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Contos-->Pescadores da Enchente -- 06/03/2002 - 22:49 (Alberto Nunes Lopes) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

“Do mesmo modo, não faz sentido a discussão do anjo com santo Agostinho, perto do buraquinho da praia, em que o anjo disfarçado de menino tentava despejar toda água do mar no muito pequeno buraco. Surpreso, com a atitude do anjo, o santo o advertiu sobre a impossibilidade; em seguida foi admoestado que não conseguiria com menor facilidade entender “o mistério da santíssima trindade", sobre o qual estava pensando fazia meses.”


Havia o homem que estava sentado ali. Na mesa, outros lhe faziam companhia. No salão, muitos deles levantavam o copo com estilo, inconfundível. O bar estava repleto. Será que a vida, do ponto de vista masculino, tem que começar com a cena do bar? ... Nem todos com certeza se perguntariam desta maneira. Talvez, quisesse a surpresa implicar com a questão, então fosse observado que aqueles que ali estavam tinham um destino a cumprir. Um certo destino ariaú que nem o próprio destino sabia o que representava vivendo tão somente pela aparência da exuberância da selva. Nessa vantagem, dormitava o rio mais caudaloso, e com este, seus afluentes, os quais iam afinando até as suas nascentes longínquas e desconhecidas.

Beber. Beber água. O rio que bebe água. O desafio para quem conseguir beber toda aquela água do rio. Os aventureiros, nordestinos, arribados da seca melancólica, miram-se no espelho daquela satisfação e se vêem prósperos. As garças, simplesmente brancas, têm longos pescoços e alongam-nos de vez em quando com o exercício de apanhar o peixe com uma bicada dentro d’água quando estão nas beiras rasas do rio ou do lago. Nas mesas do bar algumas garrafas possuem o pescoço longo como as garças, outras o gargalo é curto nada parecido com essas. Mas logo se tem a impressão, pela quantidade, que as garrafas são facilmente cheias com o volume da água daquele imenso mar disponível. A água é doce, porém nas circunstâncias de alguma mesa, presta-se a faze-los beber muito mais a presença de algum tira-gosto como tema ardente de sal e pimenta.

Pensar é falar. Porque alguns falam entusiasticamente, como se, seus cérebros fossem varridos por urtigas. Não importa o tanto que dizem, afinal mesmo apregoando o tempo tratar-se de conversa jogado fora, os mais costumeiros, com suas presenças, possuem uma sintonia como se fora a freqüência de uma rádio. Estão com a voz no ar. Falam alto e em bom tom. Todas as palavras e suas falas estão ao mesmo tempo no ambiente, nada perde o sentido. Porém, nenhuma santa razão conseguirá emprestar-lhe uma seqüência lógica. Não conseguirá dizer que os entende. Às vezes, para complementar o clima, algum desgraçado ainda quer que seja tocada aquela música; no que, diante de tantos ouvintes impassíveis, um certo tipo grita exigindo que se pare com aquele barulho.

Encher os copos e esvazia-los. Elogio ao espaço factível. Motivo de uma aparelhada discussão entre os da mesma mesa. Não existe espaço factível, quer uns. Outros acham que tudo e todos ocupando seus devidos lugares ao mesmo tempo não haveria mais lugar vazio no mundo. E mesmo que em última hipótese houvesse ainda um lugar, o mundo não seria mais o mesmo. Acentuadamente, com cara de preocupação, alguém aproveitando do breve suspense indaga até quando iriam fabricar carros, se a cada dia a cidade fica mais e mais entupida pela venda destes. Resolve-se o todo pelo gole, que é uma parte do todo. Retira-se do copo e despeja-se no mictório, a fio, atravessa o bueiro e deságua no rio. Até chegar lá, não é mais cerveja, é líquido; mesmo assim continua pingando, então balança, se não balançar acabará molhando a calça no local a uns poucos dedos abaixo do final do zíper da braguilha. Ante de mais nada a incontinência chega a ser um plano ideal. Por que?

