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Contos-->Soneto de Despedida, Carta Suicida -- 24/02/2002 - 10:35 (Alessandro Ramos) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Deseje que não caia sobre mim
A cólera por ter renegado
Essa que é a mais divina
A vida.

Torça para que enfim
Eu consiga algo de diferente
Nessa estrada imensa
Que desejo não ser infinita.

Não me condenem nem me chamem de louco
Apenas um adolescente mimado e revoltado.
Há muita coragem, não sou covarde.

Faço isso porque não agüento
Sofrer a cada despertar
Estou apenas indo procurar meu lugar.


Minha jornada está no fim. Aqui me despeço dessa vida, apesar de ainda estar no começo da trilha. Pode ser uma atitude prematura sob os olhos de muitos, mas na minha opinião é tardia. Me machuquei mais do que deveria em apenas 19 anos de vida. Mas hoje concertarei a estupidez da vida ao me pôr nesse mundo. Parto em paz, digo, e feliz. Não guardo mágoa de nada (auto-enganação de novo...) e posso dizer que partirei desse mundo sem deixar rastros da minha existência. As pessoas que me conhecem não sentirão minha falta, os que me odeiam vão abençoar minha inexistência e meus familiares nem sabem que existo. Outras primaveras virão, outras pessoas tomarão meu lugar. Não faz sentido permanecer sem ter motivos para continuar. Estou cansado, não há mais nada para se fazer aqui.

Nesse momento que a desejada morte se aproxima, vejo quão doce foi minha vida. Tive uma infância magnífica, fui criança levada e vadia. Era polícia ou ladrão entre as aulas, escrevia erradas cartas de amor às meninas por quem ingenuamente me apaixonava. Tinha amigos por todos os cantos, nos divertíamos quebrando vidraças, estourando bombinhas em garagens e queimar campainhas, depois jogávamos bulica nos terrenos batidos, corríamos pelo mato para caçar passarinhos e procurar fantasmas da carochinha. Namorava as vizinhas e amigas da prima, como eram ingênuas, me aproveitava um pouquinho delas. Trocávamos beijos babados sem saber o que estávamos fazendo, escondidos de suas mães na casinha de bonecas, no fundo da casa. Amávamos como os adultos que víamos nas novelas. Fui também um ótimo colecionador de revistas da Turma da Mônica, que ganhava do pai e da irmã.

Na adolescência, farta em travessuras e loucuras, fui rebelde nos tempos de colégio, não dava bola para namoros, até certa idade, preferia a companhia dos colegas da turma do fundão, participava e até liderava as piores coisas que o colégio já tinha visto até então. Mais tarde comecei a conhecer a beleza do rock e do samba, sair à noite para me embriagar e conhecer gente nova. Fiz tudo o que tinha vontade na cama. No bar... algumas pessoas sentirão minha falta quando notarem a ausência dos meus ataques de loucura no videokê.

Porém, as coisas são diferentes agora. As meninas com quem eu trocava abundantes salivas na minha infância, imitando os personagens de novela agora são pervertidas mulheres que nem se lembram que um dia o amor era apenas mais uma brincadeira, como quando me obrigavam a brincar de boneca com elas para continuar o “namoro”. Além de que, se uma criança de hoje imitasse o que vê na televisão, rapidamente tornar-se-ia ninfomaníaca. A nova geração brinca cercada pelas grades das casas, pois tem pesadelos com ladrões, seqüestradores e balas perdidas. Trocaram a bola e os amigos por babás eletrônicas e virtuais que destroem suas mentes. Crescem alienados, mimados, fúteis. Temo por quem ficará para ver as gerações futuras.

Meus amigos de algazarra do colégio, agora estão casados, viraram dignos trabalhadores ou esforçados estudantes. Coitados que correm para não perder seu lugar no mundo, sonham apenas com um carro novo ou um apartamento maior. Passarão o resto da vida com a cara enfiada em livros técnicos para agradar seus patrões e aumentar a quantia de migalhas que receberão no final do mês... não terão tempo para si. Pior os pobres que não conseguiram tanta sorte. Sofrem com a falta de conforto e tem que fazer coisas que não gostam (ou não deviam) para garantir seu sustento e poder pagar suas contas.

