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Contos-->MIGUEL E O LIVRO -- 06/12/2021 - 10:06 (Roosevelt Vieira Leite) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

MIGUEL E O LIVRO
Por Roosevelt Vieira Leite

“Dizem que a magia foi ensinada pelos anjos. Reis, rainhas, príncipes e princesas tentaram por as mãos nela, mas, diz a tradição que poucos foram os homens que a entenderam, e somente alguns a usaram para o bem do próximo. O grande arcano da magia universal nos diz: A magia é a transformação da matéria por uma vontade forte e lúcida para o bem do seu semelhante”.

O jovem Miguel nasceu e se criou em José Freire. A cidade de José Freire evoluiu da condição de sesmaria para povoação e vila, e logo em seguida, tornou-se cidade por força de um decreto governamental. “De hoje em diante, essa povoação será cidade”. Esta foi a vontade do, então, governador do estado, o Senhor Felipe Moura, em 1923. A suposta emancipação política de José Freire de sua antiga sede, a Grande Itabaiana agradou a muitos, no entanto, José Freire continuou devendo a alma à princesa da Serra. As pessoas de José Freire sentiam orgulho de sua terra, entre elas estava Miguel, filho de dona Amarantes com seu Bartolomeu. Este senhor era um verdadeiro descendente dos colonizadores. Bartolomeu contava para seu filho único os feitos dos antigos: “Aqui nessas terras, os índios dominavam tudo, mas, o bacamarte do colono português falou melhor”. Miguel estudou até a terceira série do ensino fundamental, e seguiu o caminho de seu pai – trabalhador braçal rural. Miguel se sentia muito feliz com a vida que tinha até que um dia o destino levou seus dois velhos: “A vida é cruel”. Pensava o rapaz sempre que se lembrava de seus queridos. A partida brusca dos seus o fez tornar-se um homem triste e de pouca conversa. Miguel era um freirense alto, branco, corpo musculoso, e olhos esverdeados que realçavam seu cabelo castanho claro. Seu finado pai dizia que ele deveria cortá-lo: “Miguel, esse cabelo num é de homem, macho, não, pois, cai toda hora em tua cara”. As moças de José Freire lutavam entre si para ter o rapaz e ele foi quem as teve quando quis, depois, o rapaz mudou o ânimo com a morte de seus pais. De fato, a partida de seus genitores mudou a cabeça do jovem freirense. Houve noites em que Miguel acordava no quintal de sua residência a conversar com o tempo. Poucas não foram as vezes que o mancebo sonhara com moedas de ouro. Todavia, o rapaz não se interessava por essas coisas. Na verdade, o que Miguel queria era viver sua vida do seu jeito – Só.
O tempo, guerreiro implacável, passou; o rapaz se tornou homem e foi morar numa propriedade nas cercanias do chafariz do “Cancelão”. Este era um lugar um tanto deserto tanto de dia como de noite. Miguel gostava de lá, exatamente, por essa causa. O rapaz de seu Bartolomeu adorava as noites de lua cheia na varanda de sua pequena casa quatro águas.
- Miguel, meu filho você num vai casar não? Um homem de sua idade sozinho. Isso num presta. Dona Chiquinha, mulher de seu Rocha, morava numa chácara vizinha a de Miguel; a senhora gostava de sentar em sua calçada às noitinhas.
- Dona Chiquinha, melhor só de que mal acompanhado. O mundo anda louco, ninguém mais merece confiança. Na verdade, o único ser vivo que respeito e confio é minha cadela “Piabeta”. O animal ao ouvir seu nome balançou a calda na horizontal como que concordasse com as assertivas de seu dono e mestre. A senhora de idade não se conformou com o que ouviu e investiu contra o argumento do rapaz.
- Quer dizer que sua pessoa não confia em mim? Ou que não confia no padre Barreto? Ou que não confia nos santos da igreja? Ou que não confia em ninguém mesmo? A senhora aumentou o tom de voz à proporção que os nomes iam lhe aparecendo na mente.
- Não é isso dona Chiquinha, é difícil explicar. Chiquinha o interrompeu subitamente para ouvir o carro de som que passava anunciando o falecimento de alguém: “Tomé, Paulo, Tereza, Dona Francisca e demais familiares anunciam o falecimento de seu Durval, pai, marido e amigo. A família enlutada convida a todos para o seu sepultamento, amanhã, às dez horas, no cemitério local”. Miguel ao ouvir o carro-de-som aproveitou o ensejo para sair de fininho da confrontação de dona Chiquinha, e com ele foi a cadela Piabeta.
- Dona Chiquinha eu conhecia esse homem. Ele morava perto do abatedouro de frango. Eu vou passar lá agora.
- Vá meu filho, depois, volta cá para a gente terminar a prosa. Miguel saiu de fininho, pegou a estrada rumo à cidade, mais na frente, entrou numa cerca e desceu com a cadela branca Piabeta pelo pasto na direção da Barragem, o rapaz dizia: “Essa lua me inspira, eu vou é ver a água do rio que eu ganho mais”. A água da barragem estava quieta, a lâmina de água refletia a cor prata pela força do brilho lunar. Aqui e ali, ouvia-se o barulho de uma tilápia que saltava da água como que quisesse abraçar a lua. Às margens daquela água, quase mineral, havia rochas metamórficas lavadas pelo tempo. Os milênios de formação geológica mais a mão humana deram um desenho inesquecível aquele lugar. Grutas e matas do agreste sergipano completavam sua beleza. O quero-quero rascava o céu aproveitando que o gavião não tinha hábitos noturnos. Nos beiços da barragem, nas suas margens, o freirense construiu seu negócio - Bares, e restaurantes dividiam o espaço com a natureza. Mas, àquela hora da noite daquele dia, não havia uma viva alma, exceto, um homem sertanejo chamado Miguel e sua cadela Piabeta.
