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Cordel-->A VIDA DE ZÉ MATUTO! -- 26/10/2002 - 21:37 (Renato Souza Ferraz) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
RESUMO DE VIDA...A VIDA DE ZÉ MATUTO!



Era dia 13 de setembro de 1962, uma tarde preguiçosa de fim de inverno, com céu róseo-azulado...talvez por isso justifique sua preferência pela cor de rosa, desde menino.
Mas seu pai, cabra macho (também!) sertanejo, nunca aceitou esta preferência! Naquela época dizia-se que rosa não era cor para ser usada por homem...
Nascia, então, mais uma criança no seio materno de uma família simples, na cidade de Glória(SE); sendo esta especial! O menino era magrinho, raquítico mesmo, cabia numa caixa de sapato...a cabeça era exatamente do tamanho do resto do corpo. O bercinho que o aguardava era um cestinho de "vara-de-capar-bode" com um amontoadinho de palha seca de bananeira, no lugar do colchão.
Por um bom tempo a criança ficou sem nome...passaram-se alguns dias, depois resolveram dar-lhe o mesmo nome do pai e, José também foi batizado.
Não lhe fizeram o teste do pezinho porque acharam malvadeza furar o "pezim do bichim". Depois por insistência dos seus padrinhos, vindos, especialmente de "Sum Paulo" é que resolveram fazer o tal teste. Mas o Posto de Saúde de Glória (ele sempre a chamou de GULORA) tinha lá suas deficiências e a enfermeira ao invés de coletar o sangue do pé da criança, achou por bem furar a cabeça do "bichim"(já que era maior), logo na "muleira"! Não se sabe como ele escapou e se criou...Dizem que por isso ele ainda hoje é "apressadim", todo "ligeirim"... Mesmo assim ele cresceu rápido como um relâmpago e teve todas todas as "doenças de menino", em especial a "papeira" que como se sabe quase desce para as virílias, pela falta de repouso, pois o "danadim" era afoito e traquino demais...ainda hoje guarda as sequelas... suas buchechinhas cheias que o digam! O idioma que ele fala ainda hoje é "glorês", pois é uma mistura de vernáculo exclusivo de Glória com Português ( fala rápido), é uma pressa que "engole" palavras. Certa noite, com febre alta, passou-lhe "um vento" que o deixou desacordado por alguns dias e, de novo, quase morre...
José Almir começou a ser chamado em casa, de "Mizim", mas depois quando começou a frequentar as bancas da escola, o chamavam somente de Zé. Mais tarde porque "gozava" de muita intimidade, através do coito com os animais, como galinha, vaca e em especial a jumentinha, chamaram-no de "Zé da burra" e de "Zé da jega".
Apesar de frequentar a escola, Zé Almir guardou sua originalidade, ou seja, continuou matuto; assim, sendo chamado também de Zé Matuto e, Zé Matuto ainda hoje é! Desde criança manifestou seu gosto por comidas típicas da sua região, como bode, tripa, rim, rabada, moela, bofe, toucinho, tiú, cágado, tejo, calango, preá, cabeça de bode; em especial pelo preá, daí também o nome de Zé Preá.
Uma das passagens interessantes da sua vida foi durante a visita à cidade grande, sua "capitá" Aracaju. Zé tinha costume de acordar cedo, dormisse a hora que fosse. Dormiu, sem saber, com um travesti, após uma farra com os amigos; foi a sua primeira experiência sexual com ser humano, pois até então só as tinha com animais. Quando foi de manhã que levantou ainda meio zonzo, viu algo estranho "naquela" com quem passara os melhores momentos durante a noite... Parecia ter peito de borracha, a voz já não era mais tão suave e, o pior foi que não "mijou de coca" quando acordou e foi ao sanitário fazer xixi. O homem ficou doido quando soube se tratar da famosa Magnólia, travesti de muitas estradas percorridas na vida mundana de Aracaju... Era um machão assumido. Que decepção! Tomou um banho de álcool, gastou um tubo de pasta e uma escova de dente higienizando a boca. Vomitava que só cachorro envenenado... Cuspia que só um vulcão e praguejava que só trovão. Na noite anterior tinham trocado juras de amor, prometeu até um par de alianças e levá-la para conhecer sua cidade natal, mas e agora o que fazer? Os colegas sabiam da travessura? Teria sido feita uma armação para o "calouro machão"? Era a sua segunda decepção com "beijo na boca" ( a primeira sua língua foi mordida por uma jumentinha nova, durante a troca de carícias entre ambos). Foi difícil Zé curar aquela ressaca moral, mas a vida continuou e não era este fato que iria desestimulá-lo, seguiu em frente.

