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Contos-->MARIA E ROSENTHAL -- 10/05/2024 - 09:52 (Roosevelt Vieira Leite) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

MARIA E ROSENTHAL

POR ROOSEVELT VIEIRA LEITE

 

Maria estava muito feliz porque fora visitar sua mãe no povoado Riacho Fundo no município de Tobias Barreto. A senhora idosa de noventa anos muito se emocionou ao ver a filha bem. Maria era a casula de sete irmãos e morava em Aracaju Sergipe. Maria teve sua educação em Campos. Campos é o verdadeiro nome de Tobias Barreto. Maria estudou pedagogia no Colégio Monsenhor Basilício Raposo e em seguida fez o concurso para a prefeitura de Aracaju. Logo a moça foi morar com seu marido no bairro Siqueira Campos e trabalhar como professora na Escola Municipal Frei Neto.

Maria a tempos que não via sua mãe. Ver a mãe despertou-lhe lembranças muito vivas de sua infância e adolescência no povoado. Maria foi aluna do ilustre mestre professor Rosenthal. Na época da escola ela se destacou como aluna porque sempre estava ao lado do mestre com as mais diversas perguntas. Dele ela ouviu muitas histórias que influenciaram sua vida. Certa feita, no horário de descanso ela se aproximou do mestre com a seguinte pergunta: “Professor o que é conhecer?” Rosenthal parou de fazer o que estava a fazer, coçou a barba olhando para moça de quinze anos e disse: “Deixa eu te contar uma história”:

Nos anos de seca, havia em Campos um homem chamado Eusébio. Este desconfiava de tudo e de todos. Para Eusébio as coisas sempre podiam ter uma outra explicação. Eusébio trabalhava para a prefeitura e viajava muito para os povoados do município. Certa feita ele foi ao povoado Pedra de Amolar. Ali, estava acontecendo coisas muito estranhas. Parecia que as crianças estavam nascendo sem cérebro. As crianças iam para a escola, estudavam, e tinham uma enorme dificuldade para aprender o que lhes era ensinado. Eusébio, então, resolveu investigar a causa do problema. Para a população a causa era a falta de água. O povoado sofria muito com a escarces do líquido precioso. Eusébio viu que isso não era suficiente para elucidar os fatos. Algumas pessoas diziam que o problema era o casamento entre primos que era muito frequente na comunidade. Eusébio viu que isso também não era o bastante para esclarecer o fenômeno. Padre Tenório acreditava que tudo era um sinal de Deus por causa dos pecados do povo. Eusébio também viu que a tese religiosa não se sustentava. Então, Eusébio reuniu a comunidade para discutir o problema. A reunião foi no centro comunitário do povoado. A reunião contou com a presença de sua excelência o prefeito de Campos. Após o discurso da autoridade máxima do município cada um contava o que achava do problema. Uma senhora gorda, de altura média que atendia pelo nome de Antônia contou sobre o dia em que ela teve sua criança: “Parecia que o céu estava se abrindo. A dor foi tanta que a criança demorou a chorar”.  Uma senhora afrodescendente alegava que tudo aquilo ocorria por causa da escravidão. “ Campos está pagando os anos de cativeiro do povo negro”. Um rapaz muito simpático disse que o problema era porque Pedra de Amolar estava alinhada com a constelação de Orion e isso alterou o DNA das pessoas. Todos tiveram oportunidade de externar sua opinião, no entanto, havia um homem que contou uma esquisita história. Ele disse que a explicação estava na caverna da caveira. E que lá a explicação seria encontrada. Eusébio ouviu a todos com atenção, mas, a caverna da caveira lhe chamou muito a atenção. Então, Eusébio decide investigar o lugar.

Foi em uma segunda-feira que o jovem Eusébio viaja para o alto da serra da Pedra de Amolar. Ele decidiu ir sozinho, pois dizia para si que era melhor de que se preocupar com a segurança das pessoas. A serra não era alta, todavia, sua subida era muito íngreme, cheia de pedras e rochas pontiagudas. As cobras estavam por todo o lugar. Os pés de mandacaru reinavam por toda a paisagem. Eusébio, com muito esforço chega até o local onde ficava a boca da caverna. Esta era muito estreita e de muito difícil acesso.

Maria ficou curiosa com a história, no entanto, não via relação alguma com a teoria do conhecimento. A moça não entendia o porquê que as pessoas estavam sem usar o órgão cognitivo. Ela, então, pergunta ao mestre o que é que ele quer realmente dizer. Rosenthal olha pela janela da sala dos professores, coça a barba e lhe diz: “Filha, medita na história que eu estou a contar”:

A caverna da caveira tinha uma entrada muito estreita. Para Eusébio entrar foi preciso se deitar e se arrastar pela abertura até uma pequena sala que ficava logo de imediato a entrada. A sala que não era grande tinha estalactites muitas e enchia o espaço todo ao ponto de Eusébio passar por entre elas se esquivando das rochas pontiagudas. Era, de fato, um lugar difícil de se explorar. A primeira sala tinha uma outra passagem estreita que dava acesso a uma outra sala. Os morcegos e cobras venenosas eram muitas. Nas paredes havia pinturas de arte rupestre. Homens e animais dividiam a imagem pictórica. A imagem mais expressiva era a de um homem que segurava a própria cabeça. Eusébio com bastante esforço chega à segunda sala. Na segunda sala, as estalactites eram em menor quantidade. O espaço era mais amplo e mais pinturas de animais e árvores e seres humanos todos sem cabeça. Eusébio parou um pouco para refletir. Sentou-se sobre uma rocha e meditou sobre o que estava a ver. Por que as pessoas foram pintadas sem cabeça? O que os ancestrais de Pedra de Amolar querem dizer? Essas foram as questões levantadas pelo rapaz. Eusébio encontra água na segunda sala. A água era doce que nem mel. Água de boa qualidade. Eusébio bebe a água e se sente fortalecido para continuar sua exploração. A água vinha de uma outra sala. Para chegar lá era preciso entrar na água e mergulhar, pois, a passagem estava submersa. Eusébio respira e entra no pequeno riacho submerso e chega a terceira sala. Esta era repleta de ossos humanos e crânios velhos. A quantidade era tanta que Eusébio precisou pisar sobre eles. Nas paredes mais arte rupestre, desta feita um desenho de uma aldeia. No desenho as pessoas estavam no arraial da aldeia e os homens seguravam as cabeças decapitadas das crianças. Havia um homem e sete crianças sem cabeças todos em torno de uma fogueira. Um fino raio de sol vinha de algum lugar lá de cima. Mais uma vez Eusébio senta-se para apreciar a arte dos antigos. O raio de sol incidia sobre o desenho.

Maria mais uma vez interrompe o mestre para lhe perguntar sobre as crianças sem cabeças: “O professor quer dizer que a causa de não conhecermos é porque não usamos bem nossas faculdades cognitivas?” Rosenthal dá um sorriso e acrescenta que não era só isto. “O conhecimento precisa de um método de obtenção, pois, ele não é uma intuição da alma. Ouça o resto da história”:

 Eusébio percebeu que as figuras do desenho se moviam como se estivessem vivas. Em um momento alguém colocava sua cabeça no lugar e em outro a própria pessoa segurava sua cabeça com as mãos. As crianças brincavam ao redor do fogo, e mesmo sem cabeça pareciam que estavam felizes. O sol dava vida as imagens. Eusébio explora o lugar a fim de encontrar uma outra passagem, contudo, parecia que a caverna terminava ali. O rapaz disse para si mesmo: “É só isto?” Eusébio volta a apreciar as figuras do desenho. Entre elas havia uma que era a de um índio atirando com seu arco e flecha. A flecha apontava para a parede situada na posição oposta ao raio de sol. Eusébio tem um insight e vai verificar a parede. Ele percebe que ela tinha uma rachadura, era como se fosse uma porta. Com muito esforço Eusébio move a pedra da parede e logo diante de seus olhos surge uma quarta sala. Esta era muito espaçosa. Na sala havia vários bancos de pedra. E neles estavam sentadas pessoas com um véu branco sobre a cabeça. Eusébio caminha pelos corredores entre os bancos. As pessoas não reagem à sua presença. Bem na frente do salão havia um púlpito de pedra e nele estava um homem também com um véu branco sobre a cabeça. Eusébio se assusta e procura se esconder numa pequena abertura que havia nos fundos do salão. As pessoas imóveis estavam como que aguardassem alguma coisa. De repente ouve-se um rangido de ferro e uma enorme lâmina aparece do nada e decepa as cabeças de todos. As cabeças e os véus caem no corredor e o sangue escorre sobre a pedra fria em forma de banco. Uma voz forte e sisuda ecoa no interior do quarto: “Todos aguardem sua nova cabeça!” Mãos aparecem por todo lado. Cada par de mãos segurava a cabeça de um santo. As cabeças eram colocadas nas pessoas que de repente dizem amém e louvado seja Deus. O homem do púlpito começa a pregar e a cada sentença proferida a congregação dizia amém. Eusébio se espanta com o que via, mas, em silêncio assistia a tudo. Após a pregação, cada pessoa colocava a cabeça de santo enrolada no véu dentro de um saco e desapareciam como sombras no escuro. O quarto ficou vazio, o chão molhado de sangue, era a prova de que Eusébio não estava louco. “Mas, para onde foram as pessoas?” Pensou o rapaz de Campos. Eusébio estranhou a forma como as pessoas se dirigiam a Deus. Elas foram decapitadas e robotizadas. Aquela, segundo ele, era uma fé cega sem a devida apreciação dos fatos teológicos. Eusébio decide ir embora. Ele achou que já havia visto o suficiente. Ele volta para a passagem de onde entrou, contudo, do lado de dentro da sala não havia passagem de volta. “E agora?” Indagou o rapaz.