Essa história de três em um é, realmente, bastante complicada. Diria melhor, foi mais complicada ainda lá pelos idos da Idade Média, em circunstância que o próprio ambiente por ser dimensionado em aposentos, cujas aspirações dos senhores e arquitetos era de se ter o mundo dentro de casa, desse modo não podia propiciar maiores vantagens no desempenho das explicações. A revelação sagrada: Pai, Filho e Espírito Santo. A versão profana, à moda francesa: ménage à troi. Hoje, iniciado o milênio, os supermercados estão abarrotados dessas facilidades, embaladas ou enlatadas, diria melhor, capturadas como um gênio na garrafa de fumaça. Ninguém esta entendendo nada, nem mesmo os que estavam sentados à mesa. Então, retoma a palavra o que fala mais, aquele que não consegue parar de falar um segundo absoluto e lança uma pergunta ávida pelo desvendar de certo mistério... o que é preferível, ir para o céu ou para o inferno? A resposta pareceu um recital de canto-coral... Ir para o céu. Mas logo, acentuou: assim como todos querem ir para o céu, a fila da entrada tornou-se a maior fila do mundo e padece de todas as ziquiziras das filas da face da Terra, seja as do Azerbaijão ou as do Cazaquistão.
Parece até com a fila do INSS, todo mundo chega de madrugada com colchonete e agasalho de frio e, depois de esperar quase uma eternidade para ser atendido, quando prestes ao atendimento, alguém grita lá de dentro que a ficha de consulta acabou, só no outro dia. Parece até com a fila de entrada no baile de carnaval, o porteiro vaticina que se não tem carteirinha, mesa ou convite, não entra. Porém, o da vez, começa a argumentar, e começa a demora, surge o caso, olha aqui... discute com o porteiro, não sou o Zé ninguém para ser tratado com falta de consideração. E pondera pra cá e papo pra lá, consegue algum empurrão a mais, enquanto a turma está impacientemente aguardando, cada um com seus álibis, na fila que não anda. E o dito começa a puxar justificativas e apresenta uma carteira de jornalista, falsificada. Nos ares, se não estiver úmido, o bafo de bebida alcoólica agride os olfatos mais apurados e o nervosismo se confunde com o ritmo frenético, carnavalesco. Talvez um beato, mais fanático, tente furar a fila. Parece até fila de Banco, na hora do almoço, a gente morrendo de fome e a falta de pressa, do Caixa, em negociar o que já está negociado, não combina com o perfil da rotatividade dos valores na compensação dos lucros do Banco. A fila fica estacionada, empacada como um jumento. Talvez um homem santo não tivesse que passar por mais esta provação. Enfim, o rabo da fila daqueles que optaram por ir para o céu, não pode passar despercebido entre os comentários daqueles que ainda têm ânimo para trocar algumas palavras. Comenta-se, mesmo estando na fila para entrar no céu, que a sua Santidade deveria tomar providências. Não seja o motivo, porque o céu tenha se tornado um apanágio dos excluídos da riqueza na Terra, que as coisas devam esbarrar nas situações e condições críticas como se apresentam. Aquela fila imensa estacionada em seus hemisférios nunca foi lembrada na hora das promessas da salvação. Agora, salva-te, de ti mesmo! Foge da fila!

A voz do anjo não é a mesma que a voz de deus. O anjo de papel da mais elevada singularidade assumiria a expressão de uma previsível solidão, ninguém mais lhe queria em companhia. Entrementes, vivenciou um anjo rebelde, expulso, condenado. Isso já faz muito tempo. Era por volta da época Medieval, havia um plano escrito com ferro e fogo, conquistava-se as fortalezas e muralhas, o espírito humano estava cheirando a estrume de quadrúpede. O orgulho e a glória percorriam de armaduras e cavalgaduras. O livro de papel era para o saber o objeto mais do que sagrado. Assim se fez o inferno. Como visto, através da resposta, ninguém gostaria de se tornar hóspede dessa casa de residência. Comentava-se que em seu interior ardia o fogo eterno, um forno com a temperatura mais elevada do que a do maior deserto do Continente africano. Um calor que nem mesmo os selvagens árabes do deserto suportariam. Se tudo isso for somado como desvantagem, com quer a lógica do judeu pastor de ovelhas ou pescador de almas, resta, apenas, uma única vantagem, não se faz fila. Desse modo ninguém precisa ficar na fila para entrar, qualquer pretendente vai passando direto tal e qual acontece com os artistas famosos nas entradas triunfais da festa do Oscar, no cinema de Hollywood. E quem vai para lá? ...Responde o cristão dando como exemplo o nome do governador de sua cidade, outro diz que também vai o prefeito, um outro aponta com certeza os banqueiros, porque todos esses são os que mais se locupletam da riqueza em detrimento do passar fome dos miseráveis sociais. Esses, os políticos, e ainda existem os banqueiros disfarçados de bispo ou pastor de igreja, convivem no leito das negociatas, acordam todos os dias excluindo dos seus cálculos as necessidades de sobrevivência e dignidade das almas pobres. Uma alma, se de pessoa pobre, querem crer, só tem influência, assim mesmo restrita, na porta do céu. Quanto à satisfação das necessidades típicas da matéria são contabilizadas no Caixa da rede do supermercado. Paga e leva. Não tem o dinheiro, morre de fome, para ir tão logo esperar na fila de entrada do céu. E se quiser, tornar-se, a realidade virtual do anjo rebelde, assalta o Banco, possa ser que com o apurado consiga entrar triunfalmente no inferno, mesmo que antes tenha que enfrentar a prova de fogo, que consiste em ser processado e livrar-se solto na medida em que conseguir satisfazer a ganância do magistrado que se alimenta de propina. E se ainda sobrar dinheiro, o lugar é mesmo a entrada triunfal do inferno. Pobre na Terra, diz o prognóstico, é a certeza de uma existência à base de imolação.

