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Artigos-->APOSENTADORIA E ENCANTAMENTO: IDEAL DA VIDA E DA ARTE -- 19/05/2008 - 15:32 (Antonio Pereira Sousa) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos




APOSENTADORIA E ENCANTAMENTO: IDEAL DA VIDA E DA ARTE



Antonio Pereira Sousa



É somente através da Beleza que o homem faz seu caminho para a Liberdade.

Friedrich Schiller



RESUMO ABSTRACT



A vida se faz mesmo nesse misterioso elo entre passado, presente e futuro sustentando-se como experiência, realização e projeto. A cada instante desse, a vida pode se glorificar, independentemente dos naturais contratempos que apareçam. Com engenho e arte, os sonhos se concretizam nas diferentes estágios da vida, com sabores e cores variados. Na aposentadoria, a síntese se faz. O tempo que muda permanentemente, mais do que calidoscópio, é agora arquétipo temporal daquele que se aposentou, porque ele decide o que fazer como sujeito, dado que se tornou dono de seu tempo. The life makes itself in this mysterious link between past, present and future supporting itself as experience, accomplishment and goal. At every moment of this, the life can be glorified, independently of the natural misfortunes that appear. With device and art, the dreams come true in different periods of life, with flavors and many colors. In retirement, the synthesis is made. The time that changes permanently, more than kaleidoscope, is now a time arquetype of whom has retired, because he or she decides what to do as a person which has become owner of his or her time.



Palavras-Chave Keywords

Aposentadoria, Vida e Arte Retirement, Life and Art





Tomando-se como verdade que viver é uma luta em busca da realização de sonhos, aposentar-se é um desses sonhos, porque se ingressa em um novo mundo do contexto da experiência estética, da experiência do belo, em que o deleite do ouvir, sentir, saborear, vale primeiro, até mesmo no exercício de um novo trabalho. Vale agora o prazer, o encanto, que se consegue sobrepor em cada ação.

Essa noção de uma vida em que o quotidiano seria irmão do sonho advém dessa possibilidade que a aposentadoria confere ao sujeito: a de ser dono do próprio tempo. E nisso, o sentido da alegoria da vida se transforma, porque os gestos e as vontades têm a ver agora com o doce cultivar de um viver, distante do envolvimento instrumental dessa busca de ajustamento entre meios e fins, dentro das estruturas do trabalho produtivo, submetido à lógica do lucro.

Nessa condição de dono de seu próprio tempo, o aposentado não se transforma num flâneur, num ser que passeia sem rumo, desocupado, vadio. Ele, tão somente, recompôs a liberdade de poder agir independentemente do relógio de ponto, pois já superou essa fase inicial e inaugurou uma outra instância, um momento novo que reconstitui a sua origem, à semelhança do nascimento. Aposentar-se é ganhar o status da criança. Ele é a criança que experimentou o tempo e pode agora gozá-lo plenamente, a seu modo, como um prêmio conquistado no campo daquela luta árdua que o transfigurou de jovem em idoso; idoso, mas vivo e dono de seu tempo.

Viver essa nova fase é cantar a liberdade com o olhar de admiração de quem enxerga para além do sensível, é contemplar, é perceber as cores e os matizes, os sons e as harmonias, os enredos e os dramas, cada movimento, mas sem se perder naquilo que vê e sente, porque se está liberto das flutuações do sensível. Amealhar bens já não é preciso, porque há algo mais sólido e mais durável em jogo, o riso, feixe de luz que a alma produz na alegria de estar vivendo, abstraído do reino das necessidades dos interesses comerciais, dos interesses práticos imediatos.

Transportado para esse espaço que induz cantos, encantos, na liberdade de poder ser, na distância de um mundo pulverizado de fragmentos de puros interesses do ter, cada aposentado busca sua própria reafirmação na construção do conhecimento e domínio desse novo momento. E todos fazem suas escolhas: uns pescam, outros cantam, outros tocam, e dançam, e envolvem-se com diferentes leituras, viajam, entregam-se em paixões pela pintura, entregam-se nas vibrações religiosas, nos encontros de associações, criando, recriando; com o direito de “... amar e malamar... amar solenemente...”, como autoriza Drummond de Andrade (1967) ou o direito de cantar, vibrantemente, como fez Gonzaguinha:

.......................................

Viver e não ter a vergonha de ser feliz,

Cantar, e cantar, e cantar,

.......................................



E se é mesmo possível amar – cantar, viver esse novo instante, colhendo os frutos e as flores do bom semeador, maravilhando-se com as luzes do final do dia, no poente distante, numa espécie de idade de ouro, o aposentado transfigura-se num reclassificador dos valores do esforço, ao subordinar a importância dos bens materiais aos interesses maiores do prazer de viver, às subjetividades que envolvem contentamento, felicidade, voltando a praticar o abraço amoroso que reconstitui o afago quase que perdido nos meandros dos fazeres profissionais, enrijecidos pelas normas, pelos regulamentos que nos fizeram ser chefes, gerentes, membros de hierarquias criadoras de diferenças e distanciamentos.