Não quero ficar aqui para ver tudo ruir a um palmo do meu nariz. Ver homens devorando a si mesmos para conquistar o topo mais alto da cadeia alimentar secundária. Não quero mais ver isso. A vida para mim acaba agora, que estou virando adulto nesse mundo de loucos. Não quero me vender para sobreviver. Prefiro morrer a ter que matar. Tenho meu ideal, e força para segui-lo, prefiro a morte a ter que encarar essa vida. Isso não é vida! A vida não existe, e a realidade é o que se cria na cabeça de cada um.

A única maneira de consertar tudo o que foi destruindo, é destruindo a mim mesmo. Tenho o poder da vida e da morte em minhas mãos. Posso criar um novo ser, assim como extermina-lo. Eu tenho o poder de um Deus. Eu sou Deus em meu mundo. Se eu não existir mais, tudo o que criei em minha mente se apagará. Estarei salvando esse mundo da perdição, lavando sua sujeira com meu sangue.

Mas não posso deixar de imaginar o que me aguarda do outro lado da vida. Não sei se serei riscado da existência, ou se terá algo mais que a vida. Poderei voltar imediatamente como um bebê chorando pelo golpe da vida desferido pelo médico, ou como uma lagartixa ansiando o céu, que só o alcançará depois da sua metamorfose. Ou então um ser estranho de outro mundo, cujas possibilidades de formas são tantas, que essa minha carta não teria mais fim se supusesse todas as que me passam pela cabeça. Poderia ser um anjo para servir de soldado na luta contra o inferno. Ou mesmo um demônio. Descobriria o segredo das coisas místicas que nos rege? Poderia eu ver a face de Deus, mesmo que me amaldiçoando? São tantas as possibilidades que o risco da inexistência não me assusta, e atiça o meu grande lado da curiosidade, que não me deixa esperar que o momento da descoberta chegue.

Mesmo que isso me traga uma loucura fantasmagórica, algo que realmente desejo é seguir, como uma força espiritual, a alma daquela que aprisionou minha felicidade. Michele. Acompanhar de perto seus momentos de alegria, e tomar em meu corpo imaterial suas dores. Remoer-me de ódio e loucura eternamente ao vê-la dama nos braços de outro homem. Não desviaria o olhar um segundo sequer. Toda a dor do mundo é pouco para eu aprender a não depender de nada. Mereço ser um banshee rancoroso por todo o sempre por não ter competência para segurar a única pessoa que amei.

Nada é real, está tudo na mente. Pergunto-me se o perfume dela também era apenas uma materialização dos meus sonhos mais profanos. Seus lábios delicados que tantas vezes acariciaram meu corpo, delírios de uma divindade solitária. Aquele olhar de tamanha beleza e mistério que me fazia desejar não querer dormir para mergulhar em saudades até a próxima fintação, uma criação caprichosa de alguém que pouco tem em emoções fortes. Mas não importa. Michele está morta. E eu mesmo fui seu coveiro. Jamais mexerei em tal sepultura, pois temo que ela desperte de seu sono eterno para abrir ainda mais as feridas que me abriu.

Tomei árduos golpes por toda a vida. Jamais tirei as adagas que os demônios cravaram em todas as partes do meu corpo. A dama que cruzou meu triste caminho, como um raio de sol em meio às trevas, apenas me deu o golpe mortal, ao esconder novamente tão belo brilho entre nuvens sombrias. O destino me arrasta para tão trágico fim, e não eu. Essa culpa não carregarei para o túmulo. Porém, pularei agora do vale infértil da vida, me jogando sem hesitação do penhasco da dor direto para o frio e reconfortante abraço da morte. Essa é a razão de eu deixar esse mundo. Sei que não devo explicação de nada, mas deixarei essa carta e esse soneto, já manchados de sangue para que, por uma tola precaução, todos saibam que a vida não me é bem vinda, a auto-extinção é melhor que caminhar sem rumo descalço sobre brasas quente e que a tristeza de perder o amor só não atinge quem partiu primeiro.











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