Como não deixar de rir? ...toda besta ri. Houve um tempo, em uma terra distante do princípio da criação do mundo, só alcançável pelas ondas da televisão, sinal de uma demente, outrora bruxaria, atitude em que ninguém mais desejava ir para o céu. Porém, algum espertinho, que não queria perder o emprego de pastor da igreja, se passando por analfabeto, continuava reclamando sobre a elevada temperatura do inferno, indisposto a agüentar tamanho suplício. Por esse motivo preferia o céu bíblico. Ora, todo os que sabem ler o jornal jamais montariam nesta idéia, pois que de uma hora para outra a instalação de um split, espécie de sistema de ar refrigerado, poderia transformar todo aquele ambiente tornando-o mais agradável. E veja, na circunstância de que o inferno é destinado aos corruptos, renomados ou anônimos, será que o governador da cidadezinha já não teria corrompido o diabo camerlengo para instalar no local um sistema desses! Ora, raios! Trovão! Tudo é possível neste mundo. No entendimento do ateu Joaquim Bezerra Marinho, que de tanto ser ateu foi reprimido, discriminado e esquecido por todos, tudo isso nada mais é do que conversa fiada para boi dormir. O que todos querem é ficar numa boa situação financeira, mesmo que a fila do céu continue sendo a maior de todas essas circunstâncias. Dizia mais, enquanto o sistema da previdência social anda falido, o esquema da salvação negociado através de pastores, bispos e padres, a cada dia está mais e mais saturado exalando fortes odores de enxofre.

Sei lá por que cargas d’água ainda não trouxeram para cá um bode expiatório de ouro. Mas, um ser, o qual pode ser descendente de cearense ou pernambucano, do agreste ou da cidade, convive com o espelho d’água e nele pode transformar a fartura em progresso, o desespero em fé, a desgraça em aposta. Antes, dizia-se que conseguiam fazer pacto com o diabo. Hoje, talvez, querendo ainda crer alguns, se façam novas tentativas. Contudo, só tentar não basta. Espera-se também pelo resultado do pleito eleitoral, no que pela democracia instalada se tem conseguido intermediar as questões opostas entre o céu e o inferno.

É preciso apostar, mesmo! Não me venhas apascentado como um cordeiro. É melhor uma aposta acompanhada de um desafio. E todos sentados, outros em pé, no ambiente do bar, bebiam como se tivessem apostado beber todo o líquido da face da Terra. Porém, o cabeça tonta apostou beber todo o volume d’água do rio Amazonas, depois que acabasse com todas as cervejas do mundo. Só podia ser! Queriam um motivo e aí estava um, bastante convincente, quanto mais tratado o assunto mais frenesi causava. Após muitas e muitas goladas quando se percebe a chuva ainda não terminou de cair.

As enchentes vão subindo. Os níveis são registros vivos. Assim o humor da vazante nunca é visto no período em que as águas baixam, embora se passe nessa época do ano. Somente em outra oportunidade é que será dado conta do fato ocorrido. Na medida em que as águas baixam o ritmo do trabalho ribeirinho aumenta. As almas transpirando sob o sol causticante parecem ameaçadas por algum destino irrisório pronto para rimar com purgatório.
cont...


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