Em Glória quem tinha vaso sanitário e usava papel higiênico era rico, assim Zé Matuto fazia sua higiene, após as necessidades biológicas, com folhas de catingueira. Um certo dia, apressadin, trocou e usou folha de urtiga (espinho, velame, cansanção)...ficou sem poder sentar-se por bom tempo... Seus costumes eram estranhos mas justificáveis: quando viu uma bacia sanitária pela primeira vez, correu a banhar o rosto com sua água, produto precioso na região onde nascera. Aprendeu a usá-la, mas nunca sentou na mesma; conservou a posição denominada por ele como "de coca"...
Hoje, 40 anos depois, Glória está em festa, os rojões e busca-pés vindos de Estância (SE) pipocam em estrondo, o céu é um colorido de fogos, a dança é forró-pé-de-serra, a comida é buchada, tripa de porco, cabeça de bode e refogado de preá. A bebida é quentão, cachimbo, jurubeba, chouriço e mijo-de-moça. O filho mais ilustre daquele pequeno torrão está aniversariando e é quase um feriado municipal; sua avó D. Glória ( que deu nome à cidade ) comanda a festa e ele se apresenta com seu traje preferido, de gibão de couro de bode, alpercata de couro de veado, com óculos rayban reluzente, calça arroxadinha, cinto com fivelão, cuequinha rosinha justinha e perfume Men s Club; dança xaxado, xote e, espalha seu cheiro e "inchiremento" noite adentro...Mas uma coisa, nesta noite de hoje preucupa Zé Matuto, uma rezadeira (outros dizem que foi uma cigana...)havia feito a previsão que quando coincidisse seu aniversário com uma SEXTA-FEIRA 13 E FOSSE NOITE DE LUA, ele viraria lobisomem, como castigo; já que homem que faz safadeza com jumenta e come galinha viva está predestinado a virar bicho peludo! Ele está confuso e ansioso, pois talvez, apenas pela não coincidência da sexta-feira 13 com a lua cheia, não se realize a profecia nesta noite, mas ao mesmo tempo se isto vier acontecer, alimenta a esperança que os pelos que nascerem durante a transformação em lobisomem, pelo menos os da cabeça sobrevivam após o ato e lhe cubram a acentuada calvície, motivo de tristeza, já que ele é por demais vaidoso e careca!
Zé Matuto, embora guarde sua originalidade acompanhou o ritmo dos tempos, assumiu uma versão moderna, varou os tempos e acompanhou a tecnologia; é um exemplo de vida para a sua cidade e para a sua geração. Mostrou que é das adversidades que se constrói a vida, pois ao completar 40 anos, embora com a calvície acentuada, nunca usou peruca nem "mijou de coca", nem falou fino, nem brincou de "calunga" e, hoje mais uma vez com muita dificuldade, devido a seu regime de trabalho, faz sua faculdade e em breve será um administrador exemplar, pois quem soube administrar bem sua difícil vida, facilmente administrará qualquer setor ou empresa. Parabéns criança prodígio! Feliz aniversário, viva Zé preá, viva Zé Matuto!


Renato Ferraz

resofe@uol.com.br








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