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Artigos-->Cem Anos de Miguel Torga -- 22/07/2008 - 18:25 (Lita Moniz) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Cultura



Cem Anos de Miguel Torga



Quando me propus a criar um artigo sobre Miguel Torga para homenagear os cem anos de seu nascimento, duas opções surgiram diante de mim, deixar a professora de Literatura Portuguesa e Brasileira falar ou deixar que o próprio Miguel Torga falasse por ela. Optei pela segunda por me parecer que estaria cometendo um sacrilégio parafraseando um escritor de tamanha grandeza.





Por isso esta singela homenagem sairá recheada de frases e versos do próprio autor. Miguel Torga, pseudônimo de Adolfo Correia Rocha, nasceu em 12 de agosto de 1907, em São Martinho da Anta – Vila Real. Filho de gente do povo, que arrastava a custo, o pesado jugo de uma existência pobre, bem cedo precisou deixar o lar para sair pelo mundo à procura de algo que lhe proporcionasse condições mínimas de prosseguir nos estudos.





E assim vieram o seminário, e mais uma vez “Navegar é preciso”. O Brasil foi sua terceira parada, e um marco na estória daquele que viria a ser um dos maiores escritores do século XX. Seu tio era, em Minas Gerais, um plantador de café, e logo percebeu que seu sobrinho podia ir bem mais longe; propôs-se então a financiar os cursos dos liceus e depois da Universidade de Medicina em Coimbra.





Sobre deixar sua terra e sua gente assim tão cedo, mais tarde diria:

“No fundo, foi bom eu ter abandonado a casa paterna quase ao nascer. Fiquei sempre a ver as palhas do ninho como penas de aconchego. Não houve tempo para a mínima erosão. Envolvidas numa redoma de saudade que nunca foi quebrada, as impressões infantis guardam toda a pureza de um amanhecer sem ocaso. Intemporal e mítica, a paisagem geográfica é nos meus sentidos uma perpétua miragem; quanto à outra, à humana, tais virtudes lhe descubro, que parece que só junto dela sou gente."





Já médico decide ficar em Coimbra:

"S. Martinho foi o lugar de onde. Coimbra o centro desse mundo misterioso e apaixonante que de lá perspectivei." São Martinho de Anta e a região serrana típica de trás-os- Montes passaram a ser recordações de uma infância em liberdade, de uma felicidade infantil única, apesar da rudeza de vida.

A paisagem agreste de trás-os-Montes será o pano de fundo a marcar suas obras e estilo. O valor do homem está associado à total integração deste ente com a natureza: do trabalho árduo, exaustivo brotam searas, vinhas e todos os demais produtos que o vão ajudando a se fixar num lugar agreste, hostil, com um clima que parece querer expulsá-lo dali. Cada estação do ano é um desafio para extrair dela o possível e o impossível.





A paisagem duriense feita de socalcos é um atestado vivo de um trabalho humano de muitas gerações. Uma obra magnífica criada por mãos calejadas acostumadas ao azedume da vida.

“ bichos que cavam no chão/ actuam como parecem/ sem um disfarce que os mude”

Assim retrata Miguel Torga aquela gente sofrida, e exalta-a; ali está o valor do homem limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte mas também capaz de criar, de se impor à natureza. Os lavradores trasmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras, moldaram o meio, fizeram a natureza.





Atrevo-me aqui a transcrever partes do diálogo entre Miguel Torga e Jorge Laiginhas, Escritor, em dois copos de conversa com Miguel Torga em Alijo, por me parecer a mais perfeita explicação para o que Miguel Torga carinhosamente chamou de” Reino Maravilhoso”:

“ Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos.”





Ou quando se refere aos emigrantes e às festividades locais:

“Andem por onde andarem, os filhos da terra nunca se esquecem deste dia, que lembram saudosos, de olhos marejados, quando não podem estar presentes, para cumprir promessas ou para saudar a bela Senhora que sempre os protege.”





Ou ainda quando descreve sensações próprias quando regressa à terra natal:

“Já dentro da terra, então, é como se uma represa de sensações rompesse de repente o dique do esquecimento e alagasse a planície da lembrança. Tropeço em cada pedra, bebo em cada fonte, vou de anjo em cada procissão”.

Aos 27 anos adotou o pseudônimo Miguel, homenagem aos escritores espanhóis Cervantes e Unamuno, ao pintor, escultor e arquiteto da Renascença Miguel Ângelo, e ao anjo que vencera o demônio, Miguel Arcanjo.





Torga, está vinculado à sua origem: tal um torgo, endurece corpo, mente e alma para resistir ao caos da vida, e nisto se faz igual à maioria dos habitantes daquela região.





Suas obras têm caráter humanista. Suas poesias de resistência são um cântico à liberdade. Quando se deu o 25 de Abril em 1974, queriam fazer dele um socialista, mas Miguel Torga resistiu, nunca se filiou a partido algum, e dizia “ O meu partido é o mapa de Portugal”.

Muitos foram os espetáculos em Trás-os-Montes, nas demais regiões de Portugal, e até no Brasil, para homenagear o centenário de nascimento de Miguel Torga. A média também assinalou a data com espaços dedicados ao ilustre escritor trasmontano.





O presidente de Portugal, Cavaco Silva numa mensagem de homenagem assim se expressou: “A obra de Miguel Torga constitui um reencontro com Portugal naquilo que a pátria tem de melhor e mais profundo”, ... "Na sua escrita forte como um grito, um apelo da terra que o viu nascer, na sua exemplar dignidade cívica, na inteireza do seu caráter, reencontramo-nos com Portugal".





Diz ainda nesta mensagem que em seu discurso de tomada de posse utilizou a expressão “Nesga de terra debruada de mar” de Miguel Torga porque ela sintetiza com perfeição “ O Portugal que somos”



Lita Moniz

Colaboradora do JORNAL MUNDO LUSÍADA



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