Usina de Letras
Usina de Letras
46 usuários online

Autor Titulo Nos textos

 

Artigos ( 62137 )

Cartas ( 21334)

Contos (13260)

Cordel (10447)

Cronicas (22529)

Discursos (3238)

Ensaios - (10331)

Erótico (13566)

Frases (50547)

Humor (20019)

Infantil (5415)

Infanto Juvenil (4748)

Letras de Música (5465)

Peça de Teatro (1376)

Poesias (140778)

Redação (3301)

Roteiro de Filme ou Novela (1062)

Teses / Monologos (2435)

Textos Jurídicos (1958)

Textos Religiosos/Sermões (6172)

LEGENDAS

( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )

( ! )- Texto com Comentários

 

Nota Legal

Fale Conosco

 



Aguarde carregando ...
Cronicas-->Reflexões de um bunda-mole -- 03/08/2009 - 10:46 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
SARNEY E EU

Autoria desconhecida

Algumas semanas atrás recebi um email sobre uma manifestação na frente do Congresso Nacional pedindo "Fora Sarney". Na mesma hora fiquei bastante animado. Encaminhei o email para toda a minha lista de contatos e pensei que finalmente as pessoas iriam se indignar e reagir a tanta sujeira.

No dia da manifestação me bateu uma preguiça... Ocorreu que, após um longo dia de trabalho, o cansaço me venceu e o Jornal Naciona já estava começando. Logo pensei: quem iria sentir a minha falta?

No dia seguinte eu procurei, eufórico, nos sites de jornalismo, sobre a tão falada manifestação que foi toda planejada em comunidades virtuais e bastante divulgada pelo twitter. Para a minha surpresa não existia nenhuma manchete, nem ao menos uma nota de rodapé . Resolvi entrar em uma das comunidades do orkut que organizaram a manifestação e, para a surpresa de todos, estava registrado que apenas cinquenta pessoas se dispuseram a ir para a frente do Congresso.

Apenas 50 pessoas? Como acontecera isso se somente eu divulguei para mais de 1000? Que povo mais acomodado, pensei indignado. Porque será que eles não foram??....

Não demorou muito para a ficha cair. Eles não foram pelo mesmo motivo que eu não fui: eu esperava que "alguém" fosse no meu lugar.

Recostei-me na poltrona em frente à televisão e olhei para uma janela que refletia a minha imagem. Fiquei olhando para mim e para a minha confortável inércia. Foi quando, de súbito, eu tive a arrebatadora visão daquilo que sempre procurei e nunca encontrei. Ali estava refletido o meu verdadeiro papel na sociedade. O papel de " bunda-mole"!

E que bunda-mole da melhor qualidade!!!.

Finalmente, depois de tantos anos de crise existencial, pude perceber que eu era uma peça importante na sociedade: o legítimo Bunda-Mole Brasiliense( BMB). Existem bunda- moles municipais e estaduais, mas eu tenho orgulho de dizer que sou um bunda-mole... federal!!

Nas minhas viagens de férias sempre algum engraçadinho vinha falar: "De Brasília né....já tem conta na Suíça?". Eu ficava indignado, falando que eu era um funcionário público concursado, que pagava os meus impostos, enquanto o povo que roubava vinha de fora e blá blá blá.

Mas agora eu vejo com nitidez que eu tenho um papel importante nesse cenário. Eu ,como um legítimo BMB, ajudei a criar esta barreira de proteção que mantém os verdadeiros FDP livres para fazerem o que bem entenderem. Eu acho que as coisas estão bem do jeito que estão. Tenho dinheiro todo mês para pagar a prestação do meu carro 1.0 e do meu apartamento de dois quartos, frequento uma academia para queimar o meu excesso de ociosidade, tenho meu smart phone comprado na feira do Paraguai, e no final do ano ainda vou ficar um mês em uma casa de praia alugada, junto com a minha família ,para a incrível experiência de assarmos batatas na areia... Mais BMB impossível!!

Às sextas-feiras eu me sento com os meus amigos em um barzinho e, depois do terceiro copo de cerveja, soltamos toda a nossa indignação contra a patifaria que rola solta em Brasília. Cada um conta um caso de um amigo próximo que enriqueceu da noite para o dia às custas do dinheiro público ( o difícil é disfarçar aquela pontinha de admiração pelo "ixperto"). Depois passamos a limpo toda a resenha de escàndalos ocorridos durante a semana e logo traçamos os planos para endireitar o país. Planos que, evidentemente, vão embora pelo ralo do mictório antes de pagarmos a conta. Procedimentos irretocáveis para os BMB de carteirinha!!

