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Contos-->Asas Quebradas - Segunda parte -- 05/12/2001 - 10:47 (Alexandre da Costa) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
VI

Do céu, eu olhava os mortais como meras peças de um jogo entre meu Deus e seu irmão. Xadrez que conduzia os humanos ao fim, ao começo, ao choro, ao sorriso. Sabia que os dois, Deus e Lúcifer, se divertiam enquanto brincavam com os destinos daqueles que imaginavam poder viver livremente, sem interferências. O homem achava que tudo podia mas não. Tudo estava escrito lá e cada página de sua vida vigiada era detalhada nos menores suspiros, nos mais inócuos anseios. Deus e seu irmão eram tão vaidosos a ponto de propagarem a todos os céus a mais ruidosa perfeição.
Quando fui chamado para a minha missão ainda não sabia o que os dois estavam preparando para mim. Apenas, como sempre, confiei na palvra de meu Deus. Jamais o trairia. Por isso, pensando na perfeição do jogo que eles disputavam apenas seguia o meu caminho. Tão ingênuo ao ponto de não saber que Lúcifer, aquele que me oferecera seu lar, também participava da brincadeira.
A estrada me levou a Maria e Luiz. Nada eu ainda conhecia sobre os desejos dos humanos. Desejos que na verdade não existiam. Os homens, porém, achavam que era só querer. Independente de saber a verdade sobre os seres da terra, me deixei absorver pela realidade perfeita daquele casal.
Maria estava grávida de cinco meses quando Luiz foi promovido na loja de calçados em que trabalhava, no centro da cidade São Paulo. Era um casal jovem, ambos tinham 25 anos, e como sempre diziam tinham um futuro grandioso pela frente.Viviam numa casa pequena do subúrbio, aluguel baixo, no entanto. Com o aumento salarial, Luiz finalmente poderia consertar a máquina de lavar da esposa. Os vizinhos os adoravam. A casa sempre estava cheia nos finais de semana. A família de Maria gostava de Luiz, principalmente sua mãe.
“É o genro que toda mãe sonha para sua filha”, cansava de dizer.
Da rua, eu via os sorrisos de Maria e o carinho sincero de Luiz. Era bonito ver aqueles dois juntos. Me fazia, realmente, acreditar que o que falavam dos humanos no céu era pura inveja. Maria saiu naquela tarde para fazer compras e preparar um belo jantar para o marido recém-promovido. Pegou o ônibus na Casa Verde, em direção ao bairro de Santana. Luiz já sabia que a mulher faria um verdadeiro banquete e por isso conseguira sair mais cedo do trabalho. Outra espécie de prêmio por tanta dedicação. Era tudo perfeito.
Por isso, antes das cinco da tarde, Luiz já estava em sua casa. Ele sabia que Maria ainda demoraria um pouco. Acabou pegando no sono. Teve um pesadelo que não soube distinguir o que era mas que o deixou assustado. Maria ainda não havia chegado.
O telefone toca. São 9:09 da noite. “Finalmente!”, comemorou Luiz, correndo para atender a esposa. Ela deve ter perdido o ônibus.
- Sr. Luiz Almeida?
- Sim.
Sem entender o por quê, o coração de Luiz dispara.
- Aconteceu um acidente...
- Maria? Meu filho? Que brincadeira é essa???????
- O senhor poderia vir ao hospital do Mandaqui?
- Eles estão vivos???
- Lamento, fizemos tudo o que podíamos. Lamento
Lúcifer sorria no inferno. Deus perdera de novo. E eu sofria com a dor de Luiz. Na mesa da cozinha, a sacola com o par de sapatos novos, que Luiz daria a Maria, é esquecida. Não haveria a festa, o filho, o futuro grandioso.
No enterro, me aproximei de Luiz. Ele me olhou com ódio, parecia saber que eu fôra enviado por Deus. Sentia a sua dor mais profunda. A dor da perda.
- Por quê?
Não consegui responder. Naquele dia odiei meu Deus pela primeira vez em minha vida. A perfeição se resumia ao fim.




Em casa, Luiz manteve o silêncio. Olhou os sapatos em cima da mesa, as fotos na parede e sentiu o suave perfume de Maria ainda espalhado pela casa. Encostou a cabeça travesseiro.
- Estava tudo tão perfeito...
Cansado, desabou num sono quase eterno. Sonhou com Maria e sua filha. O futuro....não existiria.....
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