Nesse caminhar, envolvido com os afazeres cotidianos, o aposentado alcançou o auge de sua experiência, chegou ao topo da montanha do viver, e de lá passa a enxergar toda extensão da planície e reconhece aquelas lutas que, um dia, foram suas, se vê naqueles jovens percorrendo os caminhos traçados por ele, e nisso seu espírito se revigora ao perceber o mistério do infinito se elaborando, nesse reacender da aventura da vida, reproduzida por outros interesses e por outras esperanças. E o aposentado percebe que ele se eterniza quando seus feitos são reproduzidos por outros que vêm depois dele.

A vida lúdica do aposentado é, assim, a resposta de um mundo que se civiliza ao possibilitar que a luta de seu viver confira a ele o prêmio da experiência estética, da apreciação do belo, ganhando de volta o sentido de sua própria totalidade, no renascimento da liberdade de poder escolher o modo de seu viver num tempo novo, o tempo da aposentadoria.

A vida, então, vira encantamento. O aposentado viu e sentiu a vida, e agora pode contemplá-la.

Ver e sentir.

Sentir é mais amplo do que ver, porque o sentir envolve o ver e outros níveis de percepção como saborear, ouvir, tocar, auscultar. Encantar-se é uma dessas faces do sentir que ativam valores fundamentais da possibilidade do riso; do contentamento que supera e elimina dores, justificando o prazer de conduzir a vida independentemente dos contratempos da realidade. O espírito que se encanta, como em todo sentir, resulta de uma aprendizagem, envolve-se com o mundo e se desenvolve e se fortalece cultivando-se. O aposentado usufrui desse poder.

Na contemplação daquele que se sabe dono de seu destino, de seu tempo, seu gesto de sentir é consciente, é ativo. Nesse sentido, não há passividade no contemplar. O belo que resulta dessa contemplação é a epifania da ordem universal que se busca como reconhecimento da possibilidade da perfeição, aprimorada a cada passo do fazer interessado no dia a dia, que vai da infância e se consagra no idoso, como ápice.

Muitos são, entre nós, os que se encantaram e se encantam vivendo o dia a dia. Do lúdico sonho que festeja nosso descanso, acordamos para viver os embates de cada dia no esforço de ter e de ser. É aí que a vida celebra a criatividade nos arranjos das invenções que melhor se ajustam à vontade de cada um de nós. Ver esse mundo, sentir esse mundo é viver essas vontades e fazê-las encantadas, prazerosas. A vida resulta desse esforço de maravilhar-se. Traduza-se isso no poder contentar carências, no poder reverter cansaços em vitórias. E onde está o encanto que queremos? Algures. Na alma talvez. Quando a voz que canta extasia-se, é a alma que deleita. Quando a poesia nasce, é o mundo que se desvela; cores, formas, harmonias, sensibilidades, tudo desperta. É o belo se mostrando pela arte independentemente dos vícios da finitude, apesar de todas as condições adversas da existência: “Ó vida futura! nós te criaremos” (Andrade – 1967). Confiança. O passado que nos fez é redivivo no futuro que projetamos, na confiança de “que a vida pode ser maravilhosa” . A arte, nessa missão de embelezar a corporeidade exterior reconhecida na ação, é substância da vida, representação da feição inicial do que somos, como se traduzido por Victor Hugo “o ovo, o ninho, a casa, a pátria, o universo”. Refúgio. Ela, a arte, é uma espécie de princípio e fim do sujeito que se move construindo grandezas, como no verso de Karl Kraus, Palavras em Verso: “A Origem é o Alvo” . Não é a perfectibilidade infinita do gênero humano que perseguimos quando organizamos o social? Quando defendemos nossas idéias? E quando rezamos para nossos deuses? Nessa possibilidade da perfeição, vê-se o ideal da arte - o encantamento - irradiando-se nos abraços que se confraternizam, nas lamentações que se evadiram no riso, no pão de cada dia que se conquistou, na garantia da esperança que se concretizou. Nisso, ver e sentir são a mesma coisa que viver. É se descobrir querendo, fazendo, sendo, na perspectiva das grandezas para além dos versos, do saber fazer bem, na idéia de que o cotidiano é inventado com mil maneiras de busca: “[...] cada palavra e cada gesto que cada um de nós faz é uma obra de arte [...]” , porque, afinal, o sujeito da ação, na sua maneira de fazer, realizou-se a si mesmo e aos outros. O encantamento está na plenitude dessa ação, ao configurar o ideal da arte, o deleite. Fazer e contemplar o feito é a face mais doce da ação, por inebriar e cristalizar o viver, momento mais elevado do ser. Se conseguimos fazer de nossa aposentadoria um encantamento é porque traçamos toda nossa vida com arte, como procedimento estético onde os gestos cotidianos sempre representaram uma busca do belo, tal como expressou Friedrich Schiller (1963): “É somente através da Beleza que o homem faz seu caminho para a Liberdade”.























Referência Bibliográfica

ANDRADE, Carlos Drummond. Obra Completa. Rio de Janeiro: Cia. José Aguilar Editora, 1967.

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1966.

BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasileense, 1994.

CASSIRER, Ernst. Ensaios sobre o Homem. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

HEGEL, Jorge Guilherme Frederico. Estética – A Arte Clássica e a Arte Romântica. Lisboa-Portugal: Guimarães Editores, 1972.

SCHILLER, Friedrich. Cartas sobre a educação estética da humanidade. São Paulo: Herder, 1963 - Coleção pensamento estético.

TEIXEIRA, Jerônimo. Drummond Cordial. São Paulo: Nankin Editorial, 2005.

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