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Contos-->ZULMIRACADEIRADORME -- 15/05/2000 - 17:51 (Alexandre A Mascarenhas) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Ela se prepara há algum tempo. E ao reconhecer a extensão da própria vida, Zulmira imagina que sabe lidar com as crises, aparentemente mais complexas, mais intensas, e vai levando como dá. Súbito, desliga o rádio e nota que está entre desconhecidos.
Escolhe um vestido que não causa má impressão, e o apanha, deixando no armário - o cabide. Sabe que a disposição diminuirá, aos poucos, até a míngua, prosseguirá minando e, então, desaparecerá! Portanto, ainda, apesar de se sentir ansiosa e preferir que não fosse ainda, havia um caminho pela frente, antes do que pensava ser o seu momento final, lembra-se do vestido de aparência sovada que sacou do cabide e já não existe entusiasmo.
A rotina se instalou de tal modo, que são limitadas as suas ocupações.
Sem prestar muita atenção, termina passando vários dias sem sair de casa. E, afobada, não encontra o que procura, porque faltam-lhe os condimentos. Quando não vê outra saída, arrisca outro passeio até a praça da feira, e pronto. Zulmira não conta com a ajuda de terceiros, vive em uma pequena casa. Em poucos passos aproxima-se da exaustão, enquanto mira a janela, onde deseja quase ardentemente se debruçar - e tão remota.
Embaraçada nos próprios delírios, Zulmira desiste de enfrentar os metros que se esticam até a janela e passa a varrer o ambiente, os olhos arregalados, à procura do apoio mais próximo, outra vez a impressão das coisas estarem rodando à sua volta... galgou o degrau, que nunca soube porque está ali e não vacilou ao escolher a cadeira mais alta, que também é velha e está próxima à mesinha de canto.
Uma ligeira gota escapou do filtro e acaba espalhando-se no piso da cozinha, veio outra e, um pouco depois, mais uma, não se sabe - com certeza - se a torneira apresenta uma leve imperfeição, ou se é esquecida de tal maneira, que não se sabe se está aberta, ou fechada. A tarde não passa. Zulmira não larga a cadeira. Antes de alcançá-la, presumia que não daria mais tempo. E, assustada, percebe que é quase impossível responder a si mesma como foi que conseguiu se safar dessa vez, a respiração vai ficando lenta e a sala - ameaça sumir - está nítida. Em seguida, os objetos menores recumperam o foco. A cadeira está acostumada com Zulmira e teme não se livrar das recordações que estão para chegar, segundo os seus cálculos, já que a tarde não passa e a janela está muito distante.
O jeito é torcer para que aconteça algo extraordinário, decide a cadeira, estática. Enquanto se convence de que Zulmira vai acabar se levantando: está praticamente recuperada e admite que se fosse possível a telepatia entre as pessoas e os móveis, a cadeira ficaria sabendo que não pretende se levantar antes do mergulho, que pode acontecer!
Costuma render-se, não imagina por quanto tempo, a um estado sonolente, que oscila de uma simples ausência, até o sono tenso e regado pela saliva, que lhe escorre abaixo do queixo.
Ultimamente, Zulmira anda mais do que preocupada e termina não dormindo o suficiente. Não é o caso de insistir, pois sono fugido é melhor ir embora, acredita! A parede, que divide a cozinha da sala, impede a reação de Zulmira, porque ela não pode ver a lagoa crescendo lenta e constantemente, enquanto as gotas se atiram do alto da pia, como se fossem suicidas! A janela era sonho.
As mãos de Zulmira conservam leve agilidade e se prestam a formar uma aba de dedos espalmados e vacilantes, porque ao abrir os olhos a claridade é muito intensa, teria de fechá-los novamente - e está indecisa, pois desconfia que não há mais sono, então os olhos abertos. A cadeira também desperta da imobilidade e acompanha Zulmira, que se espreguiça. As duas não sabem o que fazer. Talvez fosse melhor continuar dormindo, passa pela cabeça da mais cansada, enquanto a outra deseja um tempo livre. Entre uma gota e a seguinte, há um longo intervalo. Depois que saltam, costumam gastam sempre o mesmo tempo até o solo.
Não sabia exatamente o que estava sentindo, embora a falsa sensação de que está tudo bem e que nada de grave vai acontecer. Zulmira agita-se no lado escuro da sala e, ao se contorcer, descobre uma posição agradável. A cadeira tenta fingir indiferença, mas acaba gemendo. Não foi permitido a Zulmira acompanhar, desde o começo, o que estava se passando. A praça da feira deve continuar intacta, e como encontrar provas do seu possível desaparecimento, e pronto. Uma rápida vertigem enquanto voltava a si e não sabe ao certo.
O rádio desiste de reagir e fica calado, a cadeira também não dá mais um pio e a velha se envolve de tal modo, que se sente paralisada por uns instantes, porque olha fixamente para as sombras e os raios de luz projetados na parede, através da janela. Embora percebesse uma espécie de proteção, volta a sentir medo. O inesperado ocupa todo o campo visual de Zulmira; que se perde; enquanto tenta focalizar as imagens que se alternam bem ali, na sua cara. A tarde chega mais perto do fim e, mansamente, alguns riscos de luz tornam-se sensíveis e precisos. Não há mais brilho nos olhos. Sobrou apenas uma gota, desconfiada, que preferiu agarrar-se à torneira, enquanto mira o oceano sobre a cerâmica. Até que se solta.
A cadeira nunca mais raciocinou. E ao perder a noção da própria existência, prefere adormecer no seu sono quadrúpede.
Se bem que, outro dia, sonhou com uma tal Zulmira...
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