Os anos passam e as conversas vão mudando. Na verdade, como dizem por aí, a merda é sempre a mesma e deve ser boa, porque as moscas só largam dela quando morrem. PC Farias, anões do orçamento, precatórios, privatizações, dólar na cueca, mensalão, sanguessugas, vampiros, Lulinha Gamecorp, Daniel Dantas, o Dono do Castelo, Petrobrás e, agora, a cereja que caiu do bolo, ele, o único, o inigualável e impoluto Sarney!!

Acontece que Sarney é apenas um dos ícones do atraso nacional (clientelismo, fisiologismo, nepotismo, coronelismo, apropriação da máquina pública, desvio de verbas públicas etc). O que seria do Sarney e tantos outros sem a legitimidade dos BMB´s? O que seria da ilha da fantasia, dos cabides de emprego, dos lobistas, do QI (quem indicou), dos cargos de confiança, dos funcionários fantasmas e dos atos secretos sem a nossa apática presença?

Imaginem se no nosso lugar estivessem aqueles sul-coreanos malucos que iam para a rua protestar partindo pra cima da polícia, ou aqueles jovens em Seattle que furavam um forte esquema de segurança da OMC para protestarem contra a globalização.

O BMB precisa ter o seu papel reconhecido, pois somos nós que deixamos tudo correr frouxo. Somos nós que damos uma cara de democracia a este coronelismo em que vivemos. O nosso poder aquisitivo acima da média nacional protege o Congresso e o Palácio do Planalto , deixando às escondidas os enormes bolsões de miséria e de violência que fervilham em nosso entorno.

É por isso que estou lançando uma nova campanha: "BUNDAS-MOLE, VAMOS EXIGIR OS NOSSOS DIREITOS"!

Precisamos, finalmente, mostrar a nossa cara. Afinal, nunca antes na história deste país o bundamolismo foi tão grande. Seja ele de centro, de esquerda ou de direita. Bundamolismo no movimento estudantil chapa-branca, nos sindicatos que só vão para a frente do Congresso para pedir aumento e nos artistas que se acomodaram no conforto dos patrocínios oficiais, sem esquecer da mídia que ladra mas logo se cala diante da roda da fortuna proporcionada pelo maciço marketing governamental.

Vamos exigir que se crie, em Brasília, o Museu do Bundamolismo Nacional na Esplanada dos Ministérios. Será uma enorme bunda branca de concreto, que irá combinar muito bem com a arquitetura de Niemeyer.

Querem argumentos do por quê exigimos ser valorizados? Pois então aí vai.

Nós, BMB, assistimos de nossas poltronas o Brasil tomar o rumo da mediocridade sem um projeto que possa fazer com que atinja o nível de grande potência. Continua a agir como a eterna colónia.

Metido a dono da bola, mas age como o grandalhão covarde que cede à primeira pressào até dos mais fracos. Os recentes exemplos da Bolíva e do Paraguai não nos deixam mentir. E o Equador? Daqui a pouco vai ser a Argentina(mais uma vez). Logo atrás deve vir o Peru. E se o Chile der uma encrespada, eu vou me esconder. Isto se o Uruguai não exigir indenização pelo tempo que foi "colónia" brasileira- a província cisplatina( ainda se ensina isto na escola?).

Um Brasil que despreza a sua soberania e a cede ao primeiro rosnar. Por exemplo, ficamos assistindo no conforto de nossos "lofts" o Brasil abrir mão de enormes extensóes de terras produtivas em proveito de improdutivas "nações indígenas". Os "patrões" exigiram e nós nem ponderamos.

Brasil que se presta a ser reduto de assassinos e, não satisfeito com os que tem, aqui acolhe calorosamente os condenados de fora.

Somos assim testemunhas do surgimento de uma geração despreparada e acovardada tanto para a cooperação quanto para a competição que caracteriza uma grande potência. Geração sem espírito empreendedor, sem orgulho do seu próprio país (exceto se for em jogo da Seleção de futebol) , sem Cultura, sem Educação( que trata os seus professores em todos os níveis como vermes incómodos). Uma geração que está se tornando alienada e que ficará fadada a permanecer submissa aos interesses ou modismos estrangeiros e escrava de cada "salvador da pátria" de plantão.

Impassíveis, assistimos em nossos computadores, quando estamos fazendo cera no trabalho, o maior atentado à democracia de toda a nossa História, superando a era da ditadura Vargas (da qual os "intelectuais" tupiniquins não falam sobre horrores e torturas então cometidas, por conveniência) e a era da chamada "ditadura militar" (à qual os "intelectuais" brasileiros insistem em atribuir as causas da indecência que assola o país, por conveniência ainda maior).

Desta vez o golpe não está sendo feito nem com cavalos amarrados no Obelisco nem com tanques nas ruas. Está sendo feito por meio da ridicularização e desagregação das Instituições, da banalização dos escàndalos, do estímulo oficial à impunidade, das aplicações de Justiça mediante leilão, da institucionalização do racismo e segregação de classes, da deliberada implosão de valores éticos, morais e cívicos e da idiotização de todos nós.

