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Artigos-->O TRIO FANTASMA - 5a Parte / A CURA -- 20/08/2008 - 22:01 (A.Lucas) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
ATENÇÃO: Este trabalho está sendo apresentado em cinco partes, para conveniência dos leitores. Sugiro que esta ordem seja respeitada para melhor compreensão.



É claro que ao falar em “cura” alguém pode ser levado a imaginar o trio fantasma como uma doença, mas prefiro entender “curar” como “dar atenção a” (conforme a nota ao final do item “Orgulho”). É importante também ter em mente que o trio, por si só, não é o problema e sim o mau uso que, por diversos motivos, fazemos dele. Aqui também abro mão do meu respeito à metodologia científica e alerto que todas as observações e conclusões são puramente empíricas.



Vamos começar pelo que, semanticamente, é o mais fácil de aceitar: o antídoto para o “mau medo” é a coragem.



No “Moderno Dicionário da Língua Portuguesa” (Michaelis) encontramos:

Coragem - sf (fr ant corage) 1 Força ou energia moral ante o perigo; ânimo, bravura, denodo, firmeza, intrepidez, ousadia. 2 Constância, perseverança: Sofrer com coragem. 3 Desembaraço, franqueza, resolução. Antôn: covardia, medo.



Observando agora algumas frases de homens célebres sobre a coragem temos:



“Coragem é resistência ao medo, o domínio do medo, e não a ausência do medo.”

(Mark Twain)



“Quem perde seus bens perde muito; quem perde um amigo perde mais; mas quem perde a coragem perde tudo.”

(Miguel de Cervantes)



“A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.”

(Aristóteles)



Nos antônimos citados acima (no verbete do dicionário) temos uma aparente ambigüidade no sentido das idéias que tento exprimir aqui. Afinal de contas, qual é o oposto da coragem: o medo ou a covardia? Na frase de Mark Twain temos uma resposta interessante para esta pergunta, mas, se podemos considerar a Coragem como uma Virtude (assim mesmo, ambas com maiúsculas) estaremos propensos a concordar também com Miguel de Cervantes e Aristóteles. Sugiro, a esse respeito, que o leitor interessado na “cura” para o trio fantasma preste atenção nos significados apresentados no dicionário para a Coragem, abaixo acompanhados das minhas interpretações pessoais:

- Força ou energia moral ante o perigo: se lembrarmos que o perigo é o responsável pela “ativação” do medo, seja ele bom ou mau, real ou imaginário, percebemos que essa “força” é aquele domínio ao qual Mark Twain se refere. Repare que, neste caso, “resistência” não é no sentido de luta ou força física, mas o refinado domínio do sentimento, algo próximo daquilo que buscam os zen-budistas e não do que buscam os boxeadores. Algo que aquele menino que viu no ato de suportar a dor e controlar o medo a única chance de escapar do ataque de um cão feroz, bastante mais forte que ele.

- Ânimo, bravura, firmeza, intrepidez, ousadia: aqui vemos algo que agradaria bastante a Miguel de Cervantes e todos os que admiram os “Princípios da Cavalaria”. Segundo o autor de Dom Quixote, a coragem é mais importante do que amizade e bens materiais e, certamente, ele estava se referindo à coragem gentil, serena e equilibrada como convém a um Cavaleiro, aquela coragem de olhar de frente os próprios “moinhos de vento” e que, segundo Aristóteles, é a virtude que garante a existência e o funcionamento das demais. Aqui, o grande exemplo é o piloto de competição correndo de volta aos boxes para dar nova largada com o carro reserva.

- Constância, perseverança, desembaraço, resolução: também aspectos pouco lembrados do que é necessário para enfrentar o medo. Quem é que tem tempo para ser perseverante nesse mundo corrido, nesse tempo do descartável? Quem consegue perseguir seus objetivos com afinco, estando sujeito a tantos revezes? Aqui o melhor exemplo é a passageira da asa delta e sua viagem ao Rio de Janeiro.



Vale mencionar também a excelente obra (não significando que eu concorde integralmente com o autor) de André Comte-Sponville, “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” - Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1999 - Tradução de Eduardo Brandão (disponível na internet em http://br.geocities.com/mcrost04/index.htm).



Para o “mau orgulho” o antídoto que sugiro é a humildade, e aqui teremos novamente um problema lingüístico. No mundo do sucesso obrigatório e da alegria indispensável (e também da felicidade virtual) a palavra humildade é, com freqüência, entendida como algo servil e, como tal, nada recomendável. O próprio dicionário Michaelis apresenta definições um tanto discutíveis (para o meu entendimento), citando-a como: “1 Virtude com que manifestamos o sentimento de nossa fraqueza. 2 Modéstia. 3 Pobreza. 4 Demonstração de respeito, de submissão. 5 Inferioridade.” Sinto muito, mas devo discordar do dicionarista. Não entendo humildade como manifestação de fraqueza, de pobreza (nem material nem moral nem espiritual), de submissão ou de inferioridade. Entendo-a simplesmente como a capacidade de reconhecer meus próprios limites, de reconhecer que não sou perfeitamente belo, não sei tudo, não posso fazer tudo. Felizmente o dicionário apresenta a humildade como virtude, e aqui vale nova consulta à citada obra de André Comte-Sponville, da qual tomo a liberdade de citar trechos:

“A humildade é uma virtude humilde: ela até duvida que seja uma virtude! Quem se gabasse da sua mostraria simplesmente que ela lhe falta. Isso todavia não prova nada: não nos devemos gabar, nem nos orgulhar, de nenhuma virtude, e é isso que a humildade ensina. Ela torna as virtudes discretas, como que despercebidas de si mesmas, quase negadas. (...) Essa discrição é o sinal – ele mesmo discreto – de uma lucidez sem falha e de uma exigência sem fraquezas. A humildade não é a depreciação de si, ou é uma depreciação sem falsa apreciação. Não é ignorância do que somos, mas, ao contrário, conhecimento, ou reconhecimento, de tudo o que não somos. (...) É a virtude do homem que sabe não ser Deus.”

