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Cronicas-->Além da Praça da Apoteose -- 03/02/2016 - 22:54 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

Além da Praça da Apoteose

Hamilton Bonat

http://www.bonat.com.br/

Estão chegando ao fim os meus carnavais. Será o epílogo de uma relação, sem choros nem ais. Nunca tive jeito para folião. Ao carnaval nada devo. Ele, a mim, muito menos. Terá sido um jogo insosso, sem gols nem apoteoses, um sonolento zero a zero.

 

Houve época em que creditei a minha falta de vocação ao fato de ter nascido e sido criado em Curitiba. Mas não poderia ser verdade, pois, durante a infância, ainda havia por aqui animados bailes, aos quais eu era, literalmente, arrastado por minha mãe. O problema não era o carnaval e, sim, eu mesmo.

Com o tempo, fui percebendo que não estava só. Fiz vários amigos cariocas e outros tantos baianos e pernambucanos, que sofriam do mesmo mal. Logo, não se tratava, apenas, de mais uma das minhas curitibanices. Essa percepção acabaria sendo reforçada nos anos em que morei no Rio de Janeiro, a capital do samba. Quem passa lá os dias de folia, encontra turistas do mundo todo, circulando numa cidade esvaziada de cariocas. Então, refugiar-se de Momo na Região dos Lagos seria uma carioquice? Obviamente, não.

Mas, realmente, nunca levei jeito para a coisa. Se não conseguia, sequer, ser um “pé de valsa”, um sambista é que eu nunca iria ser. Não nego a inveja que tenho daqueles que nascem com o dom de sair flutuando pelos salões, atraindo a atenção de belas mulheres, moças ou velhas, e os olhares invejosos daqueles para quem, como eu, a natureza foi impiedosa.

A verdade é que, com o tempo, o carnaval foi transformado em uma festa midiática, movida por interesses de poderosas fabricantes de cerveja e de empresários dos setores turístico e hoteleiro. Embora sejam eles os que mais faturam, o poder público é quem acaba pagando a conta, com o que nos arranca através de impostos. Claro que o dito poder público – leia-se, os políticos – não poderia perder a chance de angariar votos para as próximas eleições.

É igualmente compreensível que todos precisemos de momentos para fugir da dura realidade do dia a dia. Para esquecer de um mundo que não suporta mais tanto ódio, tanta guerra e intolerância religiosa, de tantas cidades cada vez mais inchadas e violentas. De uma Terra cansada de ver seus filhos, nós mesmos, que já passamos dos 7 bilhões, sugando o que lhe resta de energia.

Tudo bem: tem muita gente boa sobre a sua superfície. Porém, o que se percebe, é que a maioria tornou-se mal-humorada e mal-educada. Os humanos, cada vez mais, se detestam, assim como as suas religiões. As nações se odeiam, da mesma forma que seus políticos. É salutar esquecer disso tudo, nem que seja por alguns dias apenas.

Até aqui, tudo muito lógico. Mas existe aí algo mais do que uma simples lógica, que está transformando-a em perversa. Por detrás dela, à espreita, camufla-se o aëdes aegypti, pronto para também participar da grande festa. Escondido na falta de educação e na falta de saneamento básico, compromissos esquecidos pela irresponsabilidade do poder público, ele prepara a sua fantasia. Quando retirá-la, ele reaparecerá, já sem máscara, como Zica, Dengue ou Chicungunya.

Desculpem-me se estou sendo profeticamente apocalíptico. Diga-se, de passagem: nem sei se o “Apocalipse” acontecerá. Mas há sinais de que suas previsões vêm ocorrendo, lenta, mas continuadamente. Ele não aparecerá numa praça da apoteose. Quem sabe, um pouco mais além… De qualquer forma, desejo a todos os que não se sentem culpados por nenhum dos nossos males, que divirtam-se durante o carnaval. Afinal, ao contrário da dengue, ele só acontece uma vez por ano.

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