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Contos-->O admirável queijo novo -- 20/09/2001 - 18:17 (Anderson Borba Ciola) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Muito bem. Sou um tolo que se julga capaz de propor alguma discussão filosófica e, desconhecendo completamente o ridículo, também me sinto no direito de reivindicar uma fatia desse bolo intelectualóide chamado literatura.
Faltando-me assunto, destreza e habilidade acabei optando por um tema vil. Sim! o tema mais vil que já inventaram sob a pena da literatura ou das leis da natureza.
Pois assim seja! Quero discursar sobre o conceito de sobrevivência. Mas, deixe-me tomar fôlego...
Repare o quanto quiser no meu despreparo, vaidade e pretensão ao tratar de um tema tão delicado. Se puder me ignore e, se for tão medíocre quanto esse redator, escreva-me considerações lisonjeais. Bah!
Pois bem, muito sabemos que o organismo humano necessita ingerir regularmente uma certa quantidade de vitaminas, amido e, quando a grana dá, um pouco de proteína. Sem isso babau!
No entanto, não sem algum embasamento científico, creio eu que o bom funcionamento da máquina também advém das boas condições do espírito. Assim sendo, além de mandar ver na gororóba, também nos é necessário amar, sonhar, torcer para um time de futebol, apreciar arte ou até ter alguma religião.
Enfim, o homem precisa de ópio. No entanto, historicamente falando, a necessidade de obter amido, proteína e vitamina acaba sempre interferindo na nossa busca pelo “ópio”, e, não raramente, acabamos por privilegiar a primeira em detrimento da segunda.
É certo que o espírito é mais resistente a escassez, pois, não é raro, acaba por se contentar com doses ínfimas da substância. Mal dá pra fazer a cabeça!
Mas o assunto é sobrevivência. Então imagine que você está numa canoa, navegando o rio Amazonas correnteza abaixo. Ao lado das duas margens só há mata, dessas muito densas. A próxima aldeia está a uns quatro dias de viagem, isso se a canoa não virar até lá.
Provisões? A única coisa que você tem para comer é uma fatia de queijo provolone.
É claro, nesse exato momento, você deve estar se lembrando de algum filme em que um avião cai na Cordilheira dos Andes e que, antes de comerem os mortos, os sobreviventes tentam fazer um racionamento de comida, a fim de fazer com que esta dure o maior tempo possível. Na película, cada homem tinha direito a um bombom por dia ou coisa parecida, não é?
Nesse caso você, ainda que esfomeado, partiria sua pequena fatia de provolone em quatro pedaços, uma para cada dia.
Fazendo uma refeição diária, ainda que precariamente, você teria de força e sobriedade suficiente para conduzir a canoa até a aldeia. Enfim, isso daria uma suposta estabilidade ao seu organismo.
Em caso de dúvida, pergunte a algum nutricionista. Eu não perguntei e realmente não faço a menor idéia da veracidade desse conceito. Fecho aspas.
Ao final dos quatro dias da viajem, você chegaria até a aldeia sem ter desfalecido uma só vez.
É claro, jamais passaria pela sua cabeça engolir a fatia de queijo inteira! Seria muita irresponsabilidade, afinal, era necessário ”distribuir a energia” e não concentrá-la. Mais duas justificativas:
1) Com a barriga cheia você poderia ter sono, dormir e perder a direção da canoa.
2) Com a fatia inteira no estômago você poderia ter náuseas com o balançar da canoa, vomitar, desmaiar, etc, etc...
Não perca seu tempo buscando outras alternativas, pois além de representar um esforço inócuo, também prejudicaria o raciocínio que tento desenvolver aqui, desse modo canhestro, é verdade.
Enfim, não haveria a menor possibilidade de você parar a canoa, descer à selva e abater um esquilo a flechadas. Isso seria impossível para um ser educado em grandes centros urbanos.
Como diria um professor de faculdade: “Há de nos ser claro que o bom planejamento sempre gera bons frutos e...”. Só pensando assim você conseguiria conter o ímpeto de engulir o pedaço de queijo de uma vez só.
E assim sendo, você tira um canivete do bolso e tenta cortar o queijo. É uma tarefa difícil, afinal a canoa balança com a correnteza (também é preciso corrigir sua rota de vez em quando, usando as mãos como lemes).
Enfim, você corta um pedaço, dois e, ao terceiro, desajeitado que é com o canivete, corta o dedo! É um corte pequeno, ridículo, mas você grita e dá um sobressalto. Depois leva a mão a boca e sente o gosto do próprio sangue.
E esse gesto freudiano dura alguns minutos. Você nem se lembra mais que aquela mesma mão deveria estar fazendo às vezes de leme, não se atendo ao detalhe de que a canoa toma agora a direção de uma pedra.
A canoa bate na pedra e fica em pedaços. Já o rio, ah! Este está cheio de piranhas!
Certamente você não esperava que as sementes do planejamento e da racionalidade gerassem uma árvore tão ignóbil. Mais o que é essa árvore senão a vida, sem maquiagens, nua na condição de única e, nem por isso menos ignóbil, obra de nosso criador.
“Mas que visão sombria”, me diriam os imbecis de plantão. Então que respondam a questão: não seria preferível que nós fossemos todos uma única parte de um vácuo escuro, total, imóvel, inerte, calado, sem cheiro ou alma? Por acaso seria menos tedioso?
Talvez eu prefira nadar com as piranhas...
É claro que se você tivesse agindo de maneira mais apaixonada, ou seja, ao invés de tentar dividir sua ração para viagem inteira, lhe brotasse à alma um fascínio irresistível pelo sabor do provolone, com suas fibras e sabor defumado, enfim, se você mandasse tudo à merda e colocasse o pedaço inteiro na boca, mastigando lentamente, com um tesão suicida, poderia até ter sobrevivido!
Poderia, mas provavelmente não! Mas e daí? Pelo menos teria tido um último momento de prazer antes da morte!
Enfim, quando tento falar de sobrevivência, é assim! A maior parte de nós, vulgos humanos, preferimos um sofrimento certo a uma felicidade incerta, ou seja, preferimos viver 1000 anos comendo esterco a viver 10 a champanhe e caviar.
O medo da morte nos aterroriza mais que tudo e, em nome desse medo, acabamos por não viver plenamente! E então, o que justificaria isso senão o instinto de sobrevivência?
Voltando ao meu conto canhestro, confesso que tal questão ainda me atormenta: será que vale a pena dividir a ração para que ela dure o tempo da viagem?
E chega!!!!!

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