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Cronicas-->Dominguinhos chegando no céu -- 04/12/2013 - 13:50 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Dominguinhos chegando no céu

 

 Luiz Gustavo Oliveira
 
Campina Grande - 23/07/2013
 
-"Manda chamar São Pedro ai menino", avisa um senhor robusto de passo vagaroso e sorriso tímido ao anjo que o recebe na portaria do céu. E o anjo, tomado pela surpresa do pedido, emenda sem muita convicção. -"São Pedro essa hora está dormindo!"

 

 

E o homem de gestos lentos e voz baixa, com sua sanfona do lado não perde tempo: -"Eu  sabia. Só pode estar dormindo o santo, com tanta seca no Sertão!"

 

 

-"Pois me diga uma coisa, meu filho, onde é que fica aqui o pessoal do forró, do baião, do xote, do xaxado, do pé de serra? E o anjo já irritado já com tanta perguntação, dispara: -"O senhor pegue sua sanfona e entre tocando do mesmo jeito que fez a vida toda e eles vão reconhecer na hora pois pra tocar como o senhor, aqui nunca chegou ninguém."

 

 

E assim, querendo agradar, Seu Domingos aprumou sua velha companheira e emendou sua cantiga mais linda.
 

 

 

Estou de volta pro meu aconchego

 

Trazendo na mala bastante saudade

 

Querendo 

 

Um sorriso sincero, um abraço,

 

Para aliviar meu cansaço

 

E toda essa minha vontade 

 

Que bom, 

 

Poder tá contigo de novo,

 

Roçando o teu corpo e beijando você,

 

Prá mim tu és a estrela mais linda

 

Seus olhos me prendem, fascinam,

 

A paz que eu gosto de ter.

 

É duro, ficar sem você

 

Vez em quando 

 

Parece que falta um pedaço de mim

 

Me alegro na hora de regressar

 

Parece que eu vou mergulhar

 

Na felicidade sem fim

 

 

 
Seus olhos brilhavam, a medida que os amigos de tantos anos iam aparecendo.

 

Veio Jackson com um pandeiro na mão acompanhando a toada. Deu um abraço e disse:  -“Tamo junto. Hoje o côro vai comer" 

 

 

Veio Patativa do Assaré com um maço de papel rabiscado e emendou: -"Não vinha simbora não homem? Olha o tanto de letra pra você botar musica."

 

 

Veio Marinês com uma chinelinha rasteira e não perdeu tempo: -"Até que enfim, Neném! Pensei que tú não vinha mais. Termine logo essa ladainha que eu quero matar a saudade de tocar um xote contigo".

 

 

Addias na sua sanfona de oito baixos rasgava solos de arrepiar as penas dos anjos que se aproximavam pra ver aquela "confusão" que se formava na entrada do céu.

 

 

Um sujeito de uma brancura que doía nos zóio puxou também seu fole que logo Dominguinhos reconheceu. Com uma deferência sanfonada, abraçou o velho amigo: - "Se achegue, mestre Sivuca. Eu lhe disse que a gente ainda se encontrava".

 

 

E assim, tantos outros grandes mestres da musica popular nordestina. Tantos amigos, tantos companheiros desses longos anos de estrada.

 

 

O forró começou e era uma música atrás da outra. -"Eita forró bom como o diabo.", gritou Dominguinhos. Pra quê? Os amigos quase que em coro advertiram: -"Hôme se ajeite no linguajar que você tá no céu. Aqui não se fala no coisa ruim". Dominguinhos deu aquela sua risada macia que lhe é caracteristica. -"Oxe, e é mesmo né? Pois tá combinado."

 

 

Com meia hora de forró, Dominguinhos olhava pra um lado e pro outro como que procurasse alguém que ainda não tinha dado as caras naquela animação. Todos já sabiam de quem se tratava mas como já estava tudo combinado, faziam de tudo pra aumentar  ainda mais o suspense. A esta altura, já faziam parte da plateia em deleite, um milhão de anjos e querubins, Santa Luzia, São Pedro (ainda com uma cara de sono bem dormido) e São João que não podia faltar depois de tantos anos vendo o velho sanfoneiro tocar em suas festas. Até o Todo Poderoso mandou seu filho na frente pra avisar que esperassem ele chegar pra presenciar o grande encontro. Apesar de toda sua onipresença, esse encontro ele fazia questão de ver com os próprios olhos.

 

 

Foi então que, chegando de mansinho por trás, o velho amigo pousa a mão no ombro do sanfoneiro de Garanhuns, que numa alegria que não se via há anos, puxava os versos animados de "Olha! Que isso aqui tá muito bom Isso aqui tá bom demais Olha! Quem tá fora quer  entrar Mas quem tá dentro não sai...

 

 

Dominguinhos não precisou nem virar. Reconheceu o amigo pelo cheiro. Aquele cheiro. Aquele cheiro bom. Aquele cheiro lá das bandas do Exú.

 

 

E nesse instante, o céu se alumiou ainda mais e se cumpriu a Prece a Luiz escrita por Dominguinhos anos atrás e cantada agora entre um longo abraço e lagrimas de saudade e alegria pelo reencontro. 

 

 

 
Prece a Luiz

 

 
Por Dominguinhos

 

 

 
Se Deus me desse outra vida

 

Além dessa que vivo

 

Iria viver de novo pertinho de seu Luiz

 

E aprender outra vez, os segredos da sanfona

 

O canto de amor a terra e esse apego ao chão

 

 

Se Deus me desse outra vida 

 

Gastava ela na estrada

 

Varando noites a fio

 

Fazendo o povo dançar

 

Só queria teus abraços pra descansar da sanfona

 

Depois de nela tocar, o mais bonito baião

 

Pois Asa Branca, na vida triste do povo

 

Para o nordeste alegrar trazendo amor e paixão

 

Légua tirana deixa distante do povo

 

Seca martírio e miséria trás alegria ao sertão

 

Faço uma prece ao Luiz

 

Peço pra me iluminar

 

Que eu não esqueça a raiz do rumo do meu cantar

 

 

 

E as lágrimas que caiam dos olhos de Dominguinhos, do Gonzagão e de todos aqueles que ai estavam carregaram as nuvens do céu e depois de tantos dias, choveu no Sertão do Brasil.

 

 

Leia os textos de Félix Maier acessando:

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Piracema - Nadando contra a corrente (textos mais antigos) - http://felixmaier.blogspot.com/

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