A beleza deslumbrante do lugar, a luz da lua e o som do vento forte que vinha das bandas da capital sergipana fez o rapaz recordar dos dias de ouro quando o mesmo pescava com seu pai nas águas límpidas do Rio Vaza-Barris. “Pai olha o que eu pesquei”. Miguel exibia orgulhosamente a traíra que havia pescado. “É assim, mesmo meu filho, o bom pescador num deixa a família com fome”. Aqueles foram dias de luz para todos daquela família. O pequeno Miguel aprendia a educação básica herdada dos pioneiros desbravadores do agreste sergipano. Mais não era só isso; na verdade, era a cumplicidade de um pai e seu filho único no aprendizado das primeiras coisas da vida. Miguel amava seu pai e sua mãe, a partida de ambos deixou um vazio não preenchido em sua alma, por isso, o moço se ‘amuou’ como dizem o povo dessas terras. As lembranças de Miguel foram dispersas pelo som da cadela que latia insistentemente voltada para um arbusto de macambira a alguns metros das pedras lavadas. Era uma parede enorme de pedras que beiravam as águas da velha barragem. “A cachorra cismou” pensou o moço. O rapaz queria continuar com suas doces imagens mnemônicas de sua infância, mas, a Piabeta latia e se virava na direção de seu dono como que querendo dizer alguma coisa. “Calma branquinha, calma!” O moço freirense terminou atendendo ao chamado de seu animal e foi ver o que era. Uma cobra jiboia de pequeno porte engolia quietamente um sapo. “Deixa pra lá Piabeta, deixa!” Disse o moço a sua amiga. A cadela continuou com a cisma contra o anfíbio que se escafedeu pela grota de pedras. Em seu lugar, sobre uma laje coberta de folhas de jurema preta, estava um livro grosso de capa marrom de couro curtido. O rapaz o pegou e o levou consigo ao lugar onde antes estava. O brilho lunar era tão forte que qualquer um de vistas boas poderia ler o livro. “Afinal que livro é esse, e quem o deixou aqui?”. Pensou o rapaz com o livro nas mãos. O misterioso livro tinha um pantáculo geral de Salomão gravado na capa de couro. Esta foi a primeira coisa que lhe chamou a atenção. O rapaz pensou novamente: “Que é isso?” Na capa interna do grimórium havia o desenho sinistro do famoso “Bode de Mendes” com o seguinte dizer: “Solve e depois coagula”. Miguel começou sua leitura às 8 horas da noite daquela segunda feira dia de Saturno. Dizem os mais sabidos que no dia e hora de Saturno os bruxos evocam os espíritos da referida esfera e estes são seres do mal. Quanto mais o rapaz lia o livro, mais a vontade de chegar ao fim da história era forte. O livro era um mistério para Miguel, e isso o prendeu até o brilho da lua fenecer. Quando a escuridão da noite tomou conta do céu, Miguel retornou com o livro para sua residência, mas, encontrou-se no caminho com uma mulher vestida de preto e vermelho que falava com sotaque de cigana. A mulher perguntou ao rapaz se o mesmo desejava uma noite de amor: “O moço deseja a cigana?” “Como senhora?” “A propósito como uma senhora como você se embrenha nestes pastos?” “Perigoso sabia?” A mulher deu uma risada alta e arrumou os cabelos do lado esquerdo e com a outra mão na cintura direita olhou direto nos olhos de Miguel: “Menino, a vida é curta, não perca tempo”. Miguel pôs o livro sobre um toco de mangueira e chegou para mais perto da “Senhora da Noite”. O seu cheiro entrou em suas narinas. A fragrância que irradiava de seus cabelos encheu os pulmões do moço. A mulher era de formosura impar.    Os dois se deitaram na relva baixa do agreste de José Freire. Em certo momento, Miguel percebe que os dois não estão sós. Vozes e gemidos de mulheres são ouvidos pelo moço; o rapaz se ajeita; se recompõe, e deixa a moça deitada ao seu lado enquanto olha para todos os lados. “Mas, o que é isso?” Perguntou Miguel a sua parceira estranha. A mesma diz: “Dentro de uma mulher estão todas”. Miguel se ergue e toma suas roupas consigo. A mulher o fita mais uma vez e como que por um passe de mágica a “Senhora da Noite se multiplica em sete outras mulheres, todas diferentes da outra e com beleza sem igual. As mulheres investem no rapaz que sede aos encantos das meninas sinistras. A orgia continua até as doze horas da noite de Saturno. O rapaz não se recorda de como chegou a sua casa, apenas, tem a consciência de voltar à leitura do livro nas primeiras horas da terça feira, dia de Marte. Miguel, ainda tonto e confuso com a noite que teve e sem saber como chegara a sua residência, e quem foi que o trouxe, retoma, mesmo sem comer nada forte a leitura do Grimórium de Gottam. Piabeta não parava de latir; a cadela amada de seu dono não saia de perto dele e quando Miguel se levantava para ir ao banheiro ou beber água ou tomar um cafezinho, o animal investia contra o livro estranho. “Quieta Piabeta!” “Quieta!” “Cismou foi?” “É só um livro”. O sono não veio, o dia era claro, e Miguel concluía sua primeira leitura da obra enigmática. “Rapaz, quer dizer que os anjos caíram?” “Quer dizer que meu nome é de um anjo, um dos príncipes do Paraíso?” O livro continha, no final, as seguintes palavras escritas na forma cursiva, e a assinatura do autor: “Eu, conde Jorsse Van Gottam, escrevi esse grimórium com sangue