O melhor exemplo de humildade, dentre os já mencionados, é o do novato. Como descrevi ao contar o caso, o “incentivo” necessário para vencer o medo de descer foi o medo ainda maior de ficar um tempo indefinidamente grande no alto da torre, mas apenas a humildade para reconhecer que sozinho não poderia vencer seus medos o fez gritar por mim e aceitar todas as minhas “ordens” sem discutir (e sem dar uma palavra sequer durante toda a descida). Um aparente contra-exemplo, mas que na verdade reforça minha teoria, é o dos Srs. H e G que, inicialmente, perceberam apenas o inimigo superficial (o medo, num caso, e o orgulho, no outro) mas precisaram de algum “treinamento” para adotar a prática da humildade (deste tipo ao qual me refiro aqui e não a humildade subserviente, do tipo “capacho”).



Os antídotos que descobri para a “má preguiça” são a Boa Vontade e a Autodisciplina. Aqui mais uma vez é necessário cuidado com as palavras, pois é comum ouvirmos falar em Força de Vontade, seja para deixar um vício, seja para resolver uma situação qualquer. Novamente, não vamos nos deixar levar pelo significado moderninho para “força de vontade” mas, ao contrário, vamos buscar o que é a boa vontade em seu sentido mais amplo, para o que considero importante lembrar do Mahatma Gandhi: “A força não provém da capacidade física e sim de uma vontade indomável.”

Se, por um lado, as dores causadas pelo medo e pelo orgulho nos empurram na direção de buscar a sua própria cura, por outro lado, apenas da vontade indomável de não ficar estagnado pode vir a cura da preguiça, já que esta tem como principais armas a “má vontade” (a vontade de fazer pouco ou nada), as falsas certezas de que “o mundo é assim mesmo, fulano é assim mesmo, não vai dar tempo, não vai dar certo...” Aqui, o melhor exemplo que posso citar sou eu mesmo. Lembro-me bem de um comentário do Jô Soares em seu programa, dizendo-se um preguiçoso e que, por esse motivo, trabalhava muito. Também me enquadro nessa categoria, pois, apesar da preguiça já ter feito estragos que considero irrecuperáveis em certos aspectos da minha vida, isso não me impede de continuar “na batalha”. Precisei, por motivos pessoais, dar uma guinada na minha vida profissional alguns anos atrás e não posso dizer que tudo já esteja completamente recuperado, mas nem a idade (que, afinal, nem é tanta, mas também já não é idade de estar construindo carreira) nem a preguiça me impedem de continuar trabalhando, estudando, fazendo exercícios. Consigo, com uma pequena derrota aqui outra ali, vencer minha preguiça e essas pequenas derrotas acabam até mesmo sendo produtivas – seja no sentido didático, seja no sentido literal (hoje, para escrever este texto, adiei a ginástica). São bons exemplos também a passageira de asa delta e o piloto de competição, que fizeram um belo trabalho sobrepujando uma possível preguiça, para a qual as justificativas seriam perfeitamente aceitas por qualquer pessoa, por mais exigente que fosse, ao considerar as dificuldades que se lhes apresentaram nas situações anteriormente descritas.



Mencionei acima a autodisciplina e, quanto a esta característica creio que não há muito que discutir (nos comentários sobre o dicionário vimos “perseverança” – uma das faces da autodisciplina). É sempre bom lembrar, porém, que a autodisciplina baseada na FORÇA de vontade nos torna um bocado chatos e tem uma enorme tendência a nos envelhecer antes da hora, já que pode virar intolerância (e esta deve ser evitada a qualquer custo, pois é prima-irmã do “mau orgulho”). Com BOA vontade, entretanto, a autodisciplina é algo bem agradável e, quando acaba por se tornar um hábito, não nos deixa ser chatos – afinal a autodisciplina mais a tolerância bem dosada são virtudes. É certo que algumas pessoas (tenho exemplos próximos) não concordam com isso e tendem a considerar os autodisciplinados (como eu) pessoas “meio exigentes demais”, mas isso é só um alerta para mim: preciso ser um pouco mais tolerante.



Lembrando meu comentário inicial sobre estar aberto a discutir o assunto, quero finalizar deixando aqui o registro daquela que considero a minha receita de vida:

CONCEDEI-ME, SENHOR,

A SERENIDADE NECESSÁRIA

PARA ACEITAR AS COISAS QUE NÃO POSSO MODIFICAR,

CORAGEM PARA MODIFICAR AQUELAS QUE POSSO E

SABEDORIA PARA DISTINGUIR UMAS DAS OUTRAS.



Alexandre Lucas Rezende Cordeiro - agosto de 2008

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