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Crônicas-->UM XERETA SOLTO NUMA CIDADE DO INTERIOR -- 25/08/2021 - 19:27 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

UM XERETA BISBILHOTANDO NUMA CIDADE DO INTERIOR

Juan de la Ville

Causou um certo frisson a notícia de que naquele minicongresso havia um xereta disposto a saber a vida de cada participante. Era uma notícia dura mas real.

Pelas informações que havia entre os participantes, chegou-se ao nome de um tal Rubênio. Esse era o nome do xereta. A presença desse xereta era praticamente desconhecido nos corredores da Faculdade que albergava  aquele seminário de Linguística. Tratava-se de uma reunião de professores de ensino básico e médio para debater algumas metodologias do ensino do Português. Sem nenhum título que jutificasse o à-vontade com que circulava  nos corredores da Faculdade, Rubênio mostrava uma deslavada cara de pau ao se ingerir em assuntos que não eram dele. Chegava-se ao cantinho ali onde Dona Sorocaba preparava o cafezinho que servia aos participantes do seminário e, muito intrometido,  aproveitava para meter conversa e saber tudo de cada um que por ali circulava. Além de Dona Sorocaba,  metia conversa com Igor, segurança  da Faculdade e encarregado de zelar pelo salão das comunicações e dos debates.

Eram visíveis os dois cenários que ali se estavam desenhando. De um lado, havia uma reunião científica e pedagógica de professores interessados no "aggiornamento" profissional na transmissão dos conhecimenos  para os jovens do Brasil. Do outro, um sujeito estranho com a qualificação direta de ser um coscuvilheiro atrevido que conseguiu se infiltrar num ambiente de padrão escolar sem que a opinião pública tivesse algum conhecimento sobre o motivo que o trouxera até ali. 

Ser professora, exercer uma profissão de grande responsabilidade e ter ainda a pouca sorte de ser inquirida, e ter sua vida balançada por um coscuvilheiro sem reponsabilidade, preocupava muito a Professora Juliete. Não é que ela tivesse segredos em sua vida. Era uma dona pacata. Mãe de família, com uma vida inteiramente dedicada à educação das crianças, todo o seu existir se caracterizava por um trabalho social. Gostava da paz e  buscava como primeirio ideal de vida uma maneira limpa de servir o Brasil , que amava de paixão. Estavam concentrados nisto todos os seus sonhos. Mas,  exatamente por ser pacata e de vida simples e limpa,   reagia a esta notícia com toda a indignação, porque via nela uma invasão indevida por uma pessoa estranha à cidade onde habitava.

O certo é que a notícia estava se espalhando pela cidade e tornava-se mais viva dentro dos corredores lustrados da Faculdade. Quase notícia alarmante, rumorejava já no salão  das palestras e  dos debates. 

A professora Julieta tinha se separado dois anos atrás e tinha uma filha de cinco anos. Sua consciência estava em paz.  A notícia da presença de um xereta nos ambientes  que  frequentava, criou nela, entretanto,  algumas interrogações.  Incluía nessa interrogações, o medo de que seu ex tivesse mandado ali um agente seu, sob a capa de xereta bisbilhoteiro.  Embora não tivesse nenhum sinal de suspeita, não deixava de se inquietar. - Quem será esse sujeito que anda por aí xeretando, perguntava a si mesma, com inquietação?

Já em plena rua, a colega  Gracinda acabara de se aproximar de Julieta e sentiu que a amiga estava precocupada. Ia a caminho do salão de debates  e convidou Julieta para a acompanhar.

- Vejo você preocupada, atirou Gracinda. O que se passa?

-A cidade toda, amiga, está falando de um cara estranho, vindo de fora, um cara que dizem ser fofoqueiro  - disse Julieta para Gracinda. Isso me inquieta.

-Não fica preocupada, Menina. Você tem a graça de Deus. Está isenta de comentários... brincou Gracinda.

Caminhando juntas em direção à Faculdade de Ciências, Letras e Filosofia acharam que ali poderiam obter mais informações do assunto em pauta. E até, porque não?   Poderiam saber alguns detalhes da fofoca que já se espalhava pelas ruas da cidade. Xereta invadindo direitos íntimos de pessoas?  Coisa estranha! Como pode?

- Dizem que se chama Rubênio, disse Juliete.

-Rubênio? Então já tem nome... Nesse nome "Rubênio" , vejo a derivação de "Ruben" e me vem à cabeça o termo "rubescente" que encerra uma referência à cor avermelhada. Estou vendo à minha frente um sujeito de cabelo ruivo, disse Gracinda....KKKK

-Em vez disso, de repente podemos até encontrar  um cara sem vergonha, incapaz de enrubescer... Riram.

-O que não podemos é deixar solta essa notícia sem buscarmos a proteção.

-Até porque se é verdade que o sujeito anda por aí   coscuvilhando, o caso transforma-se num sinal de perigo público.

- Sim, amiga. O pior é que é isso mesmo...

Pela apresentação que estão fazendo dele, sendo um  xereta, temos que nos acautelar.

-Ao chegar à Faculdade, Julieta e Gracinda resolveram ir tomar um café feito por Dona Sorocaba, velha amiga dos tempos da Faculdade.  Junto de Sorocaba, estava o velho amigo Igor,  segurança na Faculdade e figura  muito popular entre os estudantes.  Julieta e Gracinda aproveitaram para se inteirarem da fofoca sobre o xereta forasteiro que deambulava por ali  e quiseram saber detalhes.  Sorocaba e Igor deram todas as informações que circulavam nos corredores da Faculdade sobre o xereta.

Esgotada a curiosidade junto de Sorocaba e Igor, Julieta deu uma ideia a  Gracinda:

- E se déssemos uma esticada até à Biblioteca da Faculdade?Estava pensando no setor de referências.

-O que acha? Você me acompanha?

- Vou, claro. Acho ótimo.

Já nas referências da biblioteca, quiseram munir-se do conceito de xereta,  que vinha muito a propósito. Para não serem injustas na sua avaliação, decidiram como primeiro ato,  buscar  o Novo Dicionário  Aurélio de Línguia Portuguesa a definiçaõ de xereta.   Os termos dados pelo dicionário eram três:  bisbilhoteiro, intrometido e novidadeiro.  Riram. Olha, aqui, falou bem entusiasmada Julieta: "intrometido" é o termo que define em cheio. Sim, bisbilhoteiro completa bem, disse Gracinda.Depois, folheando o Dicionário Michaelis encontraram:  "aquele que se intromete em assuntos alheios de forma inconveniente".  Totalmente exato o conceito, disseram.

-Estou me lembrando agora, falou Julieta, do antigo porteiro de um prédio onde morei quando estava casada. Foi numa cidade do meu Estado.  Pelos detalhes que me foi dado conhecer, esse porteiro representava com perfeição a figura de um  xereta. Mais exatamente a figura de um  cão perdigueiro. Era tal o faro que não se dispensava de buscar saber com paixão e em detalhe tudo o que e passava em todas as estâncias do prédio. Buscava saber quem tocava a campainha de cada apartamento, as visitas que entravam ou saíam do apartamento, o tempo que demoravam, a que horas o dono saía ou entrava, o tipo de compras que o dono fazia quando ia ao supemercadoa. E, assim, coisas do gênero. 

- Estamos avançando bem em nossa curiosidade de definir esse fantasma do fofoqueiro que dizem andar por aí rondando a vida das pessoas  concentradas no Seminário de Linguística, disse Julieta.

- A propósito, estou me lembrando agora da pesquisa de uma colega minha, acrescentou Gracinda,  que estudou Filologia na PUC de S.Paulo e fez um trabalho filológico inédito sobre a figura do xereta.

-Verdade? - observou Julieta.

-Nesse estudo,  completou Gracinda, essa colega estudou obras literárias para ver a ocorrência do termo, chegando até  a pesquisar a obra Contos gauchescos e lendas do Sul de Simões Lopes Neto, que emprega a expressão. 

As duas amigas, animando-se cada vez mais, consultaram ainda O Dicionário de Língua Portuguesa online onde se diz que xereta é "aquele que se intromete na vida de outras pessoas".  A Infopédia qualifica o xereta com um mexeriqueiro.

- O que apavora as pessoas é ficarem, de pé atrás, sem saberem o que trouxe esse sujeito até aqui.

- Certamente, amiga. Mas deixa que o povão se encarrega disso. No momento, temos de entregar o caso ao vigário cá da terra e ao delegado e a um grupo de beatas que é muito conhecido por estas bandas.  Aproveitaremos, de nossa parte, para fazer uma pausa e aguardar mais notícias sobre o mapa das investigações que serão feitas pela delegacia e saber depois o que a população apurou após entrar na fofoca geral do povo. Ficaremos mais informadas e mais resguardadas assim.Entendidas???

- Ok, disse Julieta, meio resignada, mas acreditando muito no bom senso da amiga Gracinda.

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