para dormir, mas não consegui me deitar, perguntando aonde estava tudo de minha casa, a Mãe coruja e a minha gata Sofia.
Não vi mais a Mãe coruja. Minha gata Sofia estava vagando pela casa toda arrepiada e miando, na verdade dando um miado alto e outro mais alto ainda, muito estranho.
Lembro-me que deitei e mais nada. Não sei se dormi ou desmaiei.
No dia seguinte acordei-me ressacado da bebedeira de vinho e deprimido com um monte de fantasias em minha cabeça.
Depois de me levantar e tomar um bom banho, descobri que William Shakespeare tinha razão: Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.

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