Maria interrompe novamente o mestre para dizer que a arte e a religião são formas de conhecimento. O objeto do conhecimento é diverso e as formas de produção também. Rosenthal concordou com sua discípula e acrescentou: “O espaço do conhecimento é o espaço da diferença. A filosofia da forma e dos conceitos engessados não são suficientes para abarcar toda a amplitude e diversidade do conhecimento humano”. “Mestre, quem são os filósofos da forma?” Perguntou Maria novamente. Rosenthal parou um pouco para pensar e disse: “Todos os antigos foram filósofos da representação. Está foi uma filosofia metafísica. Quem nos traz a filosofia da diferença é Deleuze”. Veja o fim da história:

Eusébio ficou preso na quarta sala. O rapaz procurou todas as formas de sair, mas, não obteve sucesso. Agora ele fica a meditar sobre tudo que viu e ouviu e começa a refletir sobre as formas que havia visto e conclui que o que ocorre lá em Pedra de Amolar era o reflexo do que ocorre cá embaixo na caverna da caveira. Enquanto Eusébio cogita um beija-flor aparece no recinto e voa pela sala. O rapaz fica admirado com isso e questiona a forma como ele entrou ali. “Será que o que eu vejo é real, ou é apenas uma visão como agora a pouco”. Pensou o rapaz de Campos. O pássaro veio e voou defronte o rosto do rapaz. Eusébio estendeu a mão e ele pousou nela. Admirado Eusébio estende a mão para frente de seu corpo e o pássaro alça voo na direção da parede e desaparece. Eusébio viu a ave atravessar a rocha maciça. Ele caminha na direção da parede e faz o mesmo. Do outro lado havia uma quinta sala. Esta parecia com uma sala de aula. Havia bancos de pedras e crianças sentadas neles como se estivessem na escola. Uma senhora de pedra se apresenta e todos se levantam. A professora então diz: “Hoje vamos estudar a história do Brasil”. A professora discorria sobre os fatos de nossa história, mas, as crianças ficavam, por todo o tempo, indiferentes ao que ela dizia. Então a professora anuncia que eles fariam uma atividade e que os alunos se preparassem. O silêncio era sepulcral. Como na outra sala, uma lâmina enorme e afiada é vista e as crianças foram decapitadas. A professora se põe no corredor da sala e abre a boca bem aberta. De dentro dela saem cabeças de personagens ilustres de nossa história. Cada criança recebe uma cabeça nova. Ao ver isto, Eusébio chora. O homem campense não suportou ver a situação das crianças e tenta fazer alguma coisa, mas, foi em vão, pois os alunos e a professora se desmancham em pó. A cena se repete muitas vezes. Eusébio deseja sair da sala, mas, como na outra, não encontra passagem. Então, no silêncio do lugar, Eusébio medita novamente: “A caverna é viva e ela mostra o que ocorre no povoado”.

Maria para o mestre para dizer o que percebeu: “Conhecer é muito mais que receber conteúdo. O conhecimento exige percepção da realidade”. Rosenthal concorda com a moça e acrescenta: “A percepção busca novos conceitos”. Atente para o fim da história:

Só, na sala, Eusébio se preocupa em arranjar uma forma de sair daquele lugar. O homem faz uma investigação minuciosa do lugar e só encontra pedras e rochas. Eusébio, até então, não havia ficado com medo, mas, devido ao insucesso de sua busca por uma passagem ele se rende ao medo. De repente, em um abrir e fechar de olhos a sala se reorganiza e surge diante dele dois homens de pedra. Os dois começam um diálogo:

- Neste pleito, Afonso, eu ajudo você. Vamos dizer ao povo que você é a diferença. Eu garanto que todos vão abraçar a ideia. Na próxima, você me apoia. Certo?

- É assim que coisa sempre andou. No Brasil, fazer política é repetir a mesma coisa como se fosse algo novo. O povo não está nem aí.

- Rapaz, se agente não agir assim não tem boquinha não. Desde o começo que o sistema se reorganiza e copia os modelos consagrados pela política nacional. Isso se perpetua desde Marechal Deodoro.

- Pois é. Vamos dizer que temos compromisso com a saúde, educação e segurança. O povo só se preocupa com isso.

- Está certo, combinado! Após a conversa os dois homens de pedra viram pó.

Eusébio ficou estarrecido com o que viu. O homem de porte másculo chora como uma criança. Ele viu que o problema das crianças era muito mais sério de que ele pensava. Isto acirrou seu desejo de sair da sala. “E agora como vou sair daqui?” Pensou o cidadão de Campos. As horas se passaram, a solidão no interior da caverna da caveira era grande. A sala se organiza mais uma vez. Desta feita os bancos de pedra se fundem formando o corpo de uma mulher nua. A mulher de pedra se transforma em carne. Ela tinha uns três metros de altura. A mulher se deita no meio da sala e começa um jogo de sedução. Ela chama Eusébio para o coito sexual. Eusébio resiste, mas, a atração que ela exercia era tão grande que o rapaz se aproximou dela, contudo, em vez do ato sexual, ela abri a boca e o engole. Do lado de fora entre mandacarus e pedras a mulher entra em trabalho de parto e pare Eusébio. Eusébio fora da caverna e muito assustado, retorna para casa e permanece calado...

Maria insiste com a pergunta: “Mestre Rosenthal, o que é conhecer?” O mestre, coça mais uma vez sua barba e responde: “É nascer de novo pelo conceituar” ...

 

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