de morcego em pele de cabra virgem, no dia e hora de Mercúrio. Dedico-o a qualquer afortunado que o encontrar, pois, se você o encontrar saiba que foi ele quem te encontrou. O conteúdo dessa obra é para os iniciados e não deve ser passado ao incauto”. A pouca leitura de Miguel não foi problema para decifrar o conteúdo do livro que foi lido e relido por ele diversas vezes na mesma semana. O rapaz perdeu alguns quilos, cerca de dezesseis quilogramas naquela semana. Seu corpo esbelto ficou mais esbelto e seu rosto, sim seu rosto passou a brilhar como sol ao meio dia, no entanto, o jovem Miguel não fazia a menor ideia do que estava acontecendo consigo. Foi numa quarta feira, dia de Júpiter, que ele viu e sentiu que não era mais o mesmo. A comida havia estragado na geladeira, o rapaz foi ao mercadinho comprar alguma coisa, pois, a fome havia decididamente se instalada no moço. Ao chegar ao estabelecimento de seu Peixoto Hora as moças do lugar o olhavam como que embevecidas com sua beleza, seu rosto transmitia além da beleza muita paz, até os homens viram e creram que o jovem homem do Cancelão havia mudado. Todos queriam um dedo de prosa com ele, contudo, Miguel manteve-se como sempre, calado, e afastado do povo. O rapaz retornou para sua residência e dedicou-se a ler o livro. Aquela era a décima sétima leitura do livro sinistro; mas, cada vez que ele lia o Grimórium de Gottam, mais a vontade de ler aumentava. Miguel, então, pensou consigo: “Vou mostrar a alguém, que tal o padre Barreto?” O rapaz foi à casa paroquial onde o referido padre residia. Mostrou-lhe o livro com muito entusiasmo, mas, se deparou com uma coisa que não esperava: “Você sabe holandês Miguel?” Perguntou sua santidade. “Não”. Respondeu o trabalhador braçal rural Miguel. “Que pena”. Continuou o vigário. O livro estava escrito em holandês antigo, todavia, Miguel entendia tudo, e isso lhe atiçou a curiosidade. “Como eu leio o holandês?”
No dia 26 do mês de julho, dia de Nanã Buruquê, Miguel realizou o primeiro conjuro, e o primeiro exorcismo contidos no estranho Grimórium de Gottam. A lua estava de nova para crescente, era lua boa para feitiços positivos.  Miguel adaptou seu quarto para ser uma sala de evocações. Construiu seu triângulo de evocações de acordo com o rito ensinado pelo grimórium, depois, riscou o pentagrama. Miguel evocou as forças do ar, do fogo, das águas, e da terra e Seu pentagrama resplandeceu como a luz do sol na superfície lunar. Contudo, infelizmente, a estrela celeste do Grimórium tinha sua cabeça voltada para o cardeal sul. Em poucos meses, aquele que nada tinha passou a ter; comprou uma casa cara na principal Avenida de José Freire, comprou um carro de luxo, e isso fez o povo falar: “Será que Miguel está vendendo drogas?”. O rapaz não perdia um jogo de bicho nem a quina da loteria, ganhou os prêmios sistematicamente por meses até que se satisfez e disse para si mesmo: “Vou parar um pouco para não chamar a atenção”.
Não se comentava outra coisa em José Freire. Miguel era o assunto do dia. Até as raparigas da avenida perderam a primazia dos comentários locais. Miguel estava na boca de todos.
- Miguel, meu filho que diabo é isso? Disse assustada dona Chiquinha ao encontrar-se com seu antigo vizinho.
- Que diabo o que dona Chiquinha? Eu tive muita sorte.
- Vai ser sortudo assim na casa da peste homem! Tu eras nada e agora parece milionário. Continuou a sexagenária. O rapaz coçou a garganta, segurou, com a mão direita, a genitália e cuspiu na calçada ao dizer: “Deus é bom comigo dona Chiquinha, e sua pessoa precisa de alguma coisa?” A velha vizinha disse, então: “Não senhor, fica com Deus meu filho”.
Nos interiores ou do sertão ou do agreste sergipano é muito comum as pessoas constituírem modelos de vida. Miguel tornou-se um deles. “Miguel não usa jeans, sabia?” “Não, e é rapaz?” “Miguel não frequenta a noite”. “Pois, não é; ele é muito é sabido”. As pessoas passaram a usar o social e a se recolherem cedo. Com isso a violência diminuiu em José Freire, mas, os donos de bar tomaram um grande prejuízo, pois, até os bêbedos haviam parado de beber. Miguel costumava frequentar a missa no final de semana no domingo pela manhã. Essa missa tornou-se a mais frequentada e padre o Barreto agradeceu a Deus pelo que houve com Miguel: “Meus paroquianos, senhores e senhoras, cristãos em geral. Quando Deus faz um milagre, a coisa acontece mesmo, pois, Ele é Deus de grandes coisas, logo sabemos, logo percebemos. A mudança na vida desse senhor Miguel é evidente; ela demonstra a ação do Todo-poderoso”. As pessoas passaram a olhar Miguel como um santo, como alguém verdadeiramente agraciado por Deus. Agora, o homem se tornou um modelo, um paradigma em José Freire. Quando Piabeta faleceu houve uma verdadeira comoção no município. Miguel não entendeu o que houve com sua estimada cadela. Segundo relata o mago freirense, ele encontrou o animal cheio de dentadas de diversos tipos e seus dois olhos arrancados. O povo quando encontrava o então ilustre Miguel lhe dava as condolências pelo falecimento de sua amiga. A admiração pelo mais novo nome bem-sucedido de Freire era visível.
- Num viu, Miguel, Toninho viu? Rapaz, deixa dessas coisas bestas! Veja como Deus mudou a vida dele! É isso; é chamar por Deus e tudo muda! O rapaz olhou pra frente como que visse alguma coisa além da parede amarela parda de seu quarto e disse respondendo a sua genitora.
- É mesmo mãe, é mesmo! O rapaz mudou da água para o vinho! Quando alguém queria explicar alguma coisa, a referência era Miguel. Miguel faz assim, Miguel não faz isso. Miguel faria desse jeito, e isso ele jamais faria. Seja como Miguel, veja o exemplo dele. A cidade de José Freire passou a ser a cidade de “Miguel”. Antes, tudo era da Boa hora, ou de Roque, agora era de Miguel. Farmácia São Miguel, Padaria Miguel de Freire, Pousada Miguel e Amigos, etc. Mas, nem tudo era benção, havia uma classe de pessoas que não engolia essa febre miguelina. Eles eram os políticos locais. “Esse cara está dando trabalho”. O Senhor prefeito de José Freire, numa sexta feira, às quatro da tarde, reúne seus assessores e vereadores aliados; ao mesmo tempo, do outro lado da cidade, a oposição faz o mesmo e com um tom mais revoltado: “Esse filho da peste quem é?” A vida de Miguel passou a ser alvo de várias investigações, mas, nada era encontrado, excerto, o fato de ele ter o hábito de ler todos os dias o mesmo livro e ganhar sucessivamente na loteria e no bicho. Ficou sabido que o padre sabia sobre o livro. A classe política, em fila indiana, se dirigiu a residência paroquial: “Padre Barreto, boa tarde. Estamos pesquisando um nome para ser o cidadão do ano de José Freire. O que o senhor sabe sobre o Miguel?” O velho sacerdote respondeu apenas o que sabia: “Nada que o povo não saiba. Ele é um rapaz sofrido que teve muita sorte”. “E sobre o livro que ele ler, o que senhor tem a dizer?” O velho padre entendeu a malícia dos homens e respondeu o que sabia: “Ele não ler holandês”. A resposta do vigário de José Freire deixou a classe política local de orelhas em pé, afinal, como um semianalfabeto pode ler um livro em holandês, e que livro seria esse? Agora, o foco dos políticos era descobrir a natureza do livro. Mas, sempre tem alguém para dar uma ajudinha. O senhor prefeito de José Freire foi visitado por uma pessoa ilustre – O professor Adalberto. Adalberto era estudioso dos ritos goécios há mais de dez anos, e quando soube do Grimórium procurou seu velho e ilustre amigo:
- Se for o que eu estou pensando, ninguém segura o rapaz!
- Como Adalberto?
- É isso mesmo que sua pessoa ouviu. O portador desse livro tem o poder de Lilith. Ela vai encantá-lo, o livro vai seduzi-lo e se ele se dominar ele será o homem mais poderoso do Agreste.
- Bem, até aqui, sabemos que é um tal grimórium de Jorsse Van Gottam e que está escrito em língua estrangeira. Adalberto se levantou da presença de vossa excelência, acendeu um cigarro e concluiu sua visita dizendo: “De acordo com meus estudos, os grimóriuns procuram bruxos reencarnados e seus intentos é despertá-los na magia dos mesmos”.
Numa segunda feira, dia dos pretos velhos, um senhor de idade avançada, de etnia negra e cabelos brancos como neve, bate à porta de Miguel. O rapaz responde da sacada da casa: “Perdoe”. O velho, com dificuldade levanta a cabeça na direção de Miguel. Seu corpo apoiado numa bengala de madeira de pau-ferro experimenta as mazelas da idade avançada: “Meu filho, desça aqui, quero falar com vossamercê”. Miguel sem entender, obedece ao velho e o recebe no hall de sua casa suntuosa.
- O senhor se lembra da cobra que engolia o sapo no pé da grota onde estava o livro de Gottam? Miguel ficou embaraçado por um instante. Ele ficou atônito em ao ver que alguém o havia visto naquele início de noite.
- O senhor estava lá? Perguntou Miguel em resposta a pergunta do velho. O velho tirou do bolso da camisa branca de algodão um cachimbo de madeira. O acendeu e deu três baforadas para o lado esquerdo.
- Sim, senhor. Eu vi a cobra sumir na pedra. Você viu também, num viu? Miguel continuou sem saber o que dizer e por educação responde ao idoso negro que sim.
- Então, meu filho, todos que leram esse livro sumiram como aquela cobra. O filho sabe para onde ela foi? Miguel um pouco irritado, mas, com a educação que seus pais lhe deu o responde com mais uma pergunta.
- Como vou saber meu senhor?
- Então, meu filho, esse é o caminho dos que fizeram o que o velho Gottam ensinou. O filho tem um cafezinho? Miguel se ergue da cadeira de ferro onde estava e vai pegar café na cozinha para o estranho e esquisito visitante. Ao voltar, o lugar estava vazio, apenas a fumaça do cachimbo e o cheiro de essência de crisântemos enchia o lugar. Miguel meditou nas palavras do velho por sete dias, ao final do período, sentiu náuseas e ânsia de vômito. Na noite deste mesmo dia, Miguel teve um sonho bizarro. O homem que lhe visitara aparece em pé na cabeceira de sua cama. O ancião com voz mansa lhe diz: “Moço, vamos comigo”. Miguel estava sem roupa. O rapaz sente a brisa do vento do agreste soprar em seu rosto e depois ele estava chegando a uma esfera cor de violeta. Saturno é mais um planeta do nosso sistema solar, na verdade, é o segundo maior planeta. O diâmetro de sua linha equatorial é de 120.536 km. A órbita de saturno está localizada entre as órbitas dos planetas Júpiter e Netuno. O planeta lilás tem densidade muito baixa, e ao seu redor existem anéis formados por restos de meteoros e cristais de gelo. Ainda no espaço Miguel viu a certa distancia algumas luas dentre as 60 luas que constituem a totalidade de seus satélites naturais. A princípio, Miguel temeu, pois, nunca vira uma coisa como essa - viajar no espaço. O rapaz não sabia se estava no corpo ou fora dele, pois, a sensação que sentia era de leveza absoluta. O velho que estava com ele lhe confortava sempre e lhe dizia: “Num se preocupe, você não vai cair, pelo menos aqui”. Antes de entrar na zona gravitacional do planeta, Miguel foi alertado pelo ancião que ele sofreria algumas alterações. O rapaz ficou tonto, sentiu náuseas novamente. Segundo seu guia, era um ajuste no períspirito, pois, a atmosfera daquela esfera era muito diferente da terra e seu períspirito precisava de doses maiores de hidrogênio, hélio, metano, amônia, etano, fósforo, e água na forma de vapor. Os dois homens foram descendo pelo lado claro do planeta onde havia uma pequena vila dirigida por antigos babalaôs africanos e todos os que vestiram a roupa fluídica dos velhos sábios. À porta estava o ancião Hórus. Hórus os recebe e os adverte que a visita duraria apenas sete minutos. Miguel andou, viu e ouviu na terra dos “Pretos Velhos”. Ali, gente de todas as partes do mundo faziam terapias intensas para saberem lidar com suas vidas passadas. Muitas pessoas não aceitavam o fato de terem passado, e viviam todos os dias os mesmos traumas que lhes fizeram infelizes. Entre eles estava Jorsse Van Gottam. Após algumas centenas de anos, o velho mago deixara o lado negro da esfera e estava na unidade de terapia intensiva. A sala 05 da unidade de Intensive Care abrigava as mais sofisticadas máquinas já produzidas pelos engenheiros do Astral Crístico. Ali, com muito técnica se reprogramava as mentes debilitadas pelos vícios provocados pelo mau uso da magia, ou a prática da magia negra, mas, isso não aliviava ou atenuava a pena dos transgressores, era apenas a caridade agindo para que surgisse uma oportunidade das pessoas recomeçarem suas vidas sob novo nome, nova forma, e em uma nova realidade. O simulador de realidades era um microprocessador de realidade humanas que fornecia aos técnicos dados sobre uma nova existência na esfera terrestre. No banco de dados desse superprocessador estavam todos os arquétipos da humanidade, e todas as infinitas possibilidades de produção de sentidos. Assim, novas realidades poderiam surgir; realidades com novos desafios, e novas propostas de vida. Miguel viu que o destino das pessoas começava ali. O velho que acompanhava Miguel parou próximo a uma tenda espiritualista. Lá, estava um senhor idoso de cor branca e chapéu de palha. “Oi, amigos, que bom que vieram”. O velho que estava com Miguel perguntou ao homem da tenda se ele podia adotar Miguel:
- É meu filho, as coisas nem sempre são como esperamos. Você sabia que os ventos dessa esfera chegam a dois mil quilômetros por hora, e que a temperatura da matéria planetária chega, na superfície, a 170 graus célsius negativos? Cada esfera tem seu jeito, e assim é com as pessoas.
- Isso, mas, converse com o moço, temos ainda alguns minutos. Miguel recebeu as ondas telepáticas de Pai Tomé. O velho, então, lhe perguntou:
- Que fazes moço?
- Nada.
- Como assim nada?
- É nada mesmo. Hoje, só me ocupo com o estudo do grimórium de Gottam.
- Vocês estuda o livro negro de Gottam?
- Sim, senhor?
- Num teve náuseas, nem ânsia de vomito, não?
- Sim, senhor, mas, logo me acostumei.
- Mas, num era para ter se acostumado.
- Por quê? Questionou o moço.
- É por que esse livro fora consagrado a Deusa lunar chamada Lilith. Ela, no início dos tempos, ensinou a Caim a magia do sêmen, e graças a ela os homens passaram a fazer o mau uso do Fluido Universal. Uriel fez de tudo para fazer o moço Caim mudar de ideia, mas, o homem tornou-se o primeiro mago negro da raça ariana. Miguel continuou apático ao discurso do ancião. No entanto, o velho insistiu:
- Oi, meu filho, jogue o livro no fogo, na hora de Mercúrio e chame pelo Mestre Jesus que o livro te deixará. Caso você insista, o aviso é que o livro te controlará até você ser engolido por ele. O velho se ergueu de onde estava. O ancião trabalhava uma roda de oleiro e fazia vasos de barro e depois os colocava para assar no forno. O guia de Miguel o chama a parte e lhe diz que agora seria preciso ir ao lado negro de planeta Saturno. As esferas possuem inteligências e seres. As inteligências constituem o lado iluminado do planeta e os seres, em sua totalidade, são as criaturas trevosas das esferas celestes, assim disse Salomão, assim é a tradição das ordens ocultas universais.
O lado negro da esfera saturniana tem em seu portal o pentagrama do Bode Mendes. O pentagrama é riscado com a cabeça para baixo, ou seja, para o caos. O portal é de bronze puro com rostos de pessoas em alto relevo. Dizem que cada bruxo negro tem seu rosto gravado no portal. Todas as madrugadas, os guardiões fazem a ronda pelo extenso vale do Umbral de Saturno. No vale existem cavernas e cada uma conta uma história da terra. Miguel ouvia gemidos e ranger de dentes. As pessoas eram torturadas por seus próprios pensamentos, e sentiam agonias indizíveis. “O Universo é mental meu filho”. Disse o velho ao seu protegido. “Como assim, moço?” O pensamento precede a matéria, e esta nada mais é de que sua magia. As pessoas chegam aqui para lidarem com as formas mentais que produziram, e delas devem se livrar. O velho, então, disse: “Dê uma volta, e veja com seus olhos”. Miguel seguiu uma trilha que dava numa caverna iluminada. O combustível das lamparinas era feito de gordura humana. Por todo o extenso vale, lobos comiam os cadáveres espalhados neles. E isso se repetia a cada sete horas. Quando um lobo não comia a carne de alguém era porque a própria pessoa se comia. Miguel em seu percurso até a caverna iluminada viu muitas cenas como essa – alguém se comendo e gemendo de dores e sempre repetindo a mesma coisa: “Oi, meu Deus que sofrimento, ui, ui, ui”.
A caverna era sinistra, embora iluminada; em seu interior tinha uma cama de pedra negra coberta com lençóis feitos de pele humana. O cheiro de enxofre enchia o lugar. Ao lado da cama havia uma senhora que respondia pelo nome de Dona Verônica. A mulher vestia-se de trapos e não tinha roupas íntimas; seu órgão sexual era exposto, e dele escorria uma secreção repugnante. A mulher, ao ver o bruxo de José Freire o saudou com um grito que fez as pedras dos montes correrem colina a baixo; a poeira ofuscou por alguns segundos a visão do mancebo. “Você veio moço, faz tempo que não te vejo, desde aquela noite na beira da barragem”. “Como assim, senhora, eu não a vi lá”. A senhora Verônica deu uma gargalhada peculiar às entidades atrasadas que baixam em terreiros espalhados pelo mundo a fora. “Eu era a cobra; e eu deixei você em paz com seu livro”. Miguel quando escuta a palavra livro engole sua saliva e diz: “Meu livro não, mas, devo confessar, ele tem sido de grande serventia; melhorei e cresci financeiramente; as pessoas me adoram; você precisa ver”. Como que de súbito, Miguel acorda em sua cama. A janela de seu quarto estava aberta e no teto do mesmo os morcegos fizeram seus leitos.
Desse dia em diante Miguel realizou todos os feitiços do Grimórium de Gottam e se tornou um homem bilionário. Não havia em Sergipe homem mais rico que Miguel. Os políticos, mesmo sem gostarem dele, o bajulava e Miguel lhes dava dinheiro para suas campanhas. Para todos os fins, Miguel era o homem do ano em qualquer lugar nas terras dos Tupiniquins. Mas, isso não foi tudo. O dinheiro deu poder, prestígio, fama e outras coisas, mas não lhe deu a paz e a sanidade, e nem o verdadeiro amor das mulheres. O rapaz definhava aos poucos, mesmo sem o perceber. Certo dia, ele se deu conta que repetia a seguinte sentença: “Oi, meu Deus que sofrimento, ui, ui, ui”. Devido a estas coisas, o rapaz decidiu fazer o feitiço final do grimórium de Gottam – O exorcismo dos seres de Saturno. Segundo o livro, na página 177, aquele que evocar as forças de Saturno terá o poder sobre as demais esferas inclusive a lunar e a solar. Segundo, o sábio Salomão, Saturno não se dá nem com o sol, nem com a lua, e quem dominar os dois, dominará o Universo e porá seu trono no mais alto lugar. O feitiço seria feito num sábado de lua cheia, às 21 horas, voltado para o cardeal sul. Miguel não trabalhava no círculo mágico; o rapaz só tinha o pentagrama dos magos goécios. Miguel traçou um triângulo de evocação e fez sobre ele todos os conjuros. Pôs as ervas apropriadas juntamente com o pantáculo de Barfomet, e queimou os perfumes adequados, depois, de posse de sua espada mágica iniciou o grande conjuro ensinado por Jorsse Van Gottam. O mesmo é como segue:

“Por Lúcifer, por Satã, por Barfomet, por todas as legiões do inferno acordem criaturas saturnianas; eu vos conjuro a virem até mim, e vos comando a fazerem tudo que eu quero. Eu, Miguel, rompi com o homem do Gólgota, e vos consagro este mundo que hora nasce pela força de meu mestre Jorsse Van Gottam”. Uma bola de fogo entrou na sala; ela vinha do cardeal sul. De dentro da bola ígnea saiu um menino de oito anos. A criança falava todas as línguas do mundo e isso fascinou a Miguel.
- Quem é você?
- Os anjos caíram e me seguem.
- Quem é você, menino? A criança estendeu suas mãos na direção do pentagrama. As mesmas entraram em combustão, mas, não se consumiam. Miguel, então, viu na luz astral. O rapaz viu as nações da terra; os povos de todos os lugares, e as mais diversas religiosidades. O menino era adorado em tudo, e suas vontades eram feitas de todas as formas. O menino disse, finalmente: “Somente o Cordeiro de Deus resistiu ao meu livro, mesmo sendo tentado de todas as formas”.
- Quem é o cordeiro? Perguntou Miguel assustado.
- Deixa pra lá. Ajoelhe-se e diga meu nome vagarosamente: Barfomet. De dentro da esfera de fogo, saíram sete mulheres nuas, suas vaginas roncavam como quem dorme. Barfomet some como uma névoa, e nada diz e nada faz, e com ele foi a bola de fogo; as mulheres ficam com o novo iniciado do baixo astral. Dona Verônica apresenta-se ao rapaz em toda sua beleza. E a beleza da mulher era irresistível a qualquer homem viril. As damas e a Verônica iniciam a orgia festival cuja finalidade era colher o sêmen do rapaz. O rapaz ejaculou tanto que houve sêmen bastante para encher as oito taças. Cada mulher bebeu sua taça e engravidou do rapaz. O parto foi imediato, exceto Verônica que aguardava tudo em silencio. Das mulheres saíram crianças, umas do sexo masculino, outras do sexo feminino. As crianças nasceram na mesma hora do mesmo dia e todas eram pequenos capetinhas com um tridente na mão. Verônica se aproxima de Miguel; a bela moça diz para o rapaz que o desejo de tê-lo excede a tudo. Pois, uma alma custa o preço do mundo. No mesmo tempo as outras meninas se dissolveram como fumaça deixando sua prole para trás. Verônica deita-se na posição de coito. Miguel se aproxima da mulher e se ajoelha, lentamente introduz sua cabeça em seu órgão, depois os ombros; a mulher de gemia de prazer e dizia as palavras mais doces do mundo. O órgão da mulher engole os pés do rapaz e a escuridão toma conta do quarto. Os morcegos se agitam e dão voos rasantes pelo quarto. Os cães da vizinhança latem e uivam com muita empolgação. Verônica se levanta, se lava e veste sua roupa. Ninguém mais havia no quarto, Miguel havia sido engolido por ela, e ela se preparava para ir embora. “Mas, pera ai, eu sou um espírito, como preciso me preparar?” Verônica sabia que sua realidade era puramente mental, mas, agia como se estivesse no mundo das formas. A moça se olhou no espelho e se alegrou com o seu rosto. Verônica desiste de ir embora e dorme na cama de Miguel. No outro dia, às 8 da manhã, a mulher se levanta, se lava, faz o café, liga o radio, e se senta a mesa para comer. O radio dizia: “Miguel, o bilionário de José Freire será homenageado no dia 7 de julho do corrente ano. A homenagem diz respeito ao mundo dos negócios”. Verônica chora a morte do rapaz, mas, agradece estar no mundo novamente.

As pessoas de José Freire notaram a mulher que estava na casa de Miguel. Algumas senhoras diziam: “É uma coisa errada trazer uma mulher para dentro de casa sem casar, mas, Miguel é tão bonzinho”. Outras eram mais duras e diziam: “É uma falta de respeito, onde já se viu”. Havia também as pessoas curiosas: “Quem é mesmo?”, “É o que dele?”. Mas, tinha mais um tipo de gente que gostava de ver os homens por cima: “Cabra macho, tá se aproveitando hein.” O fato é que a mulher precisava ser abordada, senão o povo morreria de curiosidade:

- Oi moça, tá perdida? Perguntou um rapaz que respondia pelo nome de Jeroboão.
- Sabe que estou mesma! Disse em tom de riso a moça Verônica. Então, o moço moreno claro, olhos castanhos claros e feição europeia, e de altura média continua:
- Quer ir para onde?
- Quero ir para um lugar tranquilo. Disse Verônica.
- Vamos para a roça de meu pai. Propôs Jeroboão.
- Vamos. A roça do pai do rapaz era próxima do centro da cidade, Em 10 minutos de moto os dois chegaram. A pequena casa quatro águas estava arrumadinha. Os poucos móveis causavam a impressão que o lugar era grande. Próximo da parede que dá para o poente havia um sofá. O casal foi para lá. Verônica se deitou no sofá e Jeroboão com ela. Enquanto os dois conversavam ouve-se o barulho de vozes que saiam de dentro das paredes da casa. Eram vozes de homens e mulheres. O casal percebe e sai em busca de uma explicação. Nenhuma explicação foi encontrada, e as vozes ficavam mais fortes. Os dois passaram a dizer a mesma coisa e o que diziam era sempre o mesmo: “Solve e coagula meu bode”. De súbito, as vozes saíram das paredes em forma humana e foram ter com o casal. Eram quatorze pessoas, 7 moças e 7 rapazes viris. A orgia varou as horas. Todo o sêmen derrabado foi ingerido por Verônica. A moça Verônica, então teve ânsias de vômito e náuseas e vomitou Miguel. Miguel sai são e salvo das entranhas de Verônica e com ele seguem sete legiões saturnianas. Miguel acorda de seu transe soado e com o coração acelerado. O transe foi muito real e assustador. O rapaz não tinha respostas para o que vira e sentira. A vida de Miguel estava mudando, mas, o mesmo não via.

Os políticos de José Freire e de outros lugares tinham medo do rapaz devido o seu poder financeiro. Por isso tramavam contra ele e faziam de tudo, inclusive feitiços de magia negra para o rapaz não desejar a vida pública. Miguel sentiu uma profunda tristeza ao ver de perto a verdadeira face das pessoas, e de sua terra. A pobreza era encoberta por festas e orgias financiadas com dinheiro público. O povo não se encontrava em sua própria cidade. Miguel chorou por três dias e três noites até que decidiu doar parte do que tinha aos pobres de José Freire.

- Miguel comprou dez carretas de alimento para dar aos pobres. Juvenal, quem diria que o filho de Amarantes ia ser esse homem bom.
- Os pais dele eu conheci; eles eram gente boa.
- E era; eu num sabia não. Tá o pai tá o filho. O Miguel deu comida aos pobres de José Freire, deu remédios, criou algumas instituições como a Casa Miguel dos Anjos que oferecia medicina clínica e ambulatorial a classe pobre.
Miguel foi homenageado como o cidadão do ano de José Freire por várias vezes, mas, esta última foi a gota d’água. As rádios locais e de Itabaiana cobriram o evento que tinha como foco maior a estranha figura de um “João Ninguém” que misteriosamente tornou-se a pessoa pública mais prestigiada naquelas bandas do agreste sergipano. Mas, enquanto o rapaz recebia a bajulação do povo, sua residência era invadida por correligionários de vossa excelência: “Eu quero o maldito livro”. Acharam o livro de Miguel, o mesmo estava dentro de seu guarda-roupas, debaixo do terno que fora de seu finado pai. “Olha aí, deve ser esse o livro”. Frederico, um jovem negro freirense estendeu a mão direita para apanhar o Grimórium Mágico, quando as pontas de seus dedos o tocam, o mesmo se transforma num boca e morde a mão do rapaz; o livro flutua no ar ao sair do guarda-roupas. As pessoas que acompanham a Frederico saem em busca dele, e este se defende como sabe. O livro virou uma cobra jiboia, depois, o livro se transformou num rosto de criança, depois, o livro criou pernas e pulava pela casa inteira, e as pessoas corriam desesperadas para pega-lo, até que o Grimórium se enfureceu com a insistência dos homens, e partiu para o ataque. De seu interior saiam vozes de conjuros em diversas línguas; dardos venenosos que antes eram palavras feriram dois dos homens que acompanhavam o rapaz; estes morreram no local. No outro dia, não se falava em outra coisa: “Miguel é um bruxo”. As pessoas comentavam o ocorrido nas ruas e poucas avenidas da cidade. Alguns políticos foram a radio lamentar a morte dos dois cidadãos freirenses. “Isso é um absurdo”. Ninguém questionava o fato racionalmente; as pessoas diziam o que pensavam e não queriam saber o real valor das coisas. “Eu sabia que tanto dinheiro assim era coisa suja”. “Nunca vi pobre enricar pelo bem”. “Ele teve o que merece agora todo mundo sabe do seu segredo”. “Eu num ligo não, hoje, em dia quem manda no mundo é o dinheiro, e se ele o tem bom pra ele”. “O rapaz era gente boa”. “Que nada, ele é um verme que fez pacto com o satanás”. Padre Barreto, em sua missa dominical, afiou seu discurso segundo a homilética da razão pura: “Nada fica escondido aos olhos de Deus”. O prefeito lamentou o ocorrido: “Esse rapaz daria certo”.

José Freire demorou a voltar à vida cotidiana. Não se falava outra coisa, todos queriam falar do bruxo filho da terra. Miguel se escondeu em casa com medo de sair na rua. Contudo, continuou dando aos pobres o pão precioso, o remédio sagrado, a ajuda financeira, e continuou a ganhar dinheiro. Um dia, o rapaz se cansou de tudo isso: “Eu dou tudo pra essa gente e ninguém me reconhece”.
Miguel comprou uma corda nova para se matar às 6 da tarde de uma segunda feira, dia de Saturno. Amarrou a corda na escadaria de sua casa, e preparou-se para dar fim a sua triste vida. O livro estava aberto nos conjuros dos seres de Saturno cujo anjo guardião é Cassiel. Miguel fez o conjuro em seu pentagrama voltado para o cardeal Norte. Fez todo o ritual e se despediu do mundo. Enquanto seu corpo balançava na corda o rapaz sentia que duas pessoas se aproximavam dele. A primeira era dona Amarantes, a segunda, seu pai, seu Bartolomeu. A visão dos dois lhe encheu a alma de paz.
- Que fazes meu filho? Disse as duas vozes uníssonas. Miguel os reponde com voz sufocada: “Eu quero sair desse mundo”. “Oi, meu Deus que sofrimento, ui, ui, ui”.
- Mas, essa não é a hora. Miguel lhes diz que não suportava mais ver tanta coisa triste. Seus pais lhe dizem que o mundo é desse jeito, mas, que valia a pena viver um pouco mais. Miguel se cala por um instante, contudo, o peso de seu corpo trabalha contra ele. A corda o sufoca mortalmente; seu corpo antes trêmulo se entrega a inércia.  O livro se move sozinho, toma a forma de uma boca, e engole o rapaz por inteiro.
Muitos anos passaram; o povo nem mais comentava sobre Miguel, certo dia, um mancebo cujo nome era Gabriel da Luz andava pelas bandas da barragem por entre as juremas e macambiras. O rapaz encontrou um livro que tinha como autor o conde Jorsse Van Gottam. Ele levou o livro consigo. Um velho pescador que estava por lá viu a tudo e chorou de rosto voltado para as águas cristalinas da antiga barragem de José Freire...

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