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Contos-->O Relógio da Vida -- 22/01/2002 - 00:20 (A. ARIETTO) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
O Relógio da Vida

(Conto Premiado - ver abaixo)*

Autor: Leonardo de Oliveira Teixeira


A lua boceja, mostrando o velho colchão a me chamar, lembrando a velha raiva da necessidade de dormir um terço de minha curta vida. E a cada dia envelheço, tentando lidar com o medo de cair de maduro, igual as frutas do quintal.
Tudo é sempre cronometrado, tem seu horário marcado, seu próprio ritmo, como se houvesse uma grande agenda apontando os compromissos essenciais e aleatórios. Hora de comer. Quantas horas? Mas isso são horas? Como se Deus fosse um secretário, influindo nos afazeres e destinos. Quase um funcionário público: “Hoje não dá. Volte amanhã!”.
E os ventos do destino me empurram pelas ruas, pelos caminhos, pelos buracos, pelas montanhas. Quem, nessas alturas, brincaria com a minha história, com o meu destino?...
Mesmo assim eu vou, conquistando os materiais inúteis à minha alma, trabalhando... Lá se vai mais um terço de minha vivência, a ponta de uma lasca do tempo do mundo. Tempo... Lá vem ele de novo, cronometradíssimo!
Um escravo, com certeza, sem liberdade, preso por algemas invisíveis, acorrentado por questões e fatos cruéis, sem poder nada fazer. Na iminência de cortar o tempo, sempre frustada pela inércia eterna do velho cronômetro, vejo em flashes a vontade de pensar em uma solução. Sempre em vão. Rezo um terço ao secretário para mudar a situação. Peço. Insisto. Há trinta e dois anos cronometrados, nunca obtive a resposta...
O despertador soca meus ouvidos; devolvo em dobro, calando-o. Hora do sol, o atleta circular, incansável, sempre espeta meus olhos pela telha quebrada.
E os ventos do destino me empurram pelas ruas, pelos caminhos, pelos buracos, pelas montanhas, conquistando os materiais inúteis à minha alma, mais um terço representando minha presença...
Quanto mais corro, mais rápido é o desgaste. Quanto mais demoro, mais deixo de aproveitar a curta vida de meu momento. Sempre em luta, cronometrada, durante toda a vida, luto contra o fim dela. Mesmo sabendo do inevitável: o entardecer doentio, o enfraquecer da velhice, o medo de ser imprestável.
O almoço corrido força o estômago a trabalhar pelos dentes, reclamando que um terço do tempo de meu intervalo é pouco para suprir a digestão em três tempos.
Fico cansado das trilogias e tríades vistas em todo lugar, as tabelinhas do acaso, o triângulo amoroso, a instituição pai-mãe-filho, a geração avô-pai-neto, o juiz-autor-réu, a manhã-tarde-noite,...
Saio do trabalho doido para descansar, mas canso ao ver o trabalho me esperando para começar. Por isso, volto dedicando mais um terço para minhas responsabilidades eventuais, caseiras, agendadas, legando a saudade da despreocupação, das mulheres que já conquistei.
Mas não há jeito, mais um terço, no meio de tantos terços, se aproxima, e o novo esgota, fechando a rotina passageira.
A lua boceja, mostrando o velho colchão a me chamar ...




* * Conto selecionado no concurso realizado pela Casa do Novo Autor Editora Ltda (São Paulo – SP) e pela Litteris Editora (da revista CULT) como um dos dez melhores dentre cerca de 3.000 (três mil) contos, feitos por 1.090 (mil e noventa) autores brasileiros, a integrar o livro “Escritores e Escritoras de Ouro”.
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