O nosso movimento de bundamolização é muito mais eficaz do que o autoritarismo. Não precisa fechar congresso nem impor silêncio a Imprensa, muito pelo contráro.

Ele pode ser disseminado por meio eletrónico, através de novelas que incitam a desobediência civil, a desagregação familiar e a prática da esperteza e do estelionato como um dote, de bizarras videocassetadas importadas, de big brothers que estimulam as práticas da promiscuidade, de apologias ao crime e às drogas das músicas "funk" , além de toda essa infindável coleção de criativos cultos picaretas.

Pode ser por meios químicos, com estímulo ao consumo de bebidas alcoólicas utilizando atletas (veja só!), de maconha ou de anti-depressivos.

Pode ser apelativo com o uso político de um càncer para a perpetuação de facções no poder.

Pode ser vulgarizando o nosso idioma mediante o uso de expressões mais cabíveis a moleques de rua (mas que nos fazem achar tudo muito popular).

E também pode ser ideológicamente espalhado, mediante a deturpação de nossa História ao ensinar que os verdadeiros heróis foram vilões e usurpdores ou assassinos agora são mártires; mediante a eliminação dos últimos resquícios de civismo e patriotismo mas estimulando a participação em paradas gay; ou por meio da disseminação de receitas milagrosas e promoção de debates calorosos que sempre podem ser deletados com um simples clicar de mouse.

Nós, Bundas-Mole, podemos nos orgulhar de contribuir para que a nossa sociedade se afogue nos piores exemplos, no culto às mulheres-fruta, mulheres-plantas e personagens medíocres que, de repente, foram promovidos ao status de "celebridades" e hoje arrotam modos de vida bizarros. Nos maus exemplos de ministros que participam de marchas a louvar o consumo de drogas ilegais, de políticos e governantes que se gabam a cada conchavo feito e do corporativismo e da chacota que redundam na inutilidade das CPI.

Também nos orgulhamos de achar a maior graça ao ver ministros da mais alta corte do país trocando baixarias no plenário, ao vivo e a cores. E de aplaudir e gritar "muito bem" quando o nosso presidente sugere ao Procurador-Geral da República que biografia deve servir de perdão para crime de gente importante, como por exemplo a última (last but not least) cereja que caiu do bolo, o nosso querido Sarney.

É este o nosso papel fundamental: ajudar os brasileiros a continuar vivendo em uma sociedade propositadamente anestesiada, chapada, sem rumo, imersa em ilusões baratas e em mentiras que, de tanto serem repetidas, viram verdade para um povo cada vez mais marginalizado e alheio ao que ocorre em todos os escalões da política nacional.

O bundamolismo nos une e não segrega ninguém. É a democracia verdadeira, que brilha por debaixo de uma crosta de hipocrisia e de ignorància. E como toda ideologia que se preza, nós do Movimento dos Bunda-Mole, encontramos o nosso avatar, o nosso guru. Aquele que nos traz para a realidade e mostra quem realmente somos, revela o nosso eu profundo, a nossa essência. Obrigado Sarney, só você para tirar as minhas dúvidas e me mostrar o mundo real por trás das ilusões.

Sarney, nós somos duas faces da mesma moeda. Somos Yin e Yang. Nós somos os pilares deste país. Um não existiria sem o outro. A sua cara de pau só existe porque do outro lado está a minha bundamolice. Mas Sarney, que pena, você acabou sendo o crucificado deste último plantão. Ou, como eu já disse acima, a cereja que caiu do bolo. Azar o seu! Na berlinda poderia estar qualquer outro dessa corja de proporções gigantescas que tomou de assalto a política brasileira e, consequentemente, os rumos (?) deste País.

Bunda-moles de todo o Braisl: uni-vos!

Vamos celebrar a nossa mediocridade e a nossa tolerància. Portanto, vamos sair às ruas gritando: Viva Sarney! Viva Collor! Viva Maluf! Viva Roriz! Viva Renan Calheiros! Viva Jader Barbalho! Viva Romero Jucá! Viva Delúbio! Viva Tarso Genro! Viva o ministro maconheiro ! Viva o Agaciel! Viva o Palloci! Viva a Dilma terrorista e assaltante de bancos! Viva o Zé Dirceu! Viva o Gilmar Mendes! Viva o pessoal do mensalão! Vivam as cuecas! Viva o Daniel Dantas! Viva o Presidente que nunca vê e nem sabe de nada! Vivam todos esses abutres que se banqueteiam com a nossa carniça! Viva a República das Bananas do Brasil!

Mas isso é pedir demais para um Bunda-Mole. Vou é voltar para a minha poltrona porque o Jornal Nacional já vai começar.


Comentarios
O que você achou deste texto?     Nome:     Mail:    
